Um relatório da Polícia Civil do Rio de Janeiro descreve como funciona a facção criminosa Comando Vermelho.
O CV nada mais é do que um grupo de indivíduos que se organizam de forma paramilitar, com hierarquia e disciplina para a prática de um crime, geralmente o tráfico de drogas.
Mas o comando vai muito além desse conceito sucinto de facção. Com divisão de tarefas bem definidas, estruturalmente ordenada, objetivando auferir vantagens mediante a prática de infrações penais que vão muito além do tráfico de drogas, o CV retrata uma organização criminosa muito bem delineada.
Fundada por Rogério Lemgruber, no presídio Candido Mendes, na Ilha Grande e criada sob a égide do lema “Paz, Justiça e Liberdade”, a facção teve como um de suas primeiras medidas a instituição do caixa comum, alimentado pelos proventos arrecadados pelas atividades criminosas isoladas, um “dízimo”, que serviria para financiar fugas, custear advogados e amenizar as duras condições de vida dos presos, reforçando a autoridade e respeito do CV no seio da massa carcerária.
A estrutura básica da organização assemelha-se a uma forma empresarial no que tange aos lideres que são verdadeiros gestores das condutas criminosas desenvolvidas por todo território do Estado do Rio de Janeiro.
Neste sentido, é importante observar o conceito do “Conceito do Conselho do CV9(50(/+2·que é um corpo de membros eleitos ou designados que, conjuntamente, supervisiona as atividades da organização, zela pelo estatuto adotado e após opinião de todos toma as decisões de forma colegiada.
Segundo investigação já realizada, a última formação que se tem conhecimento do Conselho seria composto (sua alta cúpula) por Marcio dos Santos Nepomuceno, Marcinho VP, Luiz Fernando da Costa, o “Fernandinho Beira Mar” e Ricardo Chaves de Castro Lima, também conhecido pelos codinomes de “Fu”, “Fu da Mineira” ou “Playboy” também estaria na cúpula da organização.
Para fazer com que suas decisões sejam respeitadas, os membros do dito conselho que integram o topo da hierarquia da facção se preocupam em se fortalecer também no aspecto financeiro. Assim, deve se destacar o conceito da caixinha do CV que é a formação de um verdadeiro “caixa forte” da facção e que se perfaz pela contribuição, em dinheiro, dada pelos líderes das favelas dominadas pelo comando vermelho.
Tal caixa, tem como objetivos principais: a compra de armas, munições, drogas, financiamento de guerras, custeio de honorários advocatícios, custeio de despesas de visitas de presos, principalmente em presídios federais, dentre outros.
Diante de tudo, nota-se que o berço histórico do CV se deu numa penitenciária e que, na atualidade, ainda são das penitenciárias de segurança máxima, que partem as ordens relativas a como os membros da facção em liberdade devem agir.
Assim, é inevitável a constatação de que nada acontece nas ruas sem a aquiescência dos líderes das respectivas comunidades, bem como dos membros do conselho da facção que, quando presos, encontrar-se-ão acautelados nas penitenciárias federais bem como Penitenciária Gabriel Ferreira de Castilho (Bangu 3).
Por fim, destaca-se que, para efeito de organização, a facção criou uma norma que nada mais são do que regras básicas de atuação e convivência.

Com perfil expansionista e de repercussão internacional, a Organização Criminosa que domina o tráfico em diversas Comunidades, não para de crescer. Esse perfil é característica de suas origens. Na década de 90, o CV dominava 90% das favelas do Rio de Janeiro,
Em nível Brasil, o Narcotráfico tem movimentações financeiras significativas e números de violência alarmantes. Podemos afirmar que o Comando Vermelho é uma das Facções mais violentas que atuam no Brasil e no Estado do Rio de Janeiro atualmente.
Durante anos de atuação das Forças de Segurança no combate ao narcotráfico observou-se que as Comunidades do CV contam com um enorme aparato de fornecedores de armas, munições e drogas.
Estes fornecedores possuem rotas de entrada e distribuição para os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Espirito Santo muito bem estruturadas.
Estes fornecedores são os responsáveis em trazer armas e drogas dos Países fronteiriços e fazerem a distribuição para os grandes centros como o Rio de Janeiro onde estão localizadas as maiores Organizações Criminosas do País.
