Novas novas escutas extraídas dos celulares apreendidos pelo Ministério Público revelam, com riqueza de detalhes, o funcionamento interno da milícia que atuava em Belford Roxo e Duque de Caxias. Os diálogos mostram uma organização criminosa estruturada, marcada por ameaças constantes, violência contra comerciantes, disputa armada por território e fortes indícios de corrupção policial dentro do esquema criminoso.
Segundo a investigação, o grupo atuava principalmente nos bairros Wona, Lote XV e Vale das Mangueiras, em Belford Roxo, além da comunidade da Talbinha, em Duque de Caxias. A quadrilha é acusada de praticar extorsões, torturas e homicídios de desafetos, impondo medo em comerciantes e moradores das regiões dominadas.
O material considerado mais explosivo pelos investigadores surgiu após a prisão em flagrante de integrantes da milícia que realizavam cobranças de comerciantes. Com eles, policiais apreenderam aparelhos celulares que tiveram o sigilo quebrado pela Justiça. A extração dos dados revelou áudios, mensagens e conversas que desmontam o funcionamento interno da organização criminosa.
Segundo o Ministério Público, as provas mostram que a milícia era comandada pelos criminosos Diego dos Santos Souza, o “Cabeça de Ouro”, e Carlos Adriano Pereira Evaristo, o “Carlinhos da Padaria” ou “CL”, que continuavam dando ordens de dentro do sistema penitenciário com livre acesso a celulares.
As escutas revelam que o grupo possuía divisão de tarefas, cobradores, gerentes e operadores responsáveis pela arrecadação das extorsões contra comerciantes e mototaxistas.
Um dos principais nomes citados nas conversas é Angelo Adriano de Jesus Guarany, o “Magrinho”, apontado como gerente dos cobradores e elo entre os executores das extorsões e os líderes presos.
As mensagens mostram o clima de intimidação imposto pela quadrilha.
Em uma conversa de 18 de janeiro de 2025, logo após realizar uma cobrança em um estabelecimento comercial, Rafael Messias, o “Fael”, entra em contato com “Magrinho” relatando a reação de uma funcionária que teria resistido ao pagamento da taxa da milícia:
“Pô, uma mulher gordinha, viado, uma mulher arrogante pra caralho, marrentona a mulher, entendeu? Mas eu não trato ninguém na ignorância, né mano.”
Na sequência, ele deixa claro que o grupo estava impondo cobrança obrigatória aos comerciantes da região:
“Aí eu falei com ela mano, que a partir de semana que vem tem que pagar.”
A funcionária tenta se afastar da situação:
“Aí ela falou assim: ‘Ué, tu não fala com ele? Fala com ele aí, avisa ele aí, não é comigo não, eu não quero falar no telefone não porque eu sou funcionária, eu não posso falar no telefone’.”
O diálogo fica ainda mais grave quando “Fael” sugere represálias físicas contra a mulher:
“Se for funcionária manda dar uns esporros nela também pra ela se ligar também irmão, pra ela aprender a falar com os outros, entendeu?”
O criminoso ainda admite que quase partiu para violência:
“Eu sou ignorante pra caralho mano, mas eu me segurei, entendeu mano? Que eu não sei se é parente do amigo aí também, entendeu mano? Por consideração ao amigo aí a gente não falou nada, ficamos quieto.”
Depois, ele encerra a prestação de contas sobre a cobrança realizada:
“Aí tu vê aí, maninho, valeu? Estamos juntos.”
“Já é então, irmão, já é, estamos juntos.”
“Já foi, já foi já, irmão. Já pegamos já.”
Segundo os investigadores, os áudios mostram como comerciantes eram pressionados através do medo e da ameaça de violência física para aceitar as cobranças impostas pela milícia.
As escutas também revelam o funcionamento financeiro da organização criminosa.
No dia 4 de fevereiro de 2025, o miliciano Gabriel, o “Biel”, entra em contato com “Magrinho” para prestar contas da arrecadação do dia:
“Fala filho do JUNINHO, acabei de chegar em casa. Acabei de pegar as duas FARMÁCIAS agora, fala tu. Faz o que? Tu vem aqui, alguém vem? Passa a visão.”
“Magrinho” responde:
“Calma aí que eu tô falando com o viado aqui pra ele pegar aí.”
Dias depois, em nova conversa, “Biel” relata a transferência dos valores arrecadados:
“Mandei 400 reais.”
“300 do negócio.”
“Falta os da noite.”
Para o Ministério Público, os diálogos comprovam a existência de uma estrutura organizada de arrecadação criminosa, com prestação de contas e divisão de funções dentro da milícia.
Mas as conversas consideradas mais sensíveis da investigação são as que apontam para a possível participação de policiais e agentes de segurança dentro do esquema criminoso.
No dia 11 de fevereiro de 2025, “Biel” informa a “Magrinho” que um homem ligado à milícia rival do “Bombeirinho”, identificado nas escutas pelo código “88”, apareceu em uma farmácia tentando descobrir quem estava realizando as cobranças no local.
A fala chama atenção pela maneira como o suspeito se apresenta:
“Ele chegou falando: ‘não pô, aqui é o amigo da SEGURANÇA, pá, não sei o que, quem foi que passou aí e pegou hoje?’”
Para os investigadores, a referência direta à “SEGURANÇA” reforça a suspeita de envolvimento de policiais civis e militares no funcionamento da milícia.
Na sequência, “Biel” relata que a funcionária acabou revelando sua identidade:
“A mulher da FARMÁCIA ainda falou o meu nome ainda.”
“Aí a mulher, sem querer, sem maldade, falou meu nome, GABRIEL.”
Mesmo identificado, o criminoso demonstra sensação de proteção e impunidade:
“Pode falar, qualquer um que falar aí pode falar meu nome.”
“Que eu dou meu nome pra geral.”
Logo depois, ele ameaça o rival:
“É que eu não tenho o número desse arrombado, senão eu ia falar umas caralhadas de merda pra ele.”
“‘Mano, você tu vai tentar de novo?’”
Em seguida, “Magrinho” pede imagens do homem ligado ao grupo rival para identificá-lo futuramente:
“Mano, já que ela te mandou mensagem aí, pede pra ela mandar um vídeo, cara, de quem foi lá.”
O trecho seguinte é considerado um dos mais graves da investigação:
“Pede pra ela: ‘pô, amiga, me ajuda aí, só pra eu saber quem é, tá ligado, se ver na rua saber quem é, pra estar esperando alguma coisa’.”
Para os investigadores, a expressão “estar esperando alguma coisa” indica possível preparação para ataque armado ou execução ligada à disputa territorial entre milicianos rivais.
“Magrinho” continua:
“Tenta desenrolar com ela no talento pra gente ver quem é.”
“É moleque daí.”
“Se eu não me engano tem um moleque do PILAR que estava tentando fazer essa correria pra ele.”
Segundo o Ministério Público, as novas escutas desmontam completamente a estrutura da milícia ao mostrar, sem filtros, como o grupo operava na prática: cobrança sistemática de extorsões, ameaças contra comerciantes, controle financeiro, disputa territorial violenta e fortes indícios de corrupção policial sustentando o funcionamento da organização criminosa na Baixada Fluminense.