Morto no ano passado no Complexo da Maré, o policial militar Gabriel Guimarães Sá Izaú passou as últimas horas de vida envolvido em uma sequência de acontecimentos que ainda deixa perguntas sem resposta para a investigação. Na noite anterior à sua morte, ele estava com a amante.
. Na manhã seguinte, voltou à casa dela bastante agitado, com um arranhão no rosto, e contou que havia acabado de ter uma briga séria com a esposa. Segundo a amante, Gabriel afirmou que a mulher o havia ameaçado com uma faca e, naquele momento, chegou a perguntar se poderia morar com ela.
Pouco depois, o policial deixou novamente a residência. Horas mais tarde, seria encontrado morto depois de entrar na Vila do João, em Duque de Caxias, área dominada por uma organização criminosa ligada ao tráfico de drogas. O que levou Gabriel até a comunidade, porém, permanece como um dos principais mistérios do caso. Familiares e pessoas próximas afirmaram à polícia que ele não frequentava favelas, evitava passar por regiões próximas a comunidades e não tinha, segundo os depoimentos, amigos ou parentes conhecidos na Vila do João.
A investigação resultou na denúncia do Ministério Público contra Nei da Conceição Cruz, o Facão, Marcelo Santos das Dores, o Menor P, Alexandre Ramos Nascimento, o Pescador e Michel de Souza Malveira, o Bill ou Mangolé, acusados de homicídio qualificado. A Justiça recebeu a denúncia e apontou a existência de prova da materialidade e de indícios suficientes de autoria.
Na mesma decisão, o juiz destacou que, segundo os autos, Gabriel teria sido morto após um confronto violento em território dominado pela organização criminosa e que, depois do assassinato, terceiros ainda não identificados teriam retirado o corpo do local da morte e o levado para outra região, supostamente a mando dos denunciados, com o objetivo de dificultar a elucidação do crime.
Mas os depoimentos reunidos na investigação mostram que, antes de chegar à comunidade, Gabriel também enfrentava uma grave crise na vida pessoal.
PM passou a noite com amante e voltou agitado pela manhã
A amante do PM contou à polícia que mantinha um relacionamento amoroso com Gabriel desde fevereiro de 2024. Quando os dois se conheceram, segundo ela, o policial afirmou ser divorciado. Em outubro daquele ano, porém, ela descobriu que ele continuava casado.
A mulher afirmou que, ao descobrir a situação, procurou a esposa do PM , que confirmou o casamento com Gabriel. Caroline então tentou terminar o relacionamento, mas disse que o policial não aceitou e passou a persegui-la. Por causa disso, ela registrou uma ocorrência contra ele por stalking.
Posteriormente, segundo amante, Gabriel voltou a procurá-la dizendo que havia se separado e que estava morando na casa da mãe. Ela então aceitou reatar o relacionamento.
Na noite de 19 de julho de 2025, véspera da morte, os dois foram juntos à Rua Olegário Maciel, na Barra da Tijuca, e depois seguiram para a casa da amante, onde dormiram.
Na manhã do dia 20, Gabriel saiu da residência por volta das 8h. Cerca de meia hora depois, retornou inesperadamente.
Foi quando a amante percebeu que ele estava bastante agitado e apresentava um arranhão na região do rosto.
Segundo o depoimento, ela perguntou o que havia acontecido. Gabriel teria respondido que havia tido uma briga séria com a esposa e que ela o havia ameaçado com uma faca.
Naquele momento, ainda segundo a amante, Gabriel perguntou se poderia morar com ela.
A resposta foi negativa. a amante disse que havia acabado de descobrir que Gabriel continuava se relacionando com a esposa
Depois da conversa, Gabriel a abraçou e saiu da residência sem dizer para onde iria.
No dia seguinte, Caroline soube da morte do policial por meio de um amigo que também trabalhava no 17º BPM.
Esposa diz que mandou Gabriel pegar as coisas e ir embora
O depoimento da esposa apresenta outra parte da sequência que antecedeu a morte.
Ela contou que conheceu Gabriel em 2010 e que os dois estavam juntos desde então. O casal tinha um filho de sete anos.
Segundo Irlande, ela descobriu que o marido mantinha um relacionamento extraconjugal desde o início de 2024 depois de encontrar uma cópia de um registro de ocorrência no qual Gabriel aparecia como autor de stalking contra a amante
Após descobrir a traição, Irlande afirmou que soube que o marido continuava mantendo o relacionamento com outra mulher.
