A investigação sobre a execução de Fábio Romualdo Mendes, morto em 2021 em Vargem Pequena, revelou um detalhe explosivo que expõe um novo patamar da ligação entre contravenção e tráfico no Rio: integrantes de um grupo ligado ao bicheiro Rogério Andrade teriam recorrido a um traficante associado ao TCP para executar um homicídio ligado à guerra interna do jogo do bicho na Zona Oeste, que agora é Zona Sudoeste
O caso, que voltou aos holofotes após decisões recentes da Justiça, mostra como criminosos da contravenção passaram a utilizar a estrutura armada de facções para resolver disputas territoriais e eliminar adversários.
Segundo a Delegacia de Homicídios, o traficante conhecido como Jonathan Esquilo, apontado como integrante do TCP e suspeito de diversos assassinatos na Zona Oeste, teria sido contratado para atuar diretamente na execução de Fábio.
Em depoimento considerado um dos mais impactantes do processo, o delegado responsável pela investigação afirmou que Jonathan “matava para milícia, para o tráfico e para a contravenção”, funcionando como uma espécie de matador de aluguel da guerra criminosa na região.
A polícia sustenta que o criminoso atuava principalmente em áreas como Vargem Grande e Guaratiba e que, nos últimos anos, passou a integrar o TCP, sem abandonar os serviços prestados a outros grupos criminosos.
Segundo a investigação, Jonathan Esquilo era conhecido justamente por atuar para quem oferecesse mais dinheiro, independentemente de facção ou organização criminosa. O delegado afirmou em juízo que o traficante “matava para quem pagasse mais”, sendo usado em execuções ligadas ao tráfico, à milícia e até à contravenção.
CONTRAVENÇÃO E FACÇÃO: A ALIANÇA QUE ASSUSTA INVESTIGADORES
O ponto central da investigação não é apenas o homicídio em si — amplamente noticiado na época — mas a revelação de que a guerra do jogo do bicho na Zona Oeste passou a envolver diretamente traficantes armados do TCP.
De acordo com a DH, o grupo ligado a Rogério Andrade e ao bicheiro Flávio da Mocidade teria recorrido a criminosos especializados em execução para eliminar pessoas associadas ao grupo rival de Márcio Araújo, preso por outros crimes ligados à contravenção.
As investigações apontam que Jonathan Esquilo foi escolhido justamente por sua fama de pistoleiro profissional disposto a atuar para qualquer organização criminosa mediante pagamento.
Outro nome citado no processo é o de Caio Piloto, apontado como responsável por conduzir a motocicleta usada na emboscada. Piloto também é membro do TCP era um dos responsáveis pelos confrontos na disputa de território em Vargem Grande e Vargem Pequena, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
A polícia afirma que a arma utilizada no assassinato foi relacionada, por confronto balístico, a outros homicídios atribuídos ao traficante do TCP.
Jonathan Esquilo acabou morto posteriormente em confronto com milicianos.
GUERRA INTERNA NA ESTRUTURA DE ROGÉRIO ANDRADE
Segundo depoimentos colhidos pela Delegacia de Homicídios, existia uma disputa interna entre braços operacionais ligados à estrutura de Rogério Andrade na Zona Oeste.
O delegado responsável pelo caso afirmou que, após a prisão de Márcio Araújo, integrantes ligados a Flávio da Mocidade tentaram assumir áreas de exploração ilegal e eliminar aliados do grupo rival.
Fábio Romualdo Mendes, segundo a investigação, era considerado homem de confiança de Márcio Araújo e teria sido executado justamente por causa dessa guerra.
A investigação aponta que o grupo criminoso atuava de forma organizada, com divisão clara de funções:
- Thiago Soares Andrade Silva, conhecido como “Batata” ou “Ganso”, apontado como ligado ao grupo de Rogério Andrade, teria financiado e determinado a execução;
- Anderson “Papa” ou “2P” teria participado da articulação;
- Rodriguinho seria responsável pelo monitoramento da vítima e coordenação operacional;
- Bruno Estilo teria ajudado no levantamento da rotina de Fábio e no planejamento do ataque.
As quebras de sigilo revelaram mensagens sobre o monitoramento da vítima, tentativas anteriores de execução e comemoração após o crime.
Segundo a investigação, um dos envolvidos chegou a enviar vídeo da vítima baleada logo após os disparos.
POLICIAL MILITAR E MATADORES DE ALUGUEL
Outro ponto considerado alarmante pelos investigadores é a presença de um policial militar entre os integrantes apontados como participantes da organização criminosa.
A DH também identificou movimentações envolvendo transporte de armas, circulação de fuzis e acesso a criminosos especializados em homicídios por encomenda.
Os autos descrevem uma estrutura onde contraventores, traficantes, PMs e matadores profissionais atuariam em conjunto na disputa por territórios e dinheiro na Zona Oeste do Rio.
JUSTIÇA LEVA ACUSADO A JÚRI
Após a instrução criminal, a Justiça decidiu levar um dos acusados ao Tribunal do Júri por entender que existem indícios suficientes de participação no planejamento do homicídio.
Mesmo com parte dos investigados impronunciados nesta fase, o processo escancarou um dos cenários mais perigosos já revelados sobre a aproximação entre a contravenção carioca e facções armadas do tráfico.
Para investigadores, o caso mostra que a guerra do jogo do bicho deixou de ser apenas uma disputa entre bicheiros e passou a envolver diretamente criminosos do TCP, milicianos e grupos armados especializados em execuções.