Uma determinação do Comando Vermelho expôs uma estratégia da facção para proteger suas principais lideranças e, ao mesmo tempo, reforçou o papel dos grandes complexos de favelas como centros de poder da organização criminosa no Rio de Janeiro.
Segundo depoimento prestado em Juízo pelo delegado da Polícia Civil Moyses Santana, o Comando Vermelho determinou que chefes de comunidades não permanecessem mais homiziados nos próprios territórios que comandavam. A orientação era que essas lideranças se escondessem nos grandes complexos controlados pela facção, como Complexo da Penha, Complexo do Alemão e Rocinha.
A razão para a escolha desses territórios também foi descrita pelo delegado: os grandes complexos possuem barricadas e forte poderio bélico, criando uma espécie de cinturão de proteção para os criminosos procurados.
Mas a estratégia ia além de simplesmente esconder os chefes.
Segundo o depoimento, mesmo quando permaneciam homiziados nesses grandes complexos, os criminosos continuavam exercendo responsabilidades dentro das próprias áreas para as quais haviam sido designados e também assumiam funções no território onde estavam abrigados.
É exatamente nesse ponto que o Complexo da Penha aparece como uma peça central da estrutura do Comando Vermelho.
CHEFES DE OUTRAS FAVELAS SE ESCONDIAM NA PENHA
Um dos exemplos apresentados pelo delegado é Daniel Afonso, apontado como liderança do tráfico de uma comunidade — o próprio depoente ressalvou não se recordar exatamente de qual seria a favela — e que permanecia escondido no Complexo da Penha.
A dinâmica descrita é reveladora: Daniel continuava sendo uma liderança de sua comunidade de origem, mas utilizava a Penha como área de homizio e proteção.
Segundo Moyses Santana, essa era justamente a nova orientação do Comando Vermelho: os chefes não deveriam permanecer escondidos nas comunidades que comandavam, mas nos grandes complexos da facção.
Penha, Alemão e Rocinha aparecem, assim, não apenas como territórios de domínio do CV, mas como áreas capazes de oferecer às lideranças criminosas proteção baseada em geografia, barricadas, efetivo armado e poderio bélico.
QUEM SE ESCONDE NA PENHA TAMBÉM PASSA A TER FUNÇÃO NO COMPLEXO
O delegado explicou ainda que os chefes homiziados nos grandes complexos não ficavam simplesmente escondidos.
Eles também assumiam responsabilidades locais.
No caso da Penha, essas funções eram exercidas juntamente com Edgard Alves, o Doca, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala, apontados no depoimento como os principais chefes do complexo.
Segundo Moyses Santana, Pedro Bala e Edgard dividiam a liderança do Complexo da Penha.
Abaixo deles existia uma estrutura operacional formada por diversos criminosos, sendo apontado como principal braço operacional o acusado conhecido como Gadernal.
A descrição feita pelo delegado revela, portanto, uma estrutura hierárquica que não se limitava a uma única favela. O Comando Vermelho mantinha chefes responsáveis por comunidades específicas, mas utilizava grandes complexos como áreas estratégicas de proteção, concentração de poder e, também, atuação criminosa.
PENHA TINHA DOIS GRANDES CHEFES
Dentro dessa estrutura, Doca e Pedro Bala aparecem como os principais nomes do comando do Complexo da Penha.
O delegado afirmou em Juízo que os dois exerciam conjuntamente o controle da região e que, abaixo deles, havia diversos braços operacionais.
Um desses nomes era Gadernal, identificado como um dos principais operadores da estrutura.
A investigação, portanto, descreve uma cadeia de comando que ia dos principais chefes do complexo até os responsáveis por setores específicos e pela operação cotidiana do tráfico.
“MACARRÃO” TINHA GERÊNCIA DENTRO DA PENHA
Outro acusado citado pelo delegado é Carlos Alexandre Pinto, o Alex Macarrão.
Segundo Moyses Santana, ele não possuía a mesma estrutura de Daniel Afonso, que seria responsável pela chefia de uma comunidade inteira.
Ainda assim, Carlos Alexandre exerceria uma função de gerência dentro do próprio Complexo da Penha, em uma localidade denominada Macarrão.
A diferença entre os dois casos ajuda a demonstrar a divisão de funções existente na organização: enquanto alguns criminosos ocupavam posições de liderança sobre comunidades inteiras, outros exerciam gerências e funções operacionais dentro de áreas específicas dos grandes complexos.