Apesar da crise, ela relatou que Gabriel era uma pessoa alegre e calma, não apresentava comportamento agressivo e dizia que gostaria de ter outro filho com ela.
Na manhã de 20 de julho, dia da morte, Gabriel chegou à residência do casal por volta das 9h30, aparentando não ter dormido durante a noite.
A esposa afirmou que, naquele momento, disse a ele:
“Você pega as suas coisas e vai embora.”
Gabriel teria tentado conversar, mas ela afirmou que não queria conversar naquele momento.
A esposa então telefonou para o sogro pedindo que ele fosse até a residência.
Pai encontrou o filho pouco antes da saída
Abel contou que chegou à casa do casal logo depois e permaneceu no local aproximadamente até as 11h.
Ele afirmou que não presenciou nenhuma discussão entre Gabriel e a esposa, mas foi informado por ela de que o relacionamento havia chegado ao fim.
Quando deixou a residência, segundo o pai, Gabriel disse que iria “dar uma saída”.
O pai aguardou aproximadamente cinco minutos e também deixou o imóvel, mas já não encontrou mais o filho.
Depois disso, Gabriel não fez mais contato com familiares.
Segundo a esposa o desaparecimento temporário chamou atenção porque não era comum o policial ficar tanto tempo sem manter contato com a família.
Mãe diz que filho evitava comunidades
A mãe de Gabriel, descreveu o filho como uma pessoa sorridente, equilibrada e “super calma”.
Segundo ela, Gabriel era saudável, gostava de atividades físicas e não fazia uso de drogas ilícitas nem de medicamentos.
A mãe também afirmou que ele tinha poucos amigos próximos que ela conhecia. Entre eles estavam uma pessoa chamada Marcelo, que trabalhava como mecânico de aeronave, um suboficial lotado no 17º BPM e o tio Alexandre.
A mãe afirmou que Gabriel não frequentava comunidades.
Segundo ela, o filho chegou diversas vezes a deixar de participar de eventos sociais da própria família pelo fato de o local ser próximo a uma comunidade.
A mãe também disse nunca ter ouvido Gabriel mencionar qualquer amigo ou conhecido na Vila do João.
Outro detalhe relatado por Joseane foi que Gabriel não tinha o hábito de andar com grandes quantias em dinheiro. Segundo ela, costumava pagar suas despesas com cartão de débito.
A relação entre Gabriel e Irlande, porém, era descrita pela mãe como problemática.
A mãe afirmou que sempre teve um relacionamento ruim com a nora, que apresentaria comportamento hostil com ela. Por esse motivo, havia cerca de dois anos passou a evitar frequentar a casa do filho.
Ela também contou ter presenciado diversas brigas entre Gabriel e a esposa.
No dia 11 de julho, nove dias antes da morte, Joseane teria perguntado ao filho por que ele não terminava o casamento.
Segundo o depoimento, Gabriel respondeu que a esposa já havia ameaçado se mudar para a Bahia com o filho do casal e impedir que ele tivesse contato com a criança caso terminasse o relacionamento.
Gabriel teria dito à mãe que não suportaria ficar longe do filho.
Na manhã de 20 de julho, horas antes da morte, a mãe afirmou ter recebido uma ligação pelo WhatsApp da esposa. Segundo ela, a nora disse que faria Gabriel “sofrer tudo” o que ela estava sofrendo e que não permitiria mais que ele tivesse contato com o filho.
Depois da morte, Joseane descobriu que Gabriel mantinha um relacionamento amoroso com a amante.
Ao ser questionada sobre o motivo que poderia ter levado o filho à Vila do João, a mãe apresentou uma hipótese durante o depoimento: embora não considerasse Gabriel uma pessoa com perfil suicida, acreditava que ele poderia ter se visto sem perspectiva diante do relacionamento conturbado com a esposa e entrado na comunidade com a intenção de tirar a própria vida.
Essa, entretanto, foi uma hipótese apresentada pela mãe à polícia e não uma conclusão da investigação.
Pai diz que filho nunca usava atalhos e evitava favelas
O api apresentou uma descrição semelhante sobre o comportamento do filho.
Segundo ele, Gabriel era alegre, comunicativo, tinha um “sorriso cativante” e se dava bem com as pessoas.
O pai também afirmou que o policial era saudável, praticava diversas atividades físicas e se comportava como um atleta.
Assim como a mãe, o pai declarou que Gabriel não fazia uso de drogas e não tinha o hábito de carregar grandes quantias em dinheiro. Segundo ele, o filho utilizava cartão de crédito ou Pix para fazer pagamentos.
