As novas escutas obtidas pelo Ministério Público revelam detalhes explosivos sobre a atuação de policiais dentro da milícia que dominava áreas de Belford Roxo e Duque de Caxias. Os diálogos mostram vazamento de operações policiais, tentativa de liberação ilegal de veículos apreendidos, desvio de bens confiscados em ações da polícia e até planejamento de ataques armados contra traficantes rivais na comunidade da Talbinha.
Segundo a investigação, um dos principais nomes citados nas conversas é o policial civil conhecido como Jaime, acusado de atuar diretamente em favor da organização criminosa usando a estrutura da Polícia Civil.
O envolvimento de Jaime surgiu após a análise do celular de Angelo Adriano de Jesus Guarany, o “Magrinho”, apontado como gerente operacional da milícia.
No aparelho, o policial aparecia salvo como “FAMÍLIA DRE”, referência à Delegacia de Repressão a Entorpecentes, onde estava lotado antes de ser transferido.
As conversas mostram Jaime repassando informações sigilosas sobre operações policiais e ajudando integrantes da milícia.
Em um diálogo do dia 7 de fevereiro de 2025, Jaime avisa que participava de uma grande operação policial na Baixada Fluminense.
Logo depois, “Magrinho” pede ajuda ao policial:
“Ajuda naquela situação do carro.”
Jaime responde:
“Vou ver isso agora pra você.”
Segundo o Ministério Público, o veículo citado havia sido apreendido anteriormente com os milicianos “Fael” e “Sagaz”.
As escutas também revelam que integrantes da quadrilha comemoravam a possibilidade de Jaime assumir a 54ª DP, delegacia localizada justamente na região dominada pela milícia.
“Mete Bala” pergunta se o policial conseguiria retirar o carro apreendido da delegacia.
“Magrinho” responde:
“Mano, parceiro meu estava para assumir lá a 54. Vou ver se ele já chegou pro lado de lá Belford Roxo.”
E continua:
“Se ele tiver por lá o carro vai estar lá ainda. Fica mais fácil pra eu desenrolar com ele pra ele liberar o carro, entendeu?”
Dias depois, Jaime avisa que havia sido transferido da DRE para a 17ª DP.
“Magrinho” pergunta:
“A rapaziada tua também saiu?”
Jaime responde que apenas ele havia sido removido.
Na sequência, o miliciano diz:
“Tem trabalho pra tu.”
Segundo os investigadores, o diálogo reforça a ligação direta do policial com o grupo criminoso.
As conversas ficam ainda mais graves em março.
No dia 10, “Magrinho” pergunta ao policial:
“Tu viu a parada das multas?”
Jaime responde:
“Cheguei cedo na base. Tô levantando os mandados de quinta-feira.”
Para o Ministério Público, o trecho demonstra vazamento de uma megaoperação policial que seria realizada dias depois.
Com as informações obtidas através de Jaime, “Magrinho” entra em contato com André Junior, o “Litrão”, integrante da milícia e foragido da Justiça.
No diálogo, ele alerta o comparsa:
“Amanhã vai ter uma operação grande. Bagulho de carro clonado, roubado e mandado de prisão.”
Depois, explica como funcionava o vazamento:
“Os policiais desligam o telefone. Quem vaza fica com o telefone ligado.”
Preocupado, “Litrão” responde:
“Torcer pra não estar no meio dessa porra aí.”
E continua:
“O que me preocupa é esse mandado de 2018 aí.”
“Magrinho” orienta o criminoso a fugir das cidades alvo da operação:
“Tu vai estar na rua amanhã, não vai estar em casa, caralho.”
“Ah, eles estão em Belford Roxo. Tu não vai pisar em Belford Roxo.”
“Ah, eles estão em Caxias. Tu não vai pisar em Caxias.”
No dia seguinte, 13 de março, a operação realmente aconteceu.
Depois da ação policial, “Magrinho” pergunta a Jaime:
“Tá rolando?”
O policial responde:
“146 presos.”
Na sequência, o miliciano pede:
“Se bingar algo e der pra trazer, me aciona.”
Segundo o Ministério Público, a frase sugere desvio de bens apreendidos durante operações policiais em favor da milícia.
Mas outro núcleo da investigação revela ainda mais violência.
As escutas mostram o policial militar Gilmar Carneiro dos Santos, o “Professor Gilmar”, discutindo planos para atacar traficantes rivais no Morro da Talbinha.
Em conversa do dia 16 de fevereiro de 2025, Gilmar reclama que não conseguia contato com o líder da milícia, “Cabeça de Ouro”.
“Magrinho” responde:
“Só recebo recado dele e respondo pela advogada.”
Logo depois, Gilmar pede armamento pesado da organização criminosa:
“Fala pro Cabeça que o Professor precisa pegar o 556 por 3 semanas.”
Na sequência, revela o objetivo:
“Vai subir a Talbinha e pegar o Pedro.”
Segundo o Ministério Público, “Pedro” era apontado como traficante rival da milícia na comunidade.
Dois dias depois, Gilmar publicou vídeo em rede social afirmando que moradores da Talbinha haviam vivido “uma madrugada de terror” após pichações do TCP, facção Terceiro Comando Puro.
As conversas seguintes mostram que a guerra entre milicianos e traficantes continuava escalando.
No dia 6 de março de 2025, Gilmar volta a conversar com “Magrinho” sobre a Talbinha.
O policial militar lamenta a morte de um homem conhecido como “Jacaré”.
Segundo ele, o assassinato teria sido cometido pelos traficantes “Pedro”, “Da Vovó” e outro criminoso.
Gilmar então passa a discutir vingança contra os traficantes.
Durante a conversa, demonstra preocupação com eventual confronto envolvendo policiais do 15º BPM:
“Tem que ter alinhamento com o batalhão pra ninguém se machucar.”
Depois, faz uma declaração considerada gravíssima pelos investigadores:
“Os caras do 15 não são nossos amigos.”
Na sequência, admite necessidade de proteção política:
“Se não tiver alinhado por cima e um político pra respaldar, fica difícil.”
“Magrinho” responde mostrando naturalidade nas articulações:
“Todas as vezes que a gente foi nunca deu errado.”
“A gente sempre faz contato.”
“Até um passeio que a gente vai fazer a gente faz um certo contato.”
Mesmo assim, Gilmar insiste:
“Eu não confio nesses caras do 15.”
Segundo o Ministério Público, as escutas revelam policiais discutindo operações ilegais ao lado da milícia, planejando ataques contra traficantes rivais, buscando armamento pesado e articulando apoio dentro das forças de segurança e da política para garantir proteção às ações criminosas.