Depois de um fato que foi amplamente noticiado pela imprensa com vídeo e tudo de um tiroteio entre milicianos rivais em Queimados no dia 21 de junho de 2024 que terminou com a morte de um homem e a prisão de cinco suspeitos, a polícia foi a fundo na investigação contra o grupo após rastrear um dos celulares apreendidos.
Dois anos depois, a Justiça abriu processo contra a quadrilha. Foram encontrados elementos que confirmaram o envolvimento de todos os prsos com a milícia atuante em Queimados.
Os agentes recuperaram i mensagens trocadas entre os de-nunciados, tanto por meio de chat de conversa privada, quanto por grupos de WhatsApp, destacando-se, dentre eles, o denominado grupo “Futebol dos Amigos”, destinado, especialmente, ao monitoramento da atividade policial e de grupos rivais, com informes em tempo real sobre a localização de viaturas das polícias militar e civil em áreas dominadas pela milícia, notadamente nos arredores dos condomínios residenciais José Metódio, José Marttins, Laurindo Moreira e Sebastião Torres.
A análise dos dados do celular confirmou que outras empreitadas foram realizadas pelo bando tendo como objetivo executar criminosos de grupos rivais.
Para tanto, os denunciados se valiam de extensa rede de informantes, que enviavam dados sobre a localização, veículos e vestimentas utilizadas pelos alvos.
Os policiais conseguiram obter na galeria de imagens do aparelho celular fotografias que mostravam o poderio bélico do bando que possuía fuzis, pistolas, coletes e fardas policiais usados para o cometimento dos crimes de extorsões e homicídios. Os bandidos faziam até falsas blitzes para abordar motoristas de aplicativos.
As mensagens trocadas pelo dono do celular, vulgo Bibi, com seus comparsas evidenciaram que o grupo criminoso disputava o domínio territorial de Queimados com outro grupo miliciano, tendo por finalidade o controle financeiro decorrente das extorsões de comerciantes e mototaxistas, sendo Bibi peça-chave na engrenagem criminosa.
E tal disputa territorial é levada ao extremo pelos denunciados, a ponto de valerem-se de armas de grosso calibre, veículos clonados e informantes, tudo com o claro objetivo da eliminação da vida alheia e consequente vitória da guerra urbana.
Soldado e cobrador da milícia, Bibi atuava tanto nas extorsões de comerciantes e mototaxistas, como no planejamento e execução dos homicídios praticados pelo grupo.
Em um dos diálogos com um comparsa já falecido vulgo DG7 ele tratou da extorsão de mototaxistas e do planejamento de execução de criminosos rivais:
“Mano, a gente tem que ir lá, entendeu mano, fazer a reuni-ão, entendeu mano, acertar isso daí, mano. Irmão, passou de meio dia, vai rolar os juros, entendeu mano. Porra, lá fora o bagulho é mais caro, mano, mas vamos fazer o dinheiro. O bagulho vem na risca, na sexta-feira. Nós, porra, não dá papo não dá nada… vagabundo que fazer nós de otário
Bibi: “Igual Wallace…Dia todo que passei na rua, ele bebendo. Ai nem pagou a porra do ponto ainda, entendeu. E até mesmo os ouros demais também”
Em outra conversa com DG, Bibi indagou: “Geral pagou? Geral pagou, viadão? Dá o papo?”
DG: “Sapatão, acho que perdeu…O cara pegou a moto, arrumou uma moto lá. Vai me mandar amanhã. Jussara perdeu os documentos, carteira com dinheiro…falou que vai mandar também.
DG: “E aquele Jonathan, mano, pediu para avisar que não ia rodar essa semana não. Que ia resolver um problema de saúde. Ai não ia pagar essa semana, tá ligado”
Outra figura de destaque na milícia era o criminoso vulgo Elefante, também soldado e cobrador da milícia. Foi comprovado sua participação nos atos extorsionários.
Seu vulgo era bastante conhecido no universo criminoso de Queimados.
A tática de usar um codinome distinto do seu real nome ou mesmo do seu vulgo foi utilizada por outros diversos integrantes da milícia de Queimados, sempre com a finalidade de não serem identificados no curso das investigações.
Elefante que também era chamado de Elefantinho agia em dupla com Bibi tanto na cobrança das extorsões, quanto no planejamento e execução de homicídios.
