Documentos reunidos pelo Ministério Público e pela Polícia Militar revelam que integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP) procuraram políticos entre eles o deputado Val do Ceasa para tentar impedir a demolição do complexo de imóveis atribuído ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, em Parada de Lucas. A estratégia, segundo as investigações, consistia em transformar o local em uma fachada de projetos sociais para evitar a ação das autoridades.

O conjunto de três imóveis de alto padrão, localizado no Complexo de Israel, foi identificado pela Polícia Militar durante uma operação realizada em julho de 2023 nas comunidades Cinco Bocas, Pica-Pau, Cidade Alta, Parada de Lucas e Vigário Geral. Os agentes encontraram construções consideradas muito acima do padrão da região, equipadas com lago artificial, piscina, academia completa e sistemas de monitoramento, incluindo uma câmera escondida dentro de uma tomada elétrica.
Relatórios da corporação apontam que os imóveis eram utilizados por integrantes do TCP para reuniões e eventos. Em outra ação, policiais flagraram homens armados nos arredores das construções. Um dos criminosos parecia portar um fuzil calibre .50, armamento capaz de perfurar veículos blindados.
Os documentos mostram ainda que as propriedades possuíam rotas de fuga estrategicamente planejadas. Além das entradas principais, havia saídas pelos fundos que levavam a becos e vielas pouco movimentados, recurso que, segundo a investigação, permitiria a evasão dos criminosos durante operações policiais.
Diante das irregularidades e da suspeita de utilização das mansões pela facção, a Força-Tarefa de Ordem Integrada e Segurança Pública (FTOIS) planejou uma operação conjunta com a Polícia Militar e a Secretaria Municipal de Ordem Pública para demolir os imóveis. A ação, no entanto, acabou sendo adiada.
Segundo relatórios da PM, em dezembro de 2023 o deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos, conhecido como Val Ceasa, e o então vereador Ulisses Marins procuraram o comando do 16º BPM para saber se havia uma grande operação programada para demolir os imóveis. Os dois teriam afirmado que receberam informações por intermédio de Márcia Patrícia dos Santos Alexandre, presidente da Associação de Moradores de Parada de Lucas e assessora do vereador na época.
O ponto mais sensível da investigação aparece no depoimento do secretário de Ordem Pública, Brenno Carnevale. Segundo ele, Ulisses Marins relatou que traficantes haviam iniciado a construção dos imóveis, mas interromperam as obras ao tomarem conhecimento da possibilidade de demolição. Ainda de acordo com o secretário, os criminosos procuraram Val Ceasa e pediram ajuda para preservar o espaço.
A solução encontrada, segundo o relato, seria implantar projetos sociais no local. O espaço passou a ser apresentado como “Espaço Fazendinha”, destinado a recreação infantil, colônias de férias e reforço escolar. Conforme o depoimento, Val Ceasa e a então deputada Dani Cunha teriam ajudado na implementação das atividades.
Os investigadores sustentam que a transformação do imóvel em centro social fazia parte de uma tentativa de induzir as autoridades ao erro, ocultando a verdadeira finalidade das construções. Mesmo após a operação de demolição ter sido frustrada, os imóveis continuaram recebendo investimentos. Em setembro de 2024, novas inspeções identificaram reformas e melhorias nas propriedades, evidenciando que elas permaneciam sendo administradas.
Com base nos depoimentos de oficiais da Polícia Militar e do secretário de Ordem Pública, o Ministério Público aponta indícios de atuação em favor da facção criminosa. A Procuradoria-Geral de Justiça requereu buscas e apreensões, quebra de sigilo telemático, acesso a dados armazenados em nuvens digitais e autorização para obtenção de relatórios do Coaf, além da decretação de supersigilo durante o cumprimento das medidas.
Ao autorizar as diligências, o desembargador Gilmar Augusto Teixeira afirmou que os depoimentos e os elementos reunidos indicam a existência de fundadas razões para investigar o vínculo entre os investigados e integrantes do TCP que controlam o Complexo de Israel.
Ontem, por determinação do procurador-geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Antonio José Campos Moreira, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão contra três agentes públicos suspeitos de envolvimento com a facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP).
A investigação criminal foi instaurada no âmbito da atribuição originária da Procuradoria-Geral de Justiça do do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), após indícios de que parlamentares teriam procurado a Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa destinada à demolição de imóveis utilizados pela organização criminosa em Parada de Lucas, região conhecida como Complexo de Israel, Zona Norte do Rio. De acordo com a investigação, eles teriam utilizado sua influência para argumentar que os imóveis eram destinados à prestação de serviços sociais, o que, segundo as apurações, não correspondia à realidade. A ação policial acabou sendo adiada.
Os mandados foram expedidos pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio, que autorizou buscas na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), na Ceasa e em outros endereços na capital e no Espírito Santo.
Foram alvos das medidas o deputado estadual Val Ceasa, o ex-vereador do Rio de Janeiro Ulisses de Almeida Marins e o ex-assessor parlamentar Michael Johnny Vianna de Azevedo.
O procurador-geral de Justiça informou que as diligências resultaram na apreensão de R$ 341 mil em espécie, cinco armas, 11 aparelhos celulares, computadores, dispositivos de armazenamento de dados e munições de diversos calibres. Além disso, o investigado Michael Johnny de Azevedo e uma mulher que o acompanhava foram presos em flagrante por posse ilegal de arma de fogo. Todo o material apreendido foi encaminhado para a Cidade da Polícia e será submetidos à análise pericial em uma nova fase das investigações. O levantamento das apreensões ainda está em curso.
“Esses fatos preocupam profundamente o Ministério Público, pois revelam um processo de degradação do ambiente político que vem se tornando cada vez mais evidente. Há poucos meses, o Ministério Público denunciou e obteve a prisão de um deputado estadual ligado ao Comando Vermelho, que já possuía condenação por lavagem de capitais antes mesmo de ingressar no Parlamento. Agora, apuramos a possível vinculação de outro agente político a uma facção rival”, explicou Antonio José Campos Moreira. “A preservação do Estado Democrático de Direito e o fortalecimento da democracia exigem instituições fortes. Não podemos admitir que o Parlamento seja ocupado por figuras comprometidas com organizações criminosas ou com práticas incompatíveis com os valores democráticos e republicanos”, afirmou o PGJ.
Segundo as investigações, os suspeitos teriam atuado para obter informações sobre uma operação sigilosa destinada à demolição de imóveis utilizados pela organização criminosa em Parada de Lucas, no Complexo de Israel, Zona Norte do Rio. Eles teriam alegado que os imóveis eram destinados à prestação de serviços sociais, o que, de acordo com as apurações, não correspondia à realidade e contribuiu para o adiamento da ação policial.
Os mandados foram expedidos pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e são cumpridos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), na Ceasa e em outros endereços na capital fluminense e no Espírito Santo.
Acesse o link e veja o que o deputado Val do Ceasa falou a respeito da operação
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