A promessa de dinheiro fácil transformou um motorista de aplicativo em uma das peças da estrutura logística do Comando Vermelho na Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio. Mas, segundo depoimentos prestados à Polícia Civil, a mesma organização criminosa que o seduziu para o tráfico acabou tentando fazê-lo assumir sozinho a responsabilidade por armas e drogas apreendidas em um flagrante. Sentindo-se traído, o motorista decidiu colaborar com as investigações e revelou detalhes do funcionamento da facção.
Segundo os autos, ele afirmou aos investigadores que trabalhava como motorista de aplicativo quando passou a ter contato frequente com integrantes da facção. Segundo seu relato, tudo começou após realizar uma corrida para o traficante GL, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho na Gardênia Azul.
Depois da viagem, GL passou a procurá-lo e insistir para que começasse a prestar serviços para a organização criminosa. Seduzido pela possibilidade de ganhar muito mais do que recebia como motorista de aplicativo, Rafael aceitou o convite e passou a integrar a estrutura da facção.
Em seus depoimentos, ele contou que sua função era transportar traficantes, armas, drogas, munições e integrantes armados entre comunidades dominadas pelo Comando Vermelho. Segundo as investigações, ele também atuava como motorista de confiança de Glauber.
O motorista afirmou que fazia o transporte de armamentos, drogas e soldados entre a Penha, a Cidade de Deus e a Gardênia Azul. Conforme seu relato, as armas, munições e homens saíam da Penha, eram levados para a Cidade de Deus e, de lá, partiam para ataques contra grupos rivais. Já os entorpecentes eram distribuídos na Gardênia Azul, enquanto dinheiro arrecadado com o tráfico fazia o caminho inverso, alimentando toda a estrutura financeira da organização.
Embora tenha negado participação direta em homicídios, o motorista confirmou aos policiais que era responsável pela logística que sustentava as ações da facção.
A traição que mudou tudo
A colaboração com a polícia começou depois que o motorista foi preso em flagrante ao lado de GL e de outros integrantes da facção. O veículo em que estavam, segundo as investigações, havia sido utilizado em um homicídio, e um dos fuzis apreendidos também teria sido reconhecido por uma testemunha como a arma empregada no crime.
Foi nesse momento que, segundo os investigadores, o motorista percebeu que estava sendo abandonado pelos próprios comparsas.
De acordo com seu relato, integrantes da facção queriam que ele assumisse sozinho a responsabilidade pelas armas e drogas apreendidas para livrar Glauber e os demais presos. Revoltado e arrependido, o motorista decidiu contar tudo o que sabia sobre o funcionamento do grupo criminoso.
As informações prestadas por ele resultaram em um extenso depoimento e, posteriormente, em novas oitivas realizadas dentro do sistema prisional, a pedido do Ministério Público. Segundo policiais ouvidos no processo, o motorista refinou detalhes das investigações e suas declarações passaram a auxiliar cerca de dez inquéritos distintos.
Medo de morrer
Após revelar o funcionamento interno da facção e apontar lideranças como Doca, Gadernal, Lesk e o próprio GL, o motorista passou a temer represálias e foi orientado pelos investigadores a permanecer no chamado “seguro” dentro do sistema penitenciário.
Os policiais também relataram que ele demonstrava grande preocupação com possíveis retaliações da organização criminosa.
Durante outra investigação, relacionada ao assassinato de três médicos na Barra da Tijuca, a quebra judicial do sigilo telemático de integrantes do Comando Vermelho revelou mensagens de WhatsApp que reforçariam esse temor.
Segundo o depoimento dos investigadores, em uma conversa entre Lesk e outro traficante citado pelo motorista, ambos demonstram preocupação com as informações fornecidas pelo ex-motorista.
Em determinado momento da conversa, um dos criminosos afirma que o motorista”falou tudo”. Na sequência, Lesk responde: “Pode ficar tranquilo que ele vai desmentir tudo.”
Para os investigadores, a troca de mensagens indica que Rafael teria sofrido pressão da facção após decidir colaborar com a Polícia Civil.
As declarações prestadas por ele passaram a subsidiar aproximadamente dez investigações de homicídios e outros crimes atribuídos ao Comando Vermelho na Gardênia Azul, servindo como ponto de partida para novas diligências e oitivas determinadas pelo Ministério Público e pela autoridade policial.