Foi comprovado também o envolvimento de uma mulher vulgo Tia MCG”, que passou a integrar a milícia fornecendo informações de milicianos rivais em troca de cesta básica, e mensagens a respeito de extorsões de empresas de internet:
“Sabe qual é o ruim, Elefante. Que naquele dia eu falei com todo mundo, o caralho a quatro, falou que ia mandar o bagulho lá pra mina, coisa e tal, entendeu, que a mina estava precisando de um bagulho lá pra filha dela. A gente ia ver se ia mandar uma cesta básica ou kit danone, o caralho a quatro… não mandou. Po, ficar mandando mensagem é foda, mano, entendeu. A gente quer ser ajudada, as pessoas também gosta também de ser ajudado, entendeu, mano?”
Elefante: “Po, irmão, mas não seguiu a cesta básica pra mulher lá não, mano? não seguiu a cesta básica pra mulher lá não, mano? Tu não falou com o irmão não, cara? Vamos correr atrás aí, cara para mandar a cesta básica para a mulher hoje, mano (…) Só agarrar uma cesta básica, filho, e seguir pra ela, depois a gente fala com o irmão, mano. Vamos ver se a gente resolve essa porra hoje. Mano eu vou chegar nesses caras, porra. Eu vou chegar. Confia. Olha aí, eu vou te mandar uns negócios”
Bibi: “Então, mano. O irmão ia ligar, naquele dia que eu fui em São João levar o material do Chucky. Não ligou, entendeu, ma-no. Tem que ver isso daí, pra levar uma pra ela lá, vamos ver se a gente agarra uma no Belmonte, entendeu”
Elefante: “Mano, faz contato com ela e fala que a cesta básica dela vai seguir hoje, entendeu. Fala: “po, me desculpa que eu ta-va na correria ai, aconteceu umas paradas aí, a gente teve que dar uma saída da cidade, me perdoa mesmo. Entendeu, mas o negócio da sua filha vai seguir. A gente vai seguir aí o negócio da sua filha e depois a gente vai seguir um dinheiro ai também pra tu poder comprar o danone e os biscoitos das crianças, entendeu. A gente já vai fazer contato com o Bryan aqui e a gente já vai fazer contato com o irmão lá pro irmão autorizar da gente pegar uma cesta básica ali, entendeu?”
Elefante “Correto, vou ligar pro Kaio aqui agora. Vou ligar pro Kaio aqui agora. Vou ligar no Polícia pra ajudar nós aqui também”
Bibi – Papo reto, papo reto. Tá fudido. Vamos caçar eles toda hora, onde falar que eles tão nós vai caçar, até pegar todo mundo. Mano, mas vai por mim, mano. Colocar o Boi pra dirigir, mano. A gente coloca o Chucky, ou outra pessoa pra vir com a gente, entendeu mano”
Bibi: “Porque mano se tiver algum informe hoje e ba, mano, com o Japão pode ter toda certeza que eu não vou nunca mais na minha vida, Elefante, papo reto. Nem que eu devolva minha arma, eu falo: “mano, vai lá outra pessoa”. Nem que eu fique afastado e sem receber, mas com o Japão eu não vou, porque aquilo ali é maluquice”
Elefante: “Tá maluco, cara. Eu falei com o Kaio ontem, mano, falei com o Kaio ontem. Falei: “mano, botar o Polícia pra dirigir, po, porque o polícia não é zero não. É Soldado igual a gente, entendeu mano. Botar o cara pra dirigir. Ia resolver o problema pra todo mundo, filho. Nós tem que ir com quem nós sente confiante. Querendo ou não o cara dirige bem, entendeu? Vai atracar . a gente, vai tirar a gente, entendeu. Então, mano, nós vai nós três pro problema e deixa o cara dirigir pra gente po. Doideira”
BIBI: “Falei com a mulher aqui, do que o Wallace morreu, que ela não viu mais ele trabalhando com o cara mais não, entendeu? Então com certeza ele tá junto lá mesmo. Subir o balão desse filho da puta logo”
Elefante: “Verdade, verdade. Mas deixa eles. O deles está guardado, é só questão de tempo”
Bibi: “Depois já faz contato com alguém pra ver, pra ver a cesta básica. Ver o bagulho pra mulher”
Elefante: “Tem que ver lá, mano. Quem ele falou que ia pedir quem pra resolver. Quem que ele pediu que ia pedir pra resolver mesmo, pra gente poder coisar, mandar mensagem, entendeu. Eu ar-rumei até mais um informante aqui, esse é dentro do condomínio, entendeu. Esse tá dentro do condomínio”
BIBI: “É, acho que foi o Lincoln, mano, se eu não me engano. Vou ligar pra ele”
Elefante: “Faz contato com ele aí, faz contato com ele aí. Que eu to tentando desenrolar as paradas aqui. To tentando pegar a quantidade de informante maior que eu puder, entendeu”
Elefante: “É, mano, eu ia subir uma hora, entendeu, mas o Pedro me mandou mensagem pra poder ver o negócio da internet. Eu to fazendo contato, to fazendo contato. Mas o polícia também não chegou aí mano. Faz o seguinte. Fica dentro de casa, mano. Fica em casa, quando coisar, daqui a pouco a gente vai atraves-sar. Duas horas a gente vai lá ver o negócio”.
