A guerra travada entre o Comando Vermelho e a milícia do Catiri, em Bangu, foi marcada por atentados com granadas, assassinatos de motoristas de vans e uma disputa interna entre antigos aliados que acabou facilitando a ofensiva da facção para tomar uma das áreas mais estratégicas da Zona Oeste do Rio. Os detalhes aparecem em depoimentos prestados por policiais civis e militares em processo judicial obtido pela reportagem.
Segundo os relatos, a crise teve início após a morte do miliciano Marquinhos Catiri. A partir daí, o grupo passou a ser dividido por uma disputa entre os criminosos conhecidos como “Montanha” e “Pirulito”. Este último, ao deixar a prisão, teria retomado a briga pelo controle da região e recebido o apoio de “Gordinho”, apontado como responsável pelo sistema de transporte alternativo local.
Sem força suficiente para enfrentar os rivais sozinho, o grupo ligado a “Pirulito” teria buscado apoio do Comando Vermelho. A aliança acabou abrindo as portas para a entrada da facção na disputa territorial.
De acordo com os investigadores, o interesse do CV pelo Catiri vai além da expansão do tráfico. A região fica próxima ao Complexo Penitenciário de Bangu, considerado um ponto estratégico pelos criminosos.
Ataques com granadas e terror em ponto de vans
Os depoimentos revelam que, durante o auge dos confrontos, integrantes do Comando Vermelho realizaram diversos ataques contra o sistema de vans controlado pelos milicianos.
Em uma das ações, criminosos armados em uma motocicleta abriram fogo em um ponto de vans próximo à 34ª DP, lançaram uma granada e roubaram as chaves dos veículos, obrigando os motoristas a interromperem a circulação. Testemunhas correram para dentro da delegacia em busca de proteção.
A polícia também relatou que dois motoristas de vans ligados ao grupo rival foram mortos durante a escalada da guerra.
“Cria do Catiri” recebia armas e pagamentos para atacar a milícia
As investigações apontaram que um dos homens identificados como participantes dos ataques era um morador nascido e criado no Catiri, que teria se aliado ao Comando Vermelho em meio à guerra.
Segundo os policiais, o próprio suspeito admitiu que recebia armamentos e pagamentos da facção para participar das investidas contra a milícia. Ele teria revelado ainda que costumava utilizar um fuzil Colt nos ataques e que, no momento em que foi localizado na Vila Kennedy, estava apenas com uma pistola porque “a facção só havia deixado aquela arma com ele”.
Polícia aponta que ofensiva partia da Vila Kennedy
Ainda segundo os depoimentos, a Vila Kennedy se transformou em uma espécie de base para os ataques contra o Catiri. Policiais militares afirmaram em juízo que diversas operações foram realizadas porque criminosos saíam da comunidade dominada pelo Comando Vermelho para promover invasões e atentados contra a milícia.
As investigações identificaram uma motocicleta Yamaha Lander preta como sendo utilizada em alguns desses ataques, incluindo ações na região da Cancela Preta e nas proximidades da própria 34ª DP.
Os depoimentos reunidos no processo mostram que a guerra no Catiri, que ainda provoca tensão na região, não surgiu apenas da disputa entre tráfico e milícia. Segundo os investigadores, ela foi impulsionada por um racha dentro da própria organização paramilitar, cenário que acabou sendo aproveitado pelo Comando Vermelho para tentar assumir o controle do território.