Cabe ressaltar aqui que, um grande entreposto dos “importadores” das drogas e armas é o Estado do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Estes chamados “importadores” são os criminosos que possuem alta influências nos Países fronteiriços negociando com os traficantes internacionais de armas e drogas, alguns daqueles auferem tanto lucro que ampliam seus negócios adquirindo fazendas e propriedades naqueles Países e iniciam sua própria produção.
São Paulo é a rota comum dos matutos para que a mercadoria chegue até o Rio de Janeiro.
Chegando ao Rio de Janeiro através das vias principais, Av. Brasil; Linha Vermelha proveniente da Presidente Dutra e Washington Luis, as drogas e armas também chegam por via marítima.
Essa grande importação faz com que o narcotráfico necessite de uma maior liquidez para comprar a mercadoria, suprir as perdas e para manter a caixinha da Facção, o que causou aumentos das modalidades criminosas nas quais o tráfico atua.
Os líderes das favelas auferem lucros primordialmente com o tráfico de drogas e secundariamente com os delitos de roubo de cargas e roubo de carros.
Os roubos de carros e de cargas são um “negócio” que traz apenas vantagens à organização criminosa, uma vez que não dispende de grandes investimentos e os lucros são garantidos, tendo em vista que, via de regra, já se forma uma relação de receptadores que sempre estão dispostos a pagar pelo produto roubado.
Os fuzis utilizados pelos traficantes são comprados em sua grande maioria nos Países fronteiriços ao Brasil e são utilizados para isto o dinheiro oriundo da venda de drogas, da venda de cargas roubadas, veículos roubados semi-novos e veículos 0km (modalidade em crescimento no estado com o roubo de caminhões cegonha).
O tráfico de armas é um negócio que também movimenta milhões de dólares, só perdendo para o de drogas. Calcula-se que das 17 milhões de armas que existem no país, 4 milhões estejam nas mãos do crime organizado. Tanto as drogas como as armas chegam ao Brasil através dos, formiguinhas, pessoas que as transportam em veículos particulares ou através de grandes traficantes que fazem encomendas de grandes quantidades que chegam via terra, mar e, muito pouco atualmente, por ar. Nesta negociata, muitas vezes, os bandidos pagam suas contas fazendo trocas de produtos.
O poder de armamento dos narcotraficantes ultrapassou toda e qualquer barreira. Em 2018 foi apreendida na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro, uma metralhadora ponto 50 armamento utilizado em guerras. Essa arma, segundo as investigações, iria passar por diversas Comunidades do Rio de Janeiro até ser comprada por uma delas.
Os roubos de veículos, por sua vez, se transformam em lucro para o criminoso na medida em que os autos roubados se transformam em veículos clonados que são revendidos, em peças quando desmanchados, ocasião na qual passa-se a abastecer lojas de peças, ferros velhos, com os itens retirados dos veículos.
Os veículos roubados por estes criminosos possuem alguns destinos. Um destes é o envio para o Paraguai para que seja trocado por armas, dinheiro e drogas
As negociações envolvem pagamentos com fuzil,metralhadora, pistolas e até ponto 30 , é oferecida. Estas armas vêm ser integradas a Guerra do Tráfico no Rio de Janeiro. A realidade é que o tráfico de drogas comanda toda e qualquer atividade criminosa com o intuito de se fortalecer na Guerra entre Facções e contra o Estado Democrático de Direito.
Toda favela dominada por traficantes, há um dono, que pode estar preso ou solto, um “frente” (ou gerente geral) e diversos outros criminosos que ocupam postos de baixo escalão. Há uma verdadeira escala hierárquica entre tais elementos que desenvolvem as condutas criminosas, de forma que os líderes da facção autorizam que tais condutas sejam desenvolvidas, observando sempre os interesses do todo (da facção), na sequência, os donos dos territórios autorizam da mesma forma o cometimento dos crimes. Posteriormente, quando há, “os frentes” (gerentes gerais) repassam as ordens (do dono, dos líderes da facção) aos elementos que, na ponta prática, cometem os delitos.
Após toda essa verdadeira orquestra criminosa, já que se está diante de uma nítida divisão de tarefas autorizada, aprovada, depara-se com dinheiro auferido com os crimes cometidos. Desse dinheiro, faz-se os pagamentos necessários ao desenvolvimento da atividade criminosa e após chega-se ao lucro, que é distribuído aos donos das localidades (favelas) e à cúpula da facção
FONTE: Polícia Civil do RJ