Dezesseis policiais militares, entre agentes da ativa, reformado mestão sendo submetidos a processos disciplinares que podem resultar na expulsão dos quadros da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Segundo a investigação, os agentes integravam ou mantinham vínculos com o núcleo de segurança pessoal e territorial do contraventor Rogério de Andrade.
O grupo era responsável, entre outras funções, pela proteção de Rogério e de seus familiares, pela segurança de pontos clandestinos de exploração de jogos de azar em Bangu e pelo monitoramento de ações policiais e de integrantes de uma organização criminosa rival.
A investigação identificou um grupo de mensagens chamado “Castelo Branco 2”, com 31 participantes. Segundo os elementos reunidos no procedimento, as conversas eram voltadas exclusivamente à segurança dos pontos ilegais de jogos de azar controlados pela organização em Bangu.
Nos diálogos, os integrantes tratavam do recolhimento e da distribuição do dinheiro obtido com a exploração dos pontos, chamado de “encomenda”, das escalas de serviço e da vigilância sobre operações policiais. As conversas utilizavam codinomes e linguagem cifrada.
Braço-direito do chefe da segurança
Entre os investigados está o subtenente Pinheiro, apontado como braço-direito de seu irmão, que ocupava a chefia da segurança pessoal de Rogério de Andrade.
Segundo a investigação, Pinheiro atuava pelo menos desde 2016 na organização das escalas dos seguranças, no cotidiano do serviço, no pagamento de subordinados, no contato com policiais corruptos e no monitoramento do grupo rival comandado por Fernando Iggnácio.
Ele também teria chefiado a segurança dos pontos de exploração de jogos de azar de Rogério em Bangu. Em uma das conversas analisadas, a investigação aponta que o policial recebia R$ 50 mil mensais pela função.
Pinheiro acabou expulso da PMERJ por sua atuação em favor da organização criminosa, mas posteriormente foi reincluído aos quadros da corporação. A reinclusão consta de publicação no Boletim da PM nº 095, de 30 de maio de 2025.
PMs monitoravam rivais e ações policiais
Outro subtenente, identificado pelas iniciais GB, aparece em conversas com Pinheiro sobre o monitoramento de ações policiais, pagamento de propina e levantamento de informações sobre integrantes do grupo rival, chamados de “vizinhos”.
Nas conversas, segundo a investigação, aparecem referências a integrantes do grupo de Fernando Iggnácio, assassinado em novembro de 2020, e a Jorge Crispim Silva dos Santos, executado em junho daquele ano.
O material aponta ainda que a expressão “convites para uma festa surpresa” era utilizada em conversas relacionadas aos rivais, em um contexto que, segundo a investigação, indicava intenção de eliminá-los.
Pagamento de propina e proteção dos pontos
O subtenente WT é apontado como responsável por intermediar pagamento de propina destinado a policiais corruptos. Ele também informava sua localização nos pontos determinados por seus superiores e comunicava o cumprimento das ordens recebidas.
Já o subtenente reformado RB teria fornecido sua conta bancária para o recebimento de valores relacionados à estrutura investigada.
O policial reformado conhecido pelo vulgo RD aparece em conversa com Pinheiro relatando sua atuação no fechamento de pontos de jogo clandestino que não tinham autorização da organização. Ele também teria atuado para impedir a venda de cigarros contrabandeados em locais controlados pelo grupo.
Nas conversas, Rogério de Andrade era mencionado pelos integrantes por expressões como “tio” ou “00”.
Caso envolvendo hospital
A investigação também analisou a atuação de Pinheiro em um episódio ocorrido em setembro de 2017, quando ele teria acompanhado Rogério de Andrade ao Hospital Barra após sua companheira, Fabíola de Oliveira, sofrer um ferimento provocado por disparo de arma de fogo.
Imagens das câmeras de segurança do hospital foram utilizadas para confrontar a versão apresentada pelo policial durante a investigação. Segundo o procedimento, Pinheiro teria utilizado sua condição de policial militar para facilitar o atendimento e a circulação no local sem comunicar o fato ao seu comandante.
O policial afirmou não conhecer Rogério de Andrade, mas a investigação considerou que as imagens e demais elementos reunidos contrariavam essa versão.
Outros policiais
Entre os demais PMs que podem ser atingidos pelos processos disciplinares estão agentes identificados pelos vulgos TK, SG, GG e Moa.
Moa é apontado como integrante da segurança dos pontos de exploração ilegal de jogos de azar, atuando na proteção dos locais e no transporte do dinheiro arrecadado. Segundo a investigação, ele chegou a sugerir a abertura de um bingo legalizado sob a fachada de uma instituição beneficente, proposta que teria sido rejeitada pela liderança da organização, que preferia manter a atividade clandestina.
O PM conhecido como Iraque também aparece no material apreendido na Operação Calígula, realizada em maio de 2022 em um imóvel de Rogério de Andrade na Barra da Tijuca. Segundo a investigação, ele permaneceu no núcleo de segurança de Bangu pelo menos até fevereiro daquele ano e recebia R$ 3.500 mensais.
Já o PM BT teria ficado encarregado de apurar o roubo de máquinas de exploração ilegal de jogos de azar, tratadas nas conversas como “máquinas” ou “brinquedo”. O furto era atribuído a integrantes do grupo rival, novamente identificado pelos investigados como “vizinhos”.
PMERJ vai analisar conduta disciplinar
A PMERJ sustenta que os agentes teriam violado o dever de fidelidade com a corporação e os princípios de hierarquia e disciplina.
Segundo a corporação, os processos disciplinares não têm como objetivo substituir a atuação do Poder Judiciário na apuração de crimes. O foco é avaliar a conduta ético-disciplinar dos militares e verificar se eles reúnem condições ético-morais para permanecer nos quadros da instituição.