Recentemente, nossa reportagem publicou uma matéria informando que traficantes do Terceiro Comando Puro foram contratados para cometer um assassinato para pessoas ligadas ao bicheiro Rogério Andrade.
Depoimentos prestados à Justiça e documentos de investigações da Delegacia de Homicídios revelam detalhes da atuação do grupo de extermínio formado por esses traficantes que, segundo investigadores, realizava assassinatos sob encomenda para diferentes setores do crime organizado no Rio de Janeiro.
No centro das investigações aparecem Jhonathan Borges dos Reis, conhecido como “Esquilo”, já morto, e Caio Siqueira Ribeiro, o “Caio Piloto”, apontados por policiais civis como uma dupla especializada em execuções.
Segundo os relatos reunidos nos processos, eles não estariam vinculados exclusivamente a uma única organização criminosa. Pelo contrário: a dupla teria prestado serviços para milicianos, traficantes e até integrantes da contravenção, funcionando como verdadeiros pistoleiros de aluguel.
“Matavam para quem contratasse”
Um dos trechos mais impactantes dos depoimentos foi dado pelo delegado Leandro Teixeira Costa, que atuou nas investigações.
Segundo ele, as apurações apontaram que a dupla construiu uma reputação de extrema violência na Zona Oeste.
“Eles começaram a se envolver com o crime e começaram a matar por aluguel, indiscriminadamente. Matavam para a milícia, matavam para o tráfico, quem contratasse eles matavam”, afirmou o delegado em juízo.
A declaração reforça a suspeita de que o grupo não possuía fidelidade a uma única facção ou estrutura criminosa, atuando conforme os interesses de quem estivesse disposto a pagar pelas execuções.
Execuções em série
De acordo com os investigadores, diversas equipes da Delegacia de Homicídios chegaram ao nome da dupla durante apurações distintas.
O modus operandi era praticamente sempre o mesmo.
As vítimas eram surpreendidas por uma motocicleta. Caio conduzia o veículo e Esquilo ocupava a garupa. Quando se aproximavam do alvo, os disparos eram efetuados rapidamente e os criminosos fugiam logo em seguida.
O apelido “Caio Piloto”, segundo os próprios investigadores, surgiu justamente porque ele seria o responsável por conduzir motos e carros utilizados nas execuções.
“Sempre que o Esquilo estava, o Caio estava junto pilotando”, relatou o delegado responsável pelas investigações.
Morte de policiais entrou no radar da DH
A gravidade das suspeitas aumentou quando os nomes da dupla passaram a aparecer em investigações relacionadas ao assassinato de agentes de segurança.
Segundo depoimentos prestados à Justiça, Esquilo tornou-se alvo prioritário após ser apontado como envolvido em crimes contra policiais.
Um dos investigadores afirmou que uma operação da Delegacia de Homicídios voltada para casos envolvendo agentes de segurança foi desencadeada justamente após a morte de policiais.
“O que gerou a prisão dele foi a morte de um policial militar e de um policial penal”, declarou o delegado Leandro Costa durante audiência.
As investigações também apontavam que, após os assassinatos, armas das vítimas teriam sido levadas pelos criminosos.
Ligação com a contravenção
Além da atuação para milicianos e traficantes, os investigadores também citaram envolvimento da dupla em crimes relacionados à contravenção.
Um policial civil afirmou em juízo que Esquilo era tratado nas investigações como um matador profissional.
“Era um matador até de aluguel, de contrato. Inclusive está envolvido em homicídio ligado à contravenção do jogo do bicho”, declarou.
A afirmação reforça uma das principais linhas investigativas da Delegacia de Homicídios: a de que a dupla teria se transformado em uma espécie de braço armado utilizado por diferentes grupos criminosos.
Do apoio à milícia à aproximação com facção
As investigações indicam que a trajetória criminosa da dupla teria passado por diferentes fases.
Inicialmente, segundo os policiais, os suspeitos circulavam em áreas dominadas por milicianos na região de Guaratiba, Vargem Grande e adjacências.
Posteriormente, passaram a atuar em conflitos ligados ao tráfico de drogas.
Segundo os investigadores, no fim da trajetória criminosa ambos já estavam diretamente ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP).
Os depoimentos apontam que os dois chegaram a residir na comunidade da Vila do João, no Complexo da Maré, de onde saíam para realizar execuções e ações ligadas à expansão territorial da facção na Zona Oeste.
Testemunha descreveu dupla como “matadores”
Uma testemunha ouvida em outra investigação também atribuiu à dupla a prática de diversos homicídios.
Segundo o depoimento, Esquilo e Caio eram conhecidos na região por realizar assassinatos sob encomenda.
O relato afirma que:
Esquilo seria o executor;
Caio atuaria como motorista e piloto
Execuções ligadas aos chamados “botes”
As investigações revelam que parte dos homicídios atribuídos à dupla estaria relacionada aos chamados “botes”, expressão utilizada no mundo do crime para designar furtos, roubos, desvios de dinheiro, drogas ou mercadorias pertencentes a traficantes e milicianos.
Segundo os autos, a execução de Helivelton Ragazzi Marcelino, conhecido como “Pitico”, teria sido motivada justamente por um conflito desse tipo.
De acordo com testemunhas e investigadores, Pitico teria criado problemas para uma “estica” — ponto de venda de drogas ligado a Esquilo — provocando prejuízos aos interesses do grupo criminoso.
Um dos depoimentos afirma que a vítima teria dado um “bote” em um dos homens que trabalhavam para Esquilo na comercialização de entorpecentes.
A reação teria sido imediata.
Pouco depois, Pitico foi executado a tiros em Barra de Guaratiba.
Outro homicídio teria ocorrido após adulteração de drogas
Os autos também mencionam o assassinato de um homem identificado como Felipe.
Segundo relato prestado por uma testemunha à Polícia Civil, Felipe teria sido morto após supostamente adulterar cargas de cocaína pertencentes ao grupo criminoso.
O depoimento aponta que ele teria aberto pacotes da droga e alterado seu conteúdo, causando prejuízo financeiro aos traficantes.
A suposta traição teria resultado em uma sentença de morte.
Investigadores afirmam que testemunhas atribuíram a execução à dupla formada por Esquilo e Caio.
Um histórico marcado por mortes
Embora cada caso possua investigação própria, os depoimentos reunidos pela Justiça apontam para um padrão que se repetia constantemente: assassinatos realizados em motocicletas, ataques rápidos, vítimas ligadas a disputas do crime organizado e motivações frequentemente relacionadas a dívidas, traições, “botes” ou conflitos entre grupos criminosos.
Para os investigadores que atuaram nos inquéritos, o histórico atribuído à dupla revela uma estrutura que ultrapassava as disputas locais e operava como um verdadeiro grupo de extermínio a serviço de diferentes interesses criminosos, deixando um rastro de execuções que teria atingido integrantes do tráfico, pessoas acusadas de dar prejuízo a organizações criminosas, membros da milícia e até agentes de segurança pública.