Questionado especificamente sobre a Vila do João, Abel respondeu que Gabriel nunca frequentava aquela comunidade ou qualquer outra favela.
Ele afirmou ainda que o filho evitava transitar por locais próximos a comunidades. Como exemplo, contou que morou durante um período próximo à favela do Dendê, na Ilha do Governador, e que Gabriel nunca foi visitá-lo por causa da proximidade com a comunidade.
Outro detalhe chamou atenção no depoimento: o pai disse que o filho, quando dirigia, não costumava utilizar “corta-caminho”, preferindo sempre as vias principais até chegar ao destino.
Por isso, o pai afirmou desconhecer completamente o motivo que levou Gabriel à Vila do João naquele dia.
PM havia passado dois dias fora de casa antes de morrer
A esposa também relatou detalhes sobre os últimos dias de Gabriel.
Segundo ela, o policial havia informado que receberia instrução no Batalhão de Choque na tarde de 18 de julho e que faria patrulhamento durante a noite, razão pela qual não voltaria para casa.
Posteriormente, a esposa descobriu, por meio do extrato do cartão de crédito, que Gabriel esteve naquele dia no restaurante Gigante Nordestino, onde realizou uma despesa de R$ 246,02.
Na manhã de 19 de julho, Gabriel voltou para casa apenas para pegar a farda, pois teria um RAS naquele dia.
Durante o dia, segundo Irlande, ele estava de RAS no 17º Batalhão da PMERJ.
Depois, Gabriel teria dito que estava apresentando uma ocorrência na Delegacia de Bonsucesso e que, por isso, não conseguiria voltar para casa.
A esposa afirmou acreditar que essa teria sido uma desculpa para que ele continuasse na rua até tarde.
Naquela noite, porém, Gabriel estava com a amante.
Na manhã seguinte, voltou para casa e, pouco depois, esteve novamente na residência da amante.
O mistério que permanece
Os depoimentos apresentam uma sequência incomum: Gabriel passou a noite com a amante, retornou à casa dela pela manhã com um arranhão no rosto e relatou uma suposta ameaça com faca; perguntou se poderia morar com ela, saiu novamente e, pouco depois, esteve na residência da esposa, onde houve uma nova ruptura no relacionamento.
Em seguida, saiu de casa dizendo ao pai que iria “resolver um negócio”.
Depois, foi parar na Vila do João, comunidade que, segundo os depoimentos de familiares, da esposa e da amante, ele não frequentava e sequer costumava ter como rota.
É justamente nesse ponto que a investigação chega ao episódio que terminou com sua morte.
Um cabo da PM relatou que fazia patrulhamento de rotina com outro policial quando, por volta das 9h30 de 21 de julho, recebeu pelo rádio a informação sobre um homicídio na Rua Ferreira Viana, no bairro Vinte e Cinco de Agosto, em Duque de Caxias.
Os policiais foram até o endereço e, por volta das 9h50, encontraram Gabriel já sem vida dentro de uma Ford EcoSport, placa LVE 3B14, com sinais de morte violenta.
A ocorrência foi então comunicada à Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense.
Na decisão que recebeu a denúncia, o juiz afirmou que o crime ocorreu após um confronto violento em território dominado por uma organização criminosa e que Gabriel foi morto “sem qualquer motivo aparente”, segundo os autos.
O magistrado também registrou que, após a morte, terceiros não identificados teriam recebido ordens dos denunciados para deslocar o cadáver para outra região, numa tentativa de dificultar a investigação.
Para a Justiça, os quatro denunciados exercem papel de liderança na organização criminosa que domina a região e, por isso, a prisão preventiva seria necessária para garantir a ordem pública, preservar a integridade das testemunhas e assegurar a aplicação da lei penal.
O Ministério Público denunciou Nei da Conceição Cruz, Marcelo Santos das Dores, Alexandre Ramos Nascimento e Michel de Souza Malveira por homicídio qualificado. A denúncia foi recebida pela Justiça e os quatro tiveram a prisão preventiva decretada.
Segundo o que a imprensa divulgou na época, , Izaú entrou de carro na Maré e disparou contra traficantes, que reagiram e mataram o agente. Não se sabe por que ele foi até lá. Parentes relataram que o sargento saiu de casa ontem depois de uma discussão familiar.
Durante a troca de tiros, o barbeiro Robson Ferreira da Silva, de 21 anos, foi baleado.
Ele foi socorrido para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Maré, mas não resistiu. A polícia afirma que ele não tinha anotações criminais nem envolvimento com traficantes.