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SÉRIE ESPECIAL: O cerco se fecha: CV avança enquanto milícias tentam conter a própria fragmentação

Nosso site inicia hoje uma série de artigos que pretende ajudar o leitor a compreender uma das disputas mais complexas do crime organizado no Rio de Janeiro: a guerra pelo controle de territórios entre milícias e facções criminosas.

O primeiro capítulo do especial é dedicado às milícias — grupos que durante décadas construíram extensas áreas de influência na capital e na Baixada Fluminense e que, nos últimos anos, passaram a sofrer uma pressão cada vez maior do Comando Vermelho.

A história das milícias no Rio, porém, está longe de ser marcada apenas pelo confronto com as facções. A fragmentação dos grupos, as disputas internas, as traições e as tentativas de formação de alianças também fazem parte dessa guerra.

Da Liga da Justiça à milícia de PL

Um dos principais grupos paramilitares atualmente existentes no Rio tem origem na antiga Liga da Justiça, organização criada nos anos 1990 pelos irmãos Natalino e Jerominho.

Ao longo dos anos, a estrutura passou pelo controle de nomes que se tornaram conhecidos no submundo do crime do Rio, como os então policiais militares Batman e Toni Angelo e, posteriormente, os irmãos Carlinhos Três Pontes, Ecko — ambos já mortos — e Zinho.

A área de influência do grupo se concentra principalmente em bairros da Zona Oeste, como Guaratiba, Campo Grande, Santa Cruz, Cosmos e Inhoaíba, alcançando também o município de Itaguaí.

Atualmente, o comando está nas mãos de PL, que enfrenta uma situação cada vez mais complicada.

Além das disputas internas, que já provocaram diversas mortes, o grupo vem sendo pressionado por sucessivos ataques do Comando Vermelho, que tenta avançar sobre territórios historicamente controlados por milicianos.

Um dos principais braços dessa ofensiva é o Bonde do RD, comandado por um ex-miliciano que rompeu com o antigo grupo e passou a atuar ao lado do Comando Vermelho contra as milícias da Zona Oeste.

A crise também provocou uma debandada de integrantes da própria organização de PL. Alguns deixaram a milícia e aderiram ao CV.

Entre eles está Zero, que chegou a conceder entrevista desafiando publicamente PL, expondo o grau de tensão existente dentro da organização.

Juninho Varão e a disputa pela Baixada

Outro grupo de grande importância é o comandado por Juninho Varão.

Sua principal área de influência está em Nova Iguaçu e Seropédica, na Baixada Fluminense, mas a organização ampliou seu território ao absorver a milícia do Guandu, em Santa Cruz, anteriormente comandada por Waguinho.

A expansão de Varão acabou colocando o grupo em rota de colisão com a milícia de PL.

Os dois grupos protagonizaram diversos confrontos no início deste ano, em uma disputa que deixou mortos tanto na Baixada Fluminense quanto na Zona Oeste do Rio.

Varão também passou a controlar áreas que anteriormente estavam ligadas a Tandera, que durante anos foi apontado como um dos principais chefes de milícia da Baixada Fluminense e que teria desaparecido.

A disputa demonstra como as fronteiras entre os diferentes grupos podem mudar rapidamente: territórios que antes pertenciam a uma organização passam para outra depois de mortes, rupturas ou acordos.

Rio das Pedras: um território estratégico

Em Jacarepaguá está uma das milícias mais tradicionais do Rio: a organização que atua em Rio das Pedras.

O território se tornou um dos principais alvos do Comando Vermelho, interessado em ampliar sua presença na região e formar um cinturão de comunidades sob influência da facção.

A milícia de Rio das Pedras é comandada por Taillon, filho de Barriga, um dos nomes históricos ligados à organização criminosa que durante décadas exerceu influência sobre a região.

Diante da pressão do Comando Vermelho, a milícia teria buscado alianças com o Terceiro Comando Puro (TCP), principal rival do CV no Rio.

A aproximação revela uma característica cada vez mais evidente da guerra no Rio: inimigos históricos podem se aproximar quando existe um adversário considerado ainda mais perigoso.

Nos últimos anos, as milícias ficaram bem enfraquecidas na região Sudoeste do Rio.


Os grupos paramilitares perderam várias áreas para o CV na Grande Jacarepaguá como Praça Seca, Tanque, Taquara, Vargem Pequena, Gardênia Azul, Itanhangá e para manter a sobrevivência se associaram ao TCP para manter territórios em Vargem Grande.

Catiri e Curicica também estão na mira

Outra milícia de grande importância está instalada no Catiri, em Bangu. O grupo é comandado por Montanha e também vem sendo alvo de ataques do Comando Vermelho nos últimos anos.

Em Jacarepaguá, outro nome de destaque é Boto.

A organização tem como principal área de atuação Curicica e, em determinado momento, também dominou o Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes.

Assim como outros grupos paramilitares da Zona Oeste, Boto também enfrenta a pressão do Comando Vermelho, que tenta ampliar seus territórios na região.

Uma união contra o CV é possível?

Com o avanço do Comando Vermelho, surgiram recentemente rumores de que os principais grupos paramilitares poderiam tentar estabelecer uma espécie de união para enfrentar a facção.

O problema é que essa não seria a primeira tentativa.

Em diferentes momentos, chefes de milícia já ensaiaram aproximações para tentar conter o avanço do Comando Vermelho. Essas articulações, porém, esbarraram justamente em um dos principais problemas das próprias milícias: a disputa pelo controle de territórios e a rivalidade entre seus integrantes.

No início deste ano, por exemplo, milicianos de Jacarepaguá entraram em guerra.

Dois dos principais personagens daquela disputa, Fabi e Léo Problema, acabaram mortos.

PL e Juninho Varão também chegaram a ensaiar uma aproximação, mas o acordo não prosperou após a morte de Jiraya, que foi fuzilado em Nova Iguaçu.

O inimigo comum não elimina as velhas rivalidades

A situação resume o atual cenário das milícias no Rio.

De um lado, os grupos enfrentam um inimigo comum: o avanço do Comando Vermelho sobre territórios que durante anos estiveram sob domínio paramilitar.

De outro, continuam existindo disputas internas, rivalidades antigas, interesses territoriais e conflitos pela sucessão de áreas deixadas por criminosos mortos, presos ou afastados.

É justamente essa fragmentação que dificulta a formação de uma frente única contra o CV.

A guerra, portanto, não acontece apenas entre milícias e facções.

Ela também acontece dentro das próprias milícias.

E entender essa divisão é fundamental para compreender por que o mapa do crime organizado no Rio muda constantemente — e por que cada morte, rompimento ou aliança pode provocar uma nova disputa por território.

Este é apenas o primeiro capítulo.

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