OUTRO CHEFE, ESCONDIDO NA ESTRUTURA DA FACÇÃO
O depoimento também aponta Thiago Barbosa, conhecido como Th do Rasta, como chefe do tráfico da Comunidade do Rasta, em Duque de Caxias.
Segundo o delegado, Thiago era uma grande liderança do tráfico naquela localidade e estaria relacionado a diversos roubos de veículos e de cargas.
O criminoso também possuía mandados de prisão pendentes e anotações criminais, sendo descrito pelo delegado como alguém procurado havia algum tempo.
O caso de Thiago se encaixa na mesma lógica de descentralização territorial descrita na investigação: a facção mantém lideranças responsáveis por comunidades específicas, ao mesmo tempo em que utiliza grandes complexos como áreas de proteção para integrantes de maior importância.
OPERADOR FINANCEIRO DE DOCA
Outro nome de destaque é Nicolas Soares.
De acordo com Moyses Santana, Nicolas exercia inicialmente a função de soldado no Complexo da Penha, mas as investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes avançaram até apontá-lo como operador financeiro do Comando Vermelho.
Segundo o delegado, Nicolas seria um braço financeiro de Edgard Alves, o Doca, responsável por diversas transações relacionadas à aquisição de armas de fogo e drogas.
Após sua prisão, a importância do criminoso para a organização teria ficado ainda mais evidente, sendo descrito pelo investigador como um homem de extrema confiança de Doca.
SOLDADO DE CONFIANÇA PARTICIPAVA DA SEGURANÇA DE DOCA
Fagner Cândido, o Bafo, também aparece na estrutura descrita pelo delegado.
Moyses Santana afirmou que Fagner era soldado do tráfico, mas possuía grande valor para a facção por sua proximidade com Edgard.
Segundo o depoimento, Fagner inclusive participava do rodízio de segurança da casa de Doca.
O delegado também afirmou que Fagner foi preso junto com Daniel durante o cumprimento de um mandado, portando fuzis.
A defesa, entretanto, apresentou versão diferente sobre esse ponto, sustentando que Fagner foi preso dentro de casa, sem ilícitos, e que existem fotografias dele nos autos, mas não portando arma.
“PLANTÃO DO PAI URSO”: A SEGURANÇA DO CHEFE
A investigação identificou ainda um grupo de WhatsApp denominado “Plantão do Pai Urso (Edgar)”, criado especificamente para administrar a segurança de Edgard Alves.
Segundo o delegado, vários dos acusados mencionados na investigação faziam parte desse círculo de confiança e participavam do sistema de rodízio destinado à segurança do chefe do tráfico.
A existência do grupo é mais um elemento que, segundo a investigação, demonstra o nível de organização da estrutura criminosa: a proteção de uma das principais lideranças não seria improvisada, mas administrada por meio de uma estrutura própria de comunicação e distribuição de funções.
CONTROLE FINANCEIRO E CONFIANÇA DE DOCA
Valmir Oliveira, o Faísca, também foi descrito como um criminoso de grande importância dentro da facção.
Segundo Moyses Santana, Valmir exercia algum tipo de controle financeiro sobre as drogas comercializadas nas bocas de fumo e gozava da confiança de Edgard.
O delegado afirmou ainda que grande parte dos réus possuía proximidade com Doca e participava do rodízio de segurança de sua residência.
Assim, a estrutura identificada pela investigação reunia diferentes funções: chefes de comunidades, lideranças territoriais, gerentes, soldados, operadores financeiros e integrantes responsáveis pela segurança direta dos principais chefes.
FILHO DE TRAFICANTE DA PENHA
Outro nome citado no depoimento é Fabrício Dias, o Pelézinho, filho de “Pelé”, descrito pelo delegado como outro traficante conhecido do Complexo da Penha e de grande proximidade com Edgard.
Segundo Moyses Santana, Fabrício já havia aparecido em outras investigações em andamento na DRE e possivelmente teria sido levado para o tráfico pelo próprio pai.
O delegado afirmou que “Pelé” possuía grande liderança e atuava junto com outros acusados.
Ainda segundo o depoimento, policiais chegaram a realizar diligências para tentar capturá-lo, mas não tiveram sucesso.