Elefante: “Entendeu, nós vai ter que ir lá ver o negócio da obra. Ai nós vai lá rapidinho ver o negócio da obra”
BIBI: “Polícia já está vindo pra cá já, cara. Eu e ele buscamos já o carro, o carro tá até com insulfilm, ele tá até vindo. Ele foi só em casa pra colocar roupa”
Bibi: “Irmão, ela não sabe dizer se é eles, entendeu. Mas tá na por-taria, o caralho a quatro, entendeu, todo mundo de preto”
Elefante: “Falou que aparentemente era política, entendeu, o irmão falou. Mano, vê aí com o Samuel ou com alguém pra poder botar via-tura, mano, na direção deles lá, entendeu”
A investigação também aponta Boicomo soldado e cobrador da malta, responsabilizando-se por atuar tanto nas extorsões de comerciantes e mototaxistas, como no planejamento e execução dos homicídios praticados pelo grupo.
O envolvimento de Boi foi comprovado após a notificação do Nubank a respeito de uma transferência realizada pelo denunciado Bibi.
Boi também foi identificado pelo software de reconhecimento facial ClearView IA, em vídeo realizado por Bibi, no qual filmou diversos integrantes da milícia de Queimados reunidos e participando de um acerto de contas.
As mensagens trocadas por Boi com Bibi revelaram que a dupla agia em conjunto nas extorsões de comerciantes e mototaxistas, como no planejamento e execução dos homicídios praticados pelo grupo, realizando o intercâmbio de armas, coletes e outros materiais.
Bibi: “Aí, Boi, vê aqueles teus contatos lá, irmão. Chegou um in-forme aqui agora aqui que eles tá rodando lá acho que é num Fiesta mesmo. Pelo menos a gente tenta pegar a placa”
Bibi: “Irmão, o colete que eu deixei contigo tá aí na sua casa?
Boi: “Sim, mano, sim “Primeiro horário amanhã, operação 6ª, primeiro horário”
BOI: “Coé, Bibi, colocou placa já no colete? Empresta esse colete do Pedro aí? Vou até mandar mensagem pra ele aqui se tu não for usar. Ou se tu deixar usar o teu. Só me empresta um aí, mano, que eu estou sem colete”
Bibi: “E aí, Boizinho, e aí, Boizinho. Fala comigo
Bibi: “Irmão, tem que ser na 6ª não, pô, tem que ser na 6ª não, pô. A gente tem que ir na 5ª, entendeu, mano, amanhã viado, porque os caras acho que está pegando o mototáxi a partir de amanhã, não tá não, ou é na 6ª
Boi “Então, nós vai amanhã, pô. Nos vai amanhã. É porque ele falou bagulho de 5ª feira, eu tava pensando que hoje era 5ª feira já, entendeu? Amanhã nós vai lá. Nós vai lá e recolhe tudo, mano”
Bibi”É mesmo. Era bom mandar mensagem lá pro Feio. Per-guntar a ele certinho se é amanha ou 6ª feira que os caras passam pra pegar o mototáxi”
Boi: “Pô, mano. Eu não tenho contato com Feio. Vou pedir pro Elefantinho pra mandar. O que que a gente faz. Mesmo amanhã não sendo dia de pagar, nós embica lá e já recebe o ponto da Porteira, entendeu?”
