Alvo principal da operação do Ministério Público do Rio de Janeiro contra uma quadrilha ligada ao Comando Vermelho acusada de trazer toneladas de drogas de São Paulo para o Rio, Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, o Boss, já apareceu em outra investigação criminal de grande porte, mas envolvendo uma modalidade de crime completamente diferente.
Uma denúncia apresentada pelo Ministério Público de Minas Gerais aponta Boss como integrante de uma associação criminosa especializada em fraudes bancárias e saques realizados com cartões clonados. O caso ocorreu em fevereiro de 2016, em Belo Horizonte, e envolveu uma estrutura que, segundo a acusação, era organizada em diferentes níveis, com financiadores, coordenadores, chefes de equipes e operadores encarregados de efetuar os saques.
Na denúncia, o MPMG atribuiu a Laércio — identificado no documento pelos apelidos Boy, Boyzão ou Gaguinho — participação na associação criminosa. O Ministério Público sustentou que o grupo se deslocou do Rio de Janeiro para Minas Gerais para executar a fraude contra o Banco Mercantil do Brasil.
Segundo a acusação, os criminosos utilizavam dados bancários obtidos por hackers para produzir cartões adulterados ou clonados, chamados de “cascas” nas conversas interceptadas durante a investigação. Esses cartões eram posteriormente distribuídos aos integrantes responsáveis pelos saques nas agências.
A investigação identificou diferentes funções dentro da organização. De acordo com o MPMG, havia integrantes responsáveis pelo financiamento e coordenação da operação, outros encarregados de recrutar os operadores e orientá-los e, finalmente, os participantes que compareciam pessoalmente às agências para realizar os saques.
Boss aparece como integrante da estrutura criminosa
Um dos pontos destacados pelo Ministério Público mineiro foi a posição atribuída a Rafael Ramos da Silva, apontado na denúncia como chefe e financiador da associação. Laércio aparece entre os integrantes denunciados ao lado de outros acusados do esquema.
A investigação reuniu elementos obtidos a partir de celulares, registros de hospedagem, veículos, imagens de câmeras de segurança e informações relacionadas às movimentações dos suspeitos.
A denúncia afirma que os integrantes viajaram principalmente do Rio de Janeiro para Belo Horizonte nos dias 22 e 23 de fevereiro de 2016, iniciando a execução da fraude na manhã do dia 23.
Parte do grupo ficou hospedada em hotéis diferentes da capital mineira. O documento cita, entre outros, o Ibis Budget BH Afonso Pena, o Savassi Hotel e o Hotel Belo Horizonte Plaza Lourdes.
Veículos utilizados pelos investigados também foram rastreados pela investigação. Um deles teria sido utilizado no deslocamento do Rio para Belo Horizonte e ficou estacionado próximo ao hotel onde estavam alguns dos integrantes.
Dez agências do Banco Mercantil foram alvo
Segundo a denúncia, a organização criminosa atuou em diversas unidades do Banco Mercantil do Brasil em Belo Horizonte.
O documento cita as agências Matriz, Savassi, Belvedere, São José, Tupinambás, Avenida, Comércio, Mercado, Lourdes e Gutierrez como locais atingidos pela ação criminosa.
As imagens dos circuitos internos das agências também foram utilizadas na investigação. De acordo com o relatório citado pelo Ministério Público, filmagens registraram a presença de alguns dos denunciados em diferentes unidades.
O relatório final também reuniu registros fotográficos que, segundo a acusação, mostrariam a atuação de integrantes da organização dentro das agências bancárias.
Conversas pelo celular apontaram comando da operação
Um dos principais elementos descritos na denúncia foram as conversas extraídas dos celulares de integrantes do grupo.
Segundo o MPMG, mensagens trocadas entre um dos envolvidos e Rafael Ramos da Silva demonstravam a preparação da ação, a identificação dos participantes e até discussões sobre a divisão do dinheiro obtido com os saques.
Em uma das conversas, Rafael teria sido identificado como chefe da associação criminosa.
A investigação também registrou uma comunicação em que cartões adulterados ou clonados eram chamados de “cascas”, expressão utilizada pelos integrantes para se referir ao material empregado na fraude.
No dia 24 de fevereiro de 2016, segundo a denúncia, Rafael teria determinado o início das ações nas agências do Banco Mercantil.
Pouco depois, integrantes passaram a comunicar os saques realizados.
Operação foi interrompida após prisão de integrante
A investigação também descreve o momento em que a ação criminosa foi interrompida.
Às 14h44 de 24 de fevereiro, segundo o relatório citado pelo MPMG, Rafael foi informado de que um dos integrantes, identificado como Cidinho, havia sido preso em flagrante.
Pouco depois, às 15h18, um dos integrantes informou que sua equipe havia interrompido completamente a operação e que os participantes deixariam os hotéis.
Segundo a denúncia, a paralisação foi autorizada por Rafael.
Na sequência, o integrante informou que encontraria sua equipe para recolher o dinheiro obtido com os saques e se desfazer dos cartões clonados. Também teria comunicado que o sistema digital da instituição financeira havia sido paralisado em âmbito nacional.
De fraude bancária a uma investigação sobre tráfico de drogas
O episódio em Minas Gerais ocorreu anos antes da investigação atualmente conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.
Agora, Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, o Boss, aparece como alvo principal de uma investigação de outra natureza, relacionada a uma estrutura criminosa ligada ao Comando Vermelho acusada de movimentar grandes quantidades de drogas entre São Paulo e o Rio de Janeiro.
A investigação atual coloca Boss no centro de uma organização com atuação interestadual e ligada ao transporte e distribuição de entorpecentes.
O histórico descrito na documentação mineira acrescenta um episódio anterior à trajetória criminal atribuída a ele: uma investigação na qual o Ministério Público de Minas Gerais sustentou que Boss integrou uma associação criminosa estruturada para executar fraudes bancárias por meio de cartões clonados.
São, portanto, investigações de períodos e modalidades criminosas distintas. A acusação apresentada em Minas Gerais diz respeito aos fatos ocorridos em fevereiro de 2016 e imputou aos denunciados os crimes de associação criminosa e estelionato, nos termos indicados pelo Ministério Público na denúncia.
É importante destacar que a denúncia representa a acusação formulada pelo Ministério Público e não equivale, por si só, a uma condenação definitiva.
O documento do MPMG é datado de 30 de novembro de 2023 e descreve detalhadamente a estrutura que, segundo a investigação, foi montada para a execução das fraudes em Belo Horizonte.
Anos depois, o nome de Boss volta a aparecer em uma investigação criminal de grande porte — desta vez no Rio de Janeiro, em um esquema que, segundo o Ministério Público, teria como atividade central o abastecimento de drogas para o mercado fluminense.