Alvo de uma operação do Ministério Público do Rio nesta quinta-feira (30), suspeito de integrar e liderar uma nova cúpula da contravenção no estado, Marcos Paulo Moreira da Silva, conhecido como “Marquinho Sem Cérebro”, não surgiu agora no radar das autoridades. Seu histórico é antigo — e marcado por episódios de violência, coerção e domínio territorial.
Antes de ser apontado como peça-chave no esquema do jogo do bicho em Bangu, Marquinho já havia comandado uma milícia na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Segundo relatório da Justiça da década passada, ele e seus comparsas coagiam revendedores de gás na comunidade do Sandá, em Bangu, impondo restrições e limitando a venda do produto a comerciantes da própria região. O objetivo era claro: controlar completamente o comércio de gás na localidade.
De acordo com os registros, Marquinho chegou a procurar pessoalmente um homem identificado como Arnaldo Flores, exigindo que ele deixasse a área de interesse da organização criminosa. A vítima inicialmente resistiu, mas acabou cedendo às ameaças, recolhendo seus pertences e abandonando a região.
Mesmo assim, acabou sendo assassinado posteriormente.
As ações do grupo não pararam por aí. Marquinho e seus aliados montaram ou adquiriram depósitos de gás em Bangu, consolidando o domínio sobre o setor. Após tomar o depósito de gás de um homem identificado como Armando, localizado no Sandá, toda a família dele passou a ser ameaçada.
O recado, segundo os relatos, era direto: o criminoso havia chegado para dominar a região e quem ficasse em seu caminho, morreria.
Na prática, a intimidação era constante. Marquinho e um policial militar apontado como seu sócio circulavam pelas ruas abordando vendedores e pessoas ligadas à família Flores, determinando que todos avisassem Armando e seus familiares para interromper imediatamente a venda de gás e fechar os depósitos.
As ameaças, de acordo com os relatos, chegavam a ser feitas até por policiais militares que patrulhavam a área, ampliando o clima de medo entre os moradores e comerciantes.
Mesmo após a prisão de Marquinho, o esquema de pressão teria continuado. O policial militar apontado como seu sócio, na tentativa de manter o monopólio da comercialização de gás, seguiu abordando vendedores, questionando — em tom de ameaça — os preços praticados.
GUERRA NA CONTRAVENÇÃO
Anos antes desses episódios, Marquinho já atuava em outro cenário igualmente violento: a disputa entre bicheiros.
Com a prisão do contraventor Rogério de Andrade, seu rival Fernando Iggnácio passou a ordenar uma série de ataques aos pontos controlados pelo concorrente. E, segundo investigações, Marquinho Sem Cérebro, que era chefe de segurança de Iggnácio, participou diretamente dessas ações.
A ordem era clara: destruir máquinas caça-níqueis e desestruturar a quadrilha rival, abrindo caminho para o domínio dos territórios na Zona Oeste.
Em outro trecho das investigações, Marquinho chegou a ser flagrado combinando com o próprio Iggnácio o pagamento de propina a policiais civis, incluindo um delegado, para forjar flagrantes de porte de arma contra integrantes de grupos rivais — possivelmente policiais militares.
A OPERAÇÃO DE HOJE
Todo esse histórico ajuda a explicar por que Marquinho voltou ao centro das atenções.
Nesta quinta-feira (30), o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRJ), em conjunto com a Coordenadoria de Segurança e Inteligência do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (CSI/MPRJ), cumpre 18 mandados de busca e apreensão contra uma nova cúpula do jogo do bicho em Bangu.
A investigação é própria do Ministério Público.
De acordo com o GAECO, o grupo criminoso seria liderado por Marquinho Sem Cérebro, que já está preso.
A ação conta com o apoio da Coordenadoria de Inteligência da Investigação (CI2/MPRJ), do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE) da Polícia Civil e do 14º BPM (Bangu).
Os mandados, expedidos pela 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa, têm como objetivo apreender documentos e materiais ligados a uma série de crimes, como:
- exploração de jogos de azar
- organização criminosa
- lavagem de capitais
- homicídios
- máquinas caça-níqueis
- equipamentos de bingos clandestinos
- armas de fogo
Segundo as investigações, Marquinho ascendeu dentro da chamada máfia da contravenção, principalmente na exploração de máquinas caça-níqueis, após a morte do bicheiro Fernando Iggnácio.
Desde então, o Procedimento Investigatório Criminal (PIC) conduzido pelo GAECO aponta a prática de múltiplos crimes pelo grupo, incluindo diversos homicídios registrados em Bangu a partir de 2021.
Os mandados estão sendo cumpridos em Bangu, Senador Camará, Realengo, Recreio dos Bandeirantes e Marechal Hermes.