Bibi “Tá ligado. Tem que marcar as pessoas, entendeu. Certinho todo mundo. Entendeu. Devido ao horário, caralho a quatro, pra todo mundo ir. Entendeu. Colocar aquelas duas motinhas mesmo e nós vai no carro. Entendeu. Colocar um gatzinho no carro e nós vai, entendeu?”
Boi integrava o grupo de WhatsApp “Soltura e resgate”, composto pelos integran-tes da milícia de Queimados que atuavam, especificamente, nas extorsões e planejamento e execuções de homicídios, sendo encaminhadas no grupo mensagens de comando a todos os integrantes a respeito das cobranças extorsionárias que eram realizadas em comerciantes e mototaxistas, como, por exemplo, a juntada abaixo, enviada pelo denunciado
Sanuel (codinome “PEDRO”), que determinava que todos os integrantes do grupo deveriam fazer contato com o ponto do mototáxi para recolher o dinheiro da extorsão, sob pena de ficarem sem pagamento.
Ressalte-se que Boi respondeu a aludida mensagem, informando que estava “fazendo contato com a internet” e que “sobre o mototáxi” teria conversado com Bibi de ir na direção dos pontos na sexta-feira:
O vulgo Polícia era o responsável, dentre outras coisas, por distribuir o armamento para os demais integran-tes realizarem as extorsões e execuções de rivais, bem como realizar, por conta própria e em conjunto com outros integrantes, as rondas na localidade de atuação da milícia, denominadas de “batidas na pista”, com a finalidade de proteção do território e também para a realização de extorsões de comerciantes.
Polícia teve conversas flagradas com Bibi sobre rondas na localidade de atuação da milícia, denomina-das de “batidas na pista”, com a finalidade de proteção do território e também para a realização de extorsões de comerciantes, notadamente, donos de fábricas e proprietários de caminhões.
Foram obtidas mensagens sobre o compartilhamento de armas de fogo e carregadores de munição, bem como sobre o uso pela milícia de veículos com placas adulteradas para dificul-tar a identificação policial.
Polícia ocupava posição de destaque na milícia, na medida em que tem maior acesso a armas de fogo, ao ponto de Bibi, lhe pedir para interceder junto a determi-nado líder não identificado, mas chamado de “Papai”, para que lhe uma arma.
Foi recuperado diálogo em que Polícia aciona Bibi para que o auxilie no que ele chamou de “blitz para agarrar moto Uber”, em clara demonstração do controle criminoso que a milícia exerce sobre motoristas de aplicativo nas regiões por ela dominadas.
Polícia: “E aí, mano, e aí, mano, fala comigo aí, como é que vo-cês estão? Estão bem aí, conseguiram desenrolar?”
BIBI: “Já tamo já aqui no condomínio, valeu?”
Polícia: “Não, já é, já é. Até falei com o Bryan aqui agora pra não ficar rodando aí à toa não, mano. Fez o que tinha que fazer, deu uma passada na rua, viu o movimento, não viu nada, recua, pra não ficar queimando o carro, entendeu? Amanhã eu vou man-dar levar esse carro aí pra botar insulfilm na traseira dele, mandar botar um G20 na traseira aí”
Bibi: “Já é, já é, estamos aqui já. Elefante encostou o carro lá, a chave está com ele”
Bibi: “Pô, irmão, faz um pedido pro Papai aí, fala: “pô, Papai, dá uma pistola pro Bibi, aí. Uma pistola, pode até ser aquela 40 lá, cheia de carregador, entendeu? Uma pistola com mais carregador. Fala para ele a situação desse material, desde que eu peguei”57.
Bibi: “Tu fazendo um pedido desse o Papai não nega nunca”
Além das conversas particulares com Bibi, Polícia faz parte dos grupos de WhatsApp compostos por integran-tes da milícia de Queimados, especialmente os grupos “Futebol dos Amigos” e “Soltura e Resgate”espaços destinados ao monitoramento da atividade policial e de grupos rivais, com in-formes em tempo real sobre a localização de viaturas das polícias militar e civil em áreas dominadas pela milícia, bem como sobre desdobramentos da atividade criminosa, com informações sobre homicídios na região. Ressalte-se que Polícia figura como adminis-trador de ambos os grupos.
