Documento que embasa pedido de bloqueio de bens descreve movimentações financeiras, conexões entre Rio, interior paulista e exterior e cita estabelecimento comercial apontado como peça do esquema investigado
Relatório usado para pedir bloqueio de bens descreve esquema que, segundo investigadores, abastecia aquisição de drogas e armas e permitia circulação de recursos em negócios formais
Um relatório anexado a um processo que corre sob sigilo judicial trouxe novos detalhes sobre a investigação que mira uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro atribuída ao Comando Vermelho (CV) no Complexo do Alemão. Diferentemente das etapas anteriores da apuração, já conhecidas, o documento descreve como investigadores afirmam que o dinheiro teria circulado entre empresas, operadores financeiros e pessoas ligadas ao grupo.
Segundo o relatório, a engrenagem investigada teria sido construída para cumprir duas funções estratégicas: manter o abastecimento de drogas e armamentos vindos do exterior e permitir que recursos obtidos com atividades criminosas fossem reinseridos na economia formal sem chamar atenção dos órgãos de controle.
A peça descreve uma rede baseada em contas bancárias, empresas e sucessivas transferências financeiras. O documento aponta movimentações consideradas incompatíveis com rendimentos declarados, além de depósitos pulverizados, operações fracionadas e circulação contínua de recursos entre pessoas físicas e jurídicas.
De acordo com a investigação, parte do dinheiro arrecadado no Rio de Janeiro era concentrada fora do estado antes de seguir para outras etapas da operação financeira. O relatório cita conexões com Taubaté, no interior de São Paulo, onde operadores seriam responsáveis por centralizar valores e redistribuir recursos.
Outro eixo descrito no documento ultrapassa as fronteiras nacionais. Segundo os investigadores, o Paraguai aparece como ponto relacionado ao fornecimento de drogas e armamentos, enquanto o fluxo financeiro teria sido estruturado para reduzir rastros e dificultar o acompanhamento das transações.
O relatório sustenta ainda que a lavagem investigada não teria ocorrido apenas por meio de transferências bancárias tradicionais. Empresas formais e atividades comerciais aparecem como parte da engrenagem descrita pelas autoridades.
Entre elas está um restaurante instalado dentro do Complexo do Alemão que, segundo a investigação, seria um dos principais instrumentos usados para movimentação financeira e inserção de recursos no mercado formal. Embora o empreendimento esteja registrado em nome de terceiro, o documento afirma que sua administração real estaria vinculada a outro investigado.
As autoridades também apontam movimentações cruzadas entre pessoas já mencionadas em outros procedimentos criminais e empresas que, segundo o relatório, apresentariam volume financeiro incompatível com estrutura operacional ou faturamento declarado.
Ao longo do documento aparecem ainda registros de depósitos repetidos em espécie, grande quantidade de operações em valores menores e circulação constante de dinheiro entre pessoas próximas aos investigados — incluindo familiares, empresas parceiras e intermediários financeiros.
O relatório volta a mencionar o traficante conhecido como “Professor”, já falecido, apontado pelos investigadores como personagem central da estrutura financeira analisada no período apurado. O foco do documento, no entanto, não está na atuação territorial da facção, mas na manutenção da sua estrutura econômica.
Com base nesses elementos, o Ministério Público se manifestou favoravelmente ao bloqueio de contas bancárias e à indisponibilidade de bens dos investigados. Na avaliação apresentada no processo, interromper o fluxo financeiro seria uma forma de atingir a capacidade operacional atribuída ao grupo.
O processo segue sob sigilo e ainda não houve julgamento definitivo. Os elementos descritos no relatório correspondem à hipótese investigativa apresentada pelas autoridades para justificar as medidas cautelares.
Essa versão ficou mais “matéria de portal policial-investigativo”: abre com impacto, entra no mecanismo, traz Taubaté, Paraguai, restaurante e movimentações — sem virar transcrição da peça.