Um documento obtido pela reportagem junto ao Tribunal de Justiça revela o falecimento da principal testemunha e vítima que poderia prestar detalhes sobre a ação de traficantes para tomar o controle dos clubes Várzea e Marabu, na Zona Norte do Rio.
Segundo o relatório, essa testemunha é Isaac Drumond de Azeredo, subtenente da PM, que foi assassinado em fevereiro do ano passado junto do policial civil Sérgio Paixão Bonfim, de 51 anos, em Piedade.

O fato gerou o aditamento do Registro de Ocorrência para apurar possível eliminação de prova por parte dos investigados
Há relatos de que os agentes administravam o Marabu.
O inquérito revelou que o CV, com núcleo de atuação no Complexo do Morro do 18, impunha um cenário de ocupação forçada e controle
de espaços civis mediante coação, com especial enfoque nas atividades recreativas do Marabu e do Várzea.
A estrutura seria liderada pelo traficante Jean Carlos Nascimentos dos Santos, o Jean de Dezoito , e visaria a consolidação do domínio territorial para fins de exploração econômica e ocultação de ativos provenientes de atividades ilícitas.
A narrativa policial descreve a ocupação forçada dos clubes, não como um fim empresarial autônomo, mas como estratégia de consolidação de domínio territorial para viabilizar o escoamento de entorpecentes e a ocultação de ativos da facção.
Ontem, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) autorizou o Estado a assumir, provisoriamente, a gestão da sede do Várzea Country Clube, em Água Santa, na Zona Norte da Capital, e da Pousada Menino do Rio Ltda., em Armação dos Búzios, na Região dos Lagos.
Os dois imóveis já estavam sob sequestro judicial no âmbito de investigações relacionadas a organização criminosa, milícia e lavagem de dinheiro.
Na decisão, o magistrado destacou No caso do Várzea Country Clube, a imissão do Estado na posse será imediata. Segundo informações do processo, o espaço recreativo teria sido tomado pela facção criminosa Comando Vermelho por volta de 2023 e transformado em local de encontros e realização de bailes do grupo, com relatos de presença ostensiva de armamento pesado.
O magistrado ressaltou que a medida representa uma “verdadeira inversão de finalidade”, ao permitir que as estruturas esportivas e de lazer existentes no clube voltem a ser utilizadas pela comunidade local. A área de abrangência, segundo a decisão, reúne cerca de 70 mil moradores dos bairros de Água Santa, Piedade e Quintino Bocaiúva.
Em razão do histórico de domínio armado na região, o cumprimento do mandado de imissão de posse contará com o apoio das forças de segurança.
Gestão provisória da pousada em Búzios
A imissão de posse da Pousada Menino do Rio, em Armação dos Búzios, ocorrerá de forma escalonada. Embora o imóvel esteja relacionado a indícios de lavagem de dinheiro atribuída à organização criminosa investigada, incluindo movimentações financeiras fracionadas e depósitos em espécie de valores elevados, o estabelecimento mantém atividade hoteleira regular.
Para evitar a interrupção abrupta das atividades econômicas e preservar os direitos de terceiros de boa-fé, o magistrado condicionou a imissão de posse à apresentação e homologação de um plano de ação pelo Estado.
O documento deverá contemplar medidas para o ressarcimento ou a reacomodação de hóspedes que tenham reservas ativas, além do levantamento e da preservação dos direitos trabalhistas dos funcionários formalmente vinculados ao estabelecimento.
O procurador-geral do Estado foi intimado a indicar, no prazo de 30 dias, os órgãos que ficarão responsáveis pela gestão dos espaços, observada a prioridade legal de destinação das instalações à Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
A autorização concedida pelo Judiciário assegura apenas a posse direta e o uso temporário dos imóveis, sem alteração da titularidade da propriedade. A definição sobre a destinação definitiva dos bens dependerá do julgamento dos processos principais.