Uma das mensagens deles em um dos grupos mostra que ele colaborou nos homicídios praticados contra milicianos rivais;
Ele forneceu aos demais integrantes do grupo todo o armamento e demais materiais utilizados na ação, como coletes, tocas ninjas, fardas de polícia,
BIBI: “Já é, já tamo no local já, tamo no local”
Afonso – Viatura da PM. Eu to no Laurindo Moreira”
Fernando: “Estourou em cima de mim, po, lá no Laurindo Moreira…Caralho… De frente para mim, eu meti o pé” (
Afonso: “Atividade ai, rapaziada. Foi uma barca sentido Santa Rosa e uma tá dentro do Laurindo Moreira” João Pedro atuava no controle do monitoramento dos integrantes da milícia rival
Conversas revelam que, um dia antes do duplo homicídio em 2024, ele, perguntou a Bibi os dados do veículo que os integrantes da milícia rival estariam utilizando, sendo repassado por este os dados exatos do veículo Citroen C3, no qual as vítimas se encontravam no dia dos fatos:
BIBI: “É um Citroen C3, placa Mercosul, final 26” “A cor é cor de chumbo
Como dito, de fato, os dados do veículo fornecidos por Bibi coincidem com aqueles do veículo C3 ocupado pelas vítimas no dia dos fatos, como se vê de imagem extraída de reportagem jornalística, comprovando que o denunciado João Pedro, já no dia anterior aos fatos, atuava na malta participando ativamente do monitora-mento das vítimas.
Samuel, vulgo Pedro, rts o gerente da milícia e responsável por realizar a contabilidade dos lucros do grupo criminoso, bem como por definir quais armas de fogo da milícia seriam empregados a cada integrante.
Ele foi esculachado em um dos grupos de whatsapp usado pela quadrilha:
“O Samuel, vai pra casa do caralho, Então você compra enxada e paga pros meninos trabalhar, porra. Tá destruindo as paradas todinhas, pô. Se é emprestado tem que devolver do jeito que pegou, pô. Eu hein, que loucura. Porra. Tá entrando com a bunda em festa de pica, hein”
Samuel era informado sobre assuntos de interesse do grupo (como informações repassadas por informantes), e definindo, por exemplo, a qual integrante será destinada determinada arma de fogo:
BIBI: “Aí, irmão, essa daí é aquela mulher, entendeu? Que ajudou lá a resolver o Wallace, entendeu? Aí ligou pra ela hoje, entendeu? Falei com ela. Ela está disposta a ajudar a gente, falou que vai ajudar o que ela ver lá, a cor do carro, vai tentar ver o carro que eles estão lá, entendeu? A placa tudinho, entendeu?”
BIBI: “Não, mano, entendeu? Coisas dos outros assim, mano, eu sempre peço, porque é foda, entendeu? Mas valeu, mano, brigadão. Vamos ver se a gente pega aqueles filhos da puta
BIBI: Não, não, irmão, deixa. É que eu ia te perguntar de quem que era aquela loja de ração ali do lado do Bochecha ali, do Gordão”
PEDRO: “Tranquilidade, parceirote, tranquilidade. Vou ver o que que eu vou fazer. Sabe que tu é meu irmão, pô? Está ligado nisso? O que eu posso fazer para te ajudar eu sempre vou fazer. Fica tranquilo, parceirote, aguenta, aguenta o coração, parceiro. Só confia, mais nada”
BIBI: “Já é, já é, irmãozão, estamos juntos, pô. Tem nem como te agradecer por tudo que sempre vem fazendo por mim aí” .
Samuel foi identificado também através de mensagens enviadas por ele no grupo “Soltura e Resgate”. especialmente aquela em que exigiu que os demais integrantes fizessem contato com o “mototáxi do outro lado”, sob pena de ficarem sem receber:
Chucky atuava como soldado e cobrador do bando, responsabilizando-se por atuar tanto nas extorsões de comerciantes e mototaxistas, como no planejamento e execução dos homicídios praticados pelo grupo.
Ele foi flagrado em várias conversas com Bibi:
CHUCKY: “Fala malucão, tá dormindo, vagabundo?”
