As recentes ações das forças de segurança contra esquemas de venda ilegal de farinha de trigo explorados por milicianos e traficantes no estado do Rio de Janeiro jogaram luz sobre um negócio que movimenta milhões de reais longe dos holofotes. Mas documentos judiciais mostram que esse mercado clandestino já era explorado por grupos criminosos há pelo menos um ano.
Um processo que tramita na 1ª Vara Criminal Especializada em Organizações Criminosas revela que integrantes da chamada “Milícia do Varão”, que atua em Seropédica, já controlavam a comercialização de farinha de trigo desde 2025, obrigando comerciantes a comprar o produto exclusivamente de fornecedores ligados ao grupo criminoso. A milícia do Varão ´é o maior grupo paramilitar da Baixada Fluminense sendo comandada por Gilson Ingrácio de Souza Júnior, o Juninho Varão,.
A descoberta reforça a suspeita das autoridades de que o domínio sobre produtos básicos de consumo se tornou uma das principais fontes de arrecadação das organizações criminosas, ao lado da extorsão, da venda irregular de gás, água e internet.
Monopólio criminoso
Segundo a denúncia do Ministério Público, a milícia impunha um verdadeiro monopólio econômico na região do Jardim Maracanã, em Seropédica.
Os comerciantes não tinham liberdade para escolher fornecedores. De acordo com as investigações, eram obrigados a adquirir farinha de trigo, gás, água, carvão e materiais elétricos de empresas e pessoas ligadas ao grupo criminoso.
A organização também cobrava taxas periódicas dos estabelecimentos da região.
Para os investigadores, o esquema funcionava como uma espécie de “imposto paralelo” imposto pela milícia sobre a economia local.
Cobrança de taxas e domínio territorial
De acordo com a denúncia, três milicianos atuavam de forma organizada dentro da estrutura criminosa.
Pablo seria responsável por recolher os valores arrecadados e repassá-los para integrantes de escalões superiores da milícia.
Mateus realizaria as cobranças diretamente nos estabelecimentos comerciais e receberia pagamento semanal para desempenhar essa função.
Já Thiago seria o motorista utilizado pelo grupo durante as incursões para arrecadação de dinheiro e cobranças de comerciantes.
As investigações apontam que os criminosos percorriam os estabelecimentos utilizando um Volkswagen Fox preto para recolher valores referentes à chamada “taxa de segurança”.
Somente no dia da prisão dos acusados, segundo o Ministério Público, cerca de R$ 1 mil teriam sido arrecadados dos comerciantes da região.
Farinha de trigo entra na mira das autoridades
O caso ganha relevância justamente em um momento em que as autoridades intensificam operações contra esquemas semelhantes envolvendo a comercialização de farinha de trigo.
Nos últimos meses, investigações passaram a apontar que milicianos e traficantes vêm ampliando sua atuação para além das atividades criminosas tradicionais, buscando controlar setores inteiros da economia em comunidades e bairros sob sua influência.
A farinha de trigo passou a chamar a atenção dos investigadores por se tratar de um produto amplamente utilizado por padarias, pizzarias, confeitarias e pequenos comerciantes, garantindo fluxo constante de arrecadação para grupos criminosos.
Prisões mantidas pela Justiça
Os três acusados tiveram as prisões mantidas durante o andamento do processo.
Segundo o Ministério Público, eles integrariam uma organização paramilitar conhecida como “Milícia do Varão”, apontada como responsável por extorsões sistemáticas e pelo controle econômico de diversos serviços e produtos na região.
A denúncia foi recebida pela Justiça e os acusados respondem por constituição de milícia privada e extorsão.
O caso é mais uma evidência de uma tendência observada pelas forças de segurança: organizações criminosas cada vez menos dependentes apenas do tráfico de drogas e cada vez mais interessadas em controlar mercados inteiros de produtos essenciais, transformando itens comuns do dia a dia, como a farinha de trigo, em instrumentos de poder e lucro para o crime organizado.
Base operacional
A DRACO tem a informação de que Condomínio Jardim Guandu, no Município de Nova Iguaçu, é a base operacional da milícia com registros reiterados de atuação armada, controle territorial e imposição de domínio à população local,.