O Comando Vermelho não se limita a controlar o tráfico de drogas nas comunidades de Duque de Caxias. A facção transformou o domínio territorial em uma máquina de exploração econômica e passou a usar armas, ameaças, sabotagens e expulsões para tomar o mercado de internet. Investigações revelam como o grupo cobrava taxas extorsivas de empresas provedoras e trabalhava para impor um monopólio criminoso sobre um serviço essencial, com empresas autorizadas a operar a serviço da própria organização.
As informações constam de investigações que analisaram a atuação de diferentes núcleos criminosos ligados ao Comando Vermelho no município e revelam detalhes de como a facção utiliza o domínio territorial, o poderio bélico e a violência para ampliar seus negócios criminosos.
O elo entre os diferentes núcleos criminosos seria Joab da Conceição Silva, conhecido como “Girafa”. Segundo a denúncia, a liderança exercida por ele no território de Duque de Caxias permitiria a coordenação simultânea de diferentes atividades criminosas, todas voltadas ao fortalecimento do Comando Vermelho.
Segundo a investigação, alguns dos denunciados utilizavam o grupo de WhatsApp “Família R7” para trocar mensagens sobre o monitoramento de incursões policiais. O objetivo seria manter inabalável a dominação territorial do Comando Vermelho em áreas como Rua Sete, Salgueiro, Acapulco, Divinéia, Mangueira e Badu.
As conversas também teriam revelado o poderio bélico da facção, com a confirmação da utilização de armamentos de grosso calibre por seus integrantes.
A investigação apontou ainda que estruturas da sociedade civil seriam utilizadas em favor do crime organizado. Entre elas está a Associação de Moradores de Campos Elíseos, cujo presidente, Cláudio Corrêa da Silva, conhecido como “Pastor”, é um dos denunciados.
Facção cobrava empresas e expulsava concorrentes
Um dos principais braços criminosos identificados na investigação envolve o controle do serviço de internet.
Segundo a apuração, o Comando Vermelho teria criado uma estrutura organizada, com divisão de tarefas, para dominar a distribuição do sinal nas áreas sob seu controle.
O esquema começaria com a cobrança de taxas extorsivas das empresas provedoras que já atuavam nas comunidades. Em seguida, empresas que se recusassem a se submeter às exigências do grupo seriam alvo de sabotagens e expulsões violentas.
O objetivo final seria controlar territorialmente a oferta de internet e estabelecer um monopólio formado por empresas que atuariam a serviço da própria facção.
As investigações apontam que o esquema não se limitava à cobrança de uma taxa para permitir que as empresas trabalhassem. A facção buscaria controlar todo o mercado de internet nas áreas dominadas, utilizando a força das armas para eliminar concorrentes e garantir que apenas empresas autorizadas pelo Comando Vermelho pudessem prestar o serviço.
A atividade, identificada nas investigações como exploração da chamada “CVNet”, geraria lucros significativos para o crime organizado e, ao mesmo tempo, fortaleceria o controle da facção sobre comunidades inteiras.
A investigação destaca que o domínio sobre um serviço essencial como a internet amplia a influência da organização criminosa sobre os moradores, impondo controle, medo e dependência econômica.
Esquema começou a ser investigado em Bom Retiro
As análises telemáticas realizadas no Inquérito Policial nº 060-02796/2025 foram cruzadas com as informações reunidas no Inquérito Policial nº 02118/2022.
Inicialmente, o segundo procedimento investigava traficantes da Comunidade do Bom Retiro, em Duque de Caxias, que estariam cobrando taxas de empresas provedoras de internet para permitir que elas atuassem em áreas dominadas pelo Comando Vermelho.
Com o avanço da apuração, os investigadores identificaram que a logística criminosa também alcançava as comunidades do Rasta, Vila Urussaí, Badu e Rua Sete.
O cruzamento dos dois inquéritos permitiu, segundo a investigação, identificar uma estrutura mais ampla de atuação do Comando Vermelho no município.
Facção diversificou negócios criminosos
A investigação aponta que o Comando Vermelho atua em Duque de Caxias em duas frentes simultâneas.
A primeira está diretamente relacionada ao tráfico de drogas e às atividades necessárias para sua manutenção, como o monitoramento das ações policiais e o emprego de armas de fogo.
A segunda envolve outros núcleos criminosos voltados para a obtenção de lucro e o fortalecimento da organização criminosa.
Entre eles estão o roubo de cargas e veículos, a exploração ilegal do serviço de internet e a ocultação e lavagem do dinheiro obtido com as atividades criminosas.
Segundo a denúncia, a estrutura criminosa seria dividida em quatro núcleos:
- o núcleo responsável pela logística e comercialização de drogas nas comunidades próximas à Rua Sete;
- o núcleo especializado em roubos de veículos e cargas;
- o núcleo voltado à exploração ilegal dos serviços de internet;
- e o núcleo responsável pela ocultação de valores e lavagem de dinheiro.
A investigação aponta que esses grupos mantinham estruturas organizadas, com divisão de tarefas e diferentes níveis de atuação.
O elo entre as estruturas criminosas seria Joab da Conceição Silva, conhecido como “Girafa”. Segundo a denúncia, a liderança exercida por ele no território de Duque de Caxias permitiria a coordenação simultânea de diferentes atividades criminosas, todas voltadas ao fortalecimento do Comando Vermelho.
Armas também eram utilizadas em roubos
A investigação aponta que o arsenal da facção não seria utilizado apenas para proteger pontos de venda de drogas ou garantir o domínio territorial.
As armas também seriam empregadas em roubos de veículos e cargas.
Após os crimes, os veículos e produtos roubados seriam inseridos em um esquema de receptação, com auxílio de integrantes de outras comunidades do estado do Rio de Janeiro também dominadas ou aliadas ao Comando Vermelho.
Segundo a investigação, essa estrutura transformaria os roubos em uma das diversas fontes de financiamento e fortalecimento da facção.
A investigação aponta que o Comando Vermelho teria construído em Duque de Caxias uma estrutura criminosa diversificada, que combina tráfico de drogas, roubos, extorsão de empresas, controle de serviços essenciais e lavagem de dinheiro.
O resultado seria um sistema no qual diferentes atividades criminosas se alimentariam mutuamente e contribuiriam para ampliar o poder territorial e econômico da facção.
A diversificação das atividades criminosas permitiria, de acordo com a denúncia, a retroalimentação da organização criminosa, com a utilização dos lucros para ampliar o número de integrantes, fortalecer e pulverizar lideranças, adquirir armas de fogo cada vez mais letais e aumentar a capacidade de compra e distribuição de drogas.