BIBI: Dormindo o que, Chucky? Já saí pra resolver já as merdas que tu faz na rua já, cara. Tu que tá dormindo, pô”
CHUCKY: “Faço merda na rua não, nem na rua eu saio. Pra sair na rua é só pra fazer coisas boas”
Chucky foi citado em conversas sobre o planejamento de execução de rivais, aparecendo, inclusive, em vídeo enviado por Bibi a Kaio em que mostra Chucky dirigindo um veículo, acompanhado de Boi e Bibi, em uma ronda no encalço de integrantes de outra milícia, especialmente o de vulgo Cicatriz
Bibi e Kaio falaram sobre Chucky
BIBI VIDEO: “Vamos na casa hein, malucão. Nós tá na rua. Nós pegar, descendo aqui, deixar feio agora hein. Se o Cicatriz botar a cara vai ficar sem…”
KAIO: “Porra, o Chucky dirigindo, fi-lho. Porra. Os caras colar atras de vocês aí o Chucky vai querer sair de 5ª, 4ª. Chucky é bebel, cara, dirigindo, cara. Chucky tem que dirigir carro de bate-bate primeiro
BIBI: “Aí, posso te falar. Quando eu te mandei o vídeo ain-da falei pro Boi aqui: “pô, o Kaio vai chiar com o Chucky dirigindo”. Ainda falei isso”
BIBI: “Pô, irmão, nada. Chucky já rodou tudo, mano. Os caras não botou o pé aqui hoje não, mano. Os lugar também que o Boi fez contato aqui eles cobra, nem cobraram o dinheiro aqui, mano.
Kaio: “Mas e o mototáxi? O mototáxi? Eles não pegaram ainda não?”
BIBI: “Já, cara, já. Pegaram ontem, entendeu? Ontem e eu acho que na 5ª feira também”
BIBI: “Eles cobraram 4ª, 5ª e 6ª, entendeu?”
BIBI: “Ontem eles deram só uma passada entendeu? Mas nem che-garam a marcar na rua não. Só pegou aquele da Porteira”
Kaio: “Ah, então vem embora, mano. Vem embora vocês. Já cobraram a porra toda, tá ligado?”
Hugo era o responsável, dentre outras funções, por realizar o acerto de contas dos lucros da milícia.
Ailton era o responsável, dentre outras funções, por realizar cobranças de comerciantes.
Ele foi flagrado em conversas com Bibi interagindo sobre cobranças de comerciantes e também sobre o acautelamento de “materiais” utilizados pela milícia, ou seja, armas de fogo, coletes balísticos, tocas ninjas, etc.
BIBI: “Irmão, tu viu o material que chegou, se subiu pra casa do Perninha?”
AILTON: “Vi ele levando alguns coletes, entendeu? Quando eu cheguei assim. Mas não sei se seguiu pra lá não, entendeu?”
BIBI: “Já é, já é. Porra, to ligando pra esse viado e o viado não atende”
BIBI: “Irmão, se tu tiver cobrando aí pelo (inaudível) hoje, vê se aquele bar aí está aberto hoje, do peixe aí”
Nascimento atuava no monitoramento de policiais civis e militares e integrantes de grupos criminosos rivais, atualizando as informações de movimentação suspeita em grupo de WhatsApp criado pela milícia com essa finalidade, inclusive mediante a utilização de rádios comunicadores.
Sorisso tinha a mesma função de Nascimento, assim como Renatinho, Igor Porteiro, Amigo de Lampião, Graça e Paz, Alonso, Sérgio Luiz, Vágmer, Leandro Roberto
Sobre Graça e Paz, foi captada a seguinte mensagem no grupo “Futebol e Amigos”
“Irmão, o amigo me ligou aqui, mané, me ligou aqui pra me avisar, entendeu? Ai pediu pra avisar a rapaziada, en-tendeu? O que acontece. Ele falou que ela já passou algumas vezes lá dentro lá já, mano. Foi lá no forró do chico, voltou. Ai depois voltou de novo, enten-deu? Está rodando lá. Não soube falar qual a DP não. Que ele está na lojinha dele trabalhando. Ela passou na esquina da loja dele, que é ali perto da mangueira, ali”
Leandro Roberto postou essa mensagem: “Meus amigos, atividade nessa Uno branca aí, que tá passando aqui devagarzinho. Veio aqui no Martins, manobrou e voltou”
Tia MCG fornecia informações de milicianos rivais em troca do recebimento de cestas básicas.
O esquema de extorsão contra diversos comerciantes e mototaxistas que eram obrigados a realizar o pagamento de taxas de segurança funcionava da seguinte forma.
