Antes desconhecida do grande público e revelada agora em detalhes por documentos que tramitam na Justiça, uma história ocorrida há pouco mais de três anos expõe como um policial militar de folga escapou de uma emboscada após ser atraído por um falso serviço de reboque anunciado pela OLX, na entrada da Cidade de Deus, em Jacarepaguá.
Segundo a denúncia do Ministério Público, o caso ocorreu na tarde de 6 de abril de 2023, por volta das 14h, na Rua Quintanilha, principal acesso à comunidade. De acordo com a acusação, os denunciados, em conjunto com Raphael Ferreira Marçal, o “Careca”, já falecido, teriam armado uma emboscada para executar o policial militar C.N.L.M .
Ainda conforme a denúncia, Cristiano trabalhava como reboquista nas horas de folga e havia sido contratado, por meio de um anúncio na OLX, para remover um veículo HB20. Ao chegar ao local indicado, foi recebido por Raphael, que se apresentou como suposto primo do contratante do serviço.
Durante a inspeção do automóvel, o policial percebeu indícios de irregularidades. Segundo o Ministério Público, ele constatou divergências na identificação do veículo, encontrou fios cortados no painel multimídia e passou a suspeitar que o carro pudesse ser produto de crime. Diante da situação, enviou uma mensagem a um amigo, também policial militar, solicitando o envio de uma viatura ao local.
A denúncia afirma que Raphael percebeu a mensagem e imediatamente telefonou para os demais envolvidos. Pouco depois, dois homens chegaram em motocicletas, ambos armados com pistolas equipadas com carregadores conhecidos como “lata de goiaba”.
Conforme a acusação, ao desconfiar que a vítima era policial, um dos denunciados teria sacado a arma e dito: “Ih, é polícia, vai morrer!”.
Segundo o Ministério Público, diante da ameaça iminente, Cristiano sacou sua arma ainda de dentro da cabine do caminhão-reboque e iniciou uma intensa troca de tiros. Durante o confronto, ele foi atingido na perna esquerda e na mão direita, mas conseguiu se abrigar e reagir aos disparos, impedindo que os criminosos se aproximassem e concluíssem a execução.
Ainda de acordo com a denúncia, em meio ao confronto, Raphael Ferreira Marçal tentou tomar a arma do policial pelo lado oposto da cabine do caminhão. Nesse momento, Cristiano reagiu e efetuou disparos que atingiram Raphael, que morreu no local.
Os demais denunciados conseguiram fugir logo após o confronto. O policial militar foi socorrido e encaminhado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, sobrevivendo ao atentado.
A denúncia sustenta que o homicídio somente não foi consumado por circunstâncias alheias à vontade dos acusados, já que a reação da vítima foi determinante para frustrar a execução. O caso segue em tramitação na Justiça, e os fatos narrados representam a versão apresentada pelo Ministério Público na ação penal.
As investigações tiveram novos desdobramentos após o atentado. Segundo os autos, o Ministério Público recorreu da decisão que rejeitou a denúncia, sustentando que a acusação foi reforçada pelos depoimentos de dois traficantes presos, que apontaram a participação de “Di Latão” na ação criminosa.
De acordo com o recurso, Wesley afirmou ter ouvido de moradores da Cidade de Deus que o reboquista, posteriormente identificado como policial militar, foi atraído até a comunidade para remover um veículo suspeito. Ainda segundo seu depoimento, após a vítima desconfiar da origem do automóvel, “Careca” teria acionado outros traficantes para executar o policial. Wesley também declarou que “Di Latão” participou do ataque e que o segundo atirador seria “Russinho” ou “LC”, sem conseguir precisar qual dos dois.
Outro depoimento citado pelo Ministério Público é o de Rafael, que declarou ter ficado sabendo que, além de “Careca”, outros integrantes da organização criminosa participaram da emboscada, entre eles “Di Latão” e “BMW”. Segundo seu relato, o HB20 envolvido no caso era utilizado por traficantes da Cidade de Deus e permanecia sob os cuidados de “Gaspar”, que pretendia consertá-lo para posteriormente vendê-lo.
Rafael também afirmou ter ouvido que, após a morte de “Careca” durante o confronto, integrantes da facção passaram a comentar que pretendiam vingar sua morte e matar o policial militar.
Para o Ministério Público, os depoimentos apresentam pontos de convergência com a versão da vítima e reforçam os indícios de autoria. Já a defesa sustenta que as declarações são indiretas, uma vez que ambos os presos afirmaram apenas ter “ouvido dizer” ou “ficado sabendo” dos fatos, sem terem presenciado o atentado.