O miliciano que teve a fuga supostamente facilitada por policiais militares na Zona Oeste do Rio, em um episódio que terminou com a prisão de três PMs, é uma figura antiga da maior organização paramilitar do estado.
Marcos Paulo Rodrigues Júnior, conhecido como Orelha, integra há anos a estrutura da milícia que foi liderada por Wellington da Silva Braga, o Ecko, morto em 2021 durante uma operação policial.
Segundo investigações da Polícia Civil e do Ministério Público, Orelha atuava na região de Campo Grande e era apontado como um dos responsáveis pela cobrança das chamadas “taxas de segurança” impostas a comerciantes e ambulantes. Seu nome apareceu nas investigações ainda em 2017, durante uma operação contra cobradores da milícia que terminou em troca de tiros.
Na ocasião, policiais prenderam integrantes do grupo e apreenderam celulares que continham conversas, registros de monitoramento de viaturas e referências diretas à atuação de Orelha. A análise do material, somada a interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, levou os investigadores à conclusão de que ele participava ativamente da arrecadação de dinheiro para a organização criminosa.
Embora não mantivesse contato direto com Ecko, depoimentos prestados ao longo da investigação indicaram que Orelha integrava a cadeia hierárquica da milícia, subordinado às lideranças regionais responsáveis por repassar as determinações da cúpula. Policiais que atuaram no caso afirmaram que ele era uma figura conhecida dentro da organização e chegou a ser apontado como alguém com perfil de liderança local após o afastamento de chefes que atuavam em Campo Grande.
A defesa negou qualquer ligação de Orelha com a milícia e alegou que ele trabalhava como entregador de água, sustentando que as cobranças mencionadas pela investigação se referiam apenas ao recebimento de pagamentos de clientes. A versão, porém, foi rejeitada pela Justiça, que considerou os depoimentos dos policiais, as interceptações telefônicas e os demais elementos reunidos na investigação suficientes para comprovar sua participação na organização paramilitar.
Ao final do processo, Marcos Paulo Rodrigues Júnior foi condenado por integrar a milícia de Ecko a 6 anos, 2 meses e 20 dias de prisão em regime fechado.
A confusão
Policiais militares do Regime Adicional de Serviço (RAS), lotados no 40º BPM (Campo Grande), foram presos em flagrante após uma suposta tentativa de facilitar a fuga de Orelha em frente à 35ª DP (Campo Grande), na Zona Oeste do Rio.
Segundo o registro da ocorrência, agentes da Polícia Civil perceberam uma movimentação suspeita em frente à delegacia e identificaram que Orelha havia deixado uma das viaturas da PM, passando a caminhar livremente ao lado de outro homem.
Ainda de acordo com a investigação, um policial civil determinou que os envolvidos parassem. Neste momento, um dos suspeitos correu em direção à Avenida Maria Teresa e tentou escapar. Houve perseguição e até disparos de fuzil para tentar impedir a fuga.
Imagens das câmeras de monitoramento da delegacia teriam registrado uma suposta troca de presos dentro da viatura policial. A suspeita é que o homem inicialmente custodiado tenha sido substituído por outra pessoa momentos antes da entrada na unidade.
Orelha acabou sendo recapturado e levado de volta à delegacia. Três policiais militares foram presos em flagrante por suspeita de participação no episódio.
A Polícia Civil investiga agora as circunstâncias da suposta tentativa de resgate e a eventual participação de outros envolvidos no caso.