Os milicianos compareciam nos endereços das vítimas armados e dizer a elas que se não pagassem as aludidas taxas eles iriam retornar e fazer um mal maior.
Elas eram praticadas com emprego de arma de fogo com valor certo a ser cobrado de diferentes vítimas, as quais são achacadas semanalmente.
Em uma conversa com Kaio, Bibi disse que que era para eles irem embora, pois eles já tinham cobrado “a porra toda”, evidenciando-se, portanto, que as extorsões eram realizadas mediante emprego de arma de fogo.
O fato que originou a investigação foram dois homicídios qualificados cometidos em 21 de junho de 2024, na Avenida Pedro Jorge, no bairro Vila das Porteiras, em Queimados, sendo um deles consuma-do contra vítima ainda não identificada e o segundo tentado contra a vítima Wesley Santos Martins, além dos crimes de porte de arma de fogo de uso restrito, receptação, adulteração de sinal iden-tificador de veículo e milícia privada.
Na ocasião da prisão em flagrante que gerou o APF, policiais militares lotados no 24º BPM foram acionados em virtude de disparos de arma de fogo efetuados na Avenida Doutor Pedro Jorge, tendo ouvido na rádio que os indivíduos que efetuaram os disparos estavam em um Nissan Versa, preto, em deslocamento pelo viaduto.
Diante de tais informações, os agentes castrenses se dirigiram para a região onde fica localizado o viaduto do Centro de Queimados e, ao chegarem na esquina da Rua Alegrete com a Rua Professor Pi-nheiro, visualizaram o Nissan Versa, preto com 4 indivíduos dentro.
Ato contínuo, os policiais militares realizaram a abordagem dos indivíduos, identificados como Bibi, Elefante, Boi, e Xandinho ordenando que eles desembarcassem do veículo e fossem para a parede. Durante a revista dos denunciados, os policiais conseguiram loca-lizar 1 (um) coldre de pistola e, aos serem indagados pelas armas, os denunciados disseram que estavam dentro do Nissan Versa, alegando que eram integrantes de uma milícia que atua em Queimados, pedindo que fossem liberados.
De fato, em revista ao veículo Nissan Versa foram apreendidos: 1 fuzil, calibre 556, com numeração suprimida, 5 carregadores de fu-zil contendo 135 munições intactas, 3 pistolas, calibre 9mm, com numeração suprimida, 14 carregadores de pistola, contendo 149 munições intactas, 1 simulacro, 1 colete balístico, 3 coletes, 2 tele-fones celulares, 1 balaclava, 5 porta-carregadores, 3 coldres de pis-tola, 4 camisas da polícia e 2 camisas pretas.
Paralelamente, policiais civis lotados na DHBF foram acionados para comparecer no local onde ocorreram os disparos e, ali, conse-guiram apurar que os ocupantes do veículo Citroen C3, cor cinza, pertenceriam a uma determinada mi-lícia e estariam cobrando comerciantes da localidade quando inte-grantes de grupo miliciano rival, a bordo do veículo Nissan Versa, cor preta, se aproximaram, desem-barcaram do veículo e efetuaram diversos disparos de arma de fogo.
Na ocasião, um indivíduo do veículo Citroen C3 morreu no local, enquanto outros dois conseguiram fugir, sendo apurado que um dos indivíduos teria sido baleado e se rastejado por alguns metros até conseguir ajuda de um popular para ser levado ao Hospital da Posse, em Nova Iguaçu.
Diante de tal informação, os agentes compareceram ao Hospital da Posse, onde localizaram o nacional Wesley Santos Martins, que estava sendo atendido e confirmou ser um dos ocupantes do veículo Citroen C3 alvejado pelos milicianos rivais.
Ressalte-se, ainda, que em revista realizada no veículo Citroen C3 foram encontradas duas armas de fogo, coletes balísticos, munições de variados calibres, dentre aparatos militares de diversos tipos, sendo apurado, ainda, que o chassi do veículo não correspondia a placa e que o automóvel era produto de roubo.
Tais elementos já indicavam, de forma clara, que os denunciados não estavam envolvidos apenas em uma prática de crimes pontual ou eventualmente. Muito mais do que isso, já era possível, naquele momento, afirmar que a ação delituosa ocorreu entre criminosos de milícias rivais que travam uma intensa batalha pelo domínio terri-torial da região e pela consequente extorsão realizada em face de moradores e comerciantes da localidade.