Uma operação realizada nesta sexta-feira no Complexo do Lins colocou novamente a comunidade no centro das atenções das forças de segurança. Mas, paralelamente às ações policiais realizadas hoje, uma outra investigação do Ministério Público e da Polícia Civil revela um cenário ainda mais impressionante: segundo os investigadores, criminosos transformaram a favela em uma espécie de “Casas Bahia paralela”, abastecida com produtos comprados com dinheiro roubado de vítimas da Zona Sul do Rio.
A investigação aponta que a quadrilha criou um verdadeiro ecossistema criminoso dentro do Complexo do Lins, utilizando celulares roubados para invadir contas bancárias das vítimas e fazer compras milionárias em grandes redes varejistas.
Segundo a denúncia, os criminosos agiam principalmente em bairros nobres da Zona Sul, como Jardim Botânico e Lagoa.
As vítimas, em sua maioria mulheres desacompanhadas, eram abordadas por criminosos armados em motocicletas.
Sob ameaça de morte, eram obrigadas a entregar celulares, joias, alianças, cartões bancários e até senhas.
Mas o roubo dos aparelhos era apenas o início da engrenagem criminosa.
De acordo com o Ministério Público, o verdadeiro objetivo da quadrilha era acessar as contas bancárias das vítimas para realizar compras eletrônicas em grande escala.
A investigação afirma que, logo após os assaltos, os criminosos faziam compras de televisões, geladeiras, eletrodomésticos, bebidas caras e diversos itens de alto valor em redes como Casas Bahia e aplicativos como iFood.
Tudo era entregue em endereços ligados ao Complexo do Lins.
“Os autores montaram uma espécie de ‘CASAS BAHIA PARALELA’ no Complexo do Lins”, afirma a denúncia do Ministério Público.
As notas fiscais anexadas à investigação mostram uma sequência de compras feitas horas depois dos roubos.
Somente entre os dias 10 e 11 de julho de 2025, segundo os investigadores, os criminosos realizaram diversas compras usando a conta bancária de uma vítima assaltada no Jardim Botânico.
Os produtos eram enviados diretamente para o Morro do Amor, no Lins.
As investigações apontam que o esquema possuía estrutura profissional e divisão de tarefas.
Havia o núcleo responsável pelos roubos, outro encarregado de movimentar o dinheiro e comprar os produtos, além de um setor voltado para lavagem de dinheiro e um braço ligado à transformação das joias roubadas em peças usadas por integrantes do tráfico.
Segundo o Ministério Público, a organização criminosa tinha “verdadeira feição empresarial”.
O núcleo dos roubos atuava com motocicletas como Honda XRE verde e Honda CB 300 Twister.
As vítimas eram abordadas sob a mira de armas de fogo e obrigadas a desbloquear os celulares.
Depois dos assaltos, os criminosos fugiam para o Lins levando aparelhos desbloqueados, alianças, correntes de ouro e cartões bancários.
A investigação afirma que o grupo aumentou a quantidade de roubos porque nem sempre conseguia concluir as compras antes de bloqueios bancários feitos pelas vítimas.
“O grande objetivo da quadrilha era acessar as contas bancárias das vítimas”, aponta a denúncia.
As compras incluíam eletrodomésticos caros e bebidas de luxo, como whisky Gold Label.
Parte dos produtos era revendida dentro da própria comunidade.
Outra parte seria usada para lavagem de dinheiro.
Segundo os investigadores, uma empresa chamada “Ar Velox Distribuidora de Gás” teria sido usada como fachada para ocultar dinheiro obtido através dos crimes.
A empresa aparece ligada a integrantes da organização criminosa e, segundo o Ministério Público, servia para “dissimular e reinserir capitais de origem criminosa”.
As investigações também revelaram que integrantes do grupo utilizavam os mesmos endereços cadastrados em plataformas de entrega como o iFood.
Em um dos casos analisados, duas compras feitas nas Casas Bahia com dinheiro roubado foram entregues em endereços diferentes dentro do Lins.
Uma das entregas foi recebida por uma mulher que chegou a colocar o próprio CPF no recebimento.
Em outro endereço, um homem identificado apenas como “João” assinou como “funcionário” ao receber os produtos.
Outro braço da organização chamou atenção dos investigadores: o chamado “núcleo das joias”.
Segundo a denúncia, alianças, correntes e peças de ouro roubadas das vítimas eram encaminhadas para um homem apontado como ourives ligado ao Comando Vermelho.
Ele seria responsável por derreter os metais preciosos e transformá-los em joias personalizadas usadas por integrantes da facção.
A investigação aponta que o suspeito já era conhecido por fabricar joias para traficantes do Comando Vermelho e teria assumido esse papel após a morte do antigo ourives do Lins.
Imagens anexadas ao procedimento mostram o investigado ao lado de criminosos ostentando joias, dinheiro e símbolos ligados ao tráfico.
Há ainda referências à chamada “Tropa do Urso”, apontada como um grupo ligado ao Comando Vermelho conhecido por invasões em comunidades rivais.
Segundo o Ministério Público, o esquema montado dentro do Complexo do Lins permitia transformar rapidamente celulares roubados em dinheiro, mercadorias e joias utilizadas pelo tráfico, criando uma engrenagem criminosa altamente lucrativa dentro da comunidade.