A reportagem teve acesso a novos e contundentes detalhes da investigação sobre a execução do capoeirista Paulinho Sabiá, morto a tiros em fevereiro, no bairro de Icaraí, em Niterói. As informações constam em depoimentos prestados à polícia e integram a apuração oficial do caso.
Logo no início da trama, segundo relato de um dos envolvidos, a própria irmã da vítima, Adriana Souza Possobom — presa sob suspeita de ser a mandante — teria tentado enganar os executores ao afirmar que Paulinho seria seu cunhado, e não irmão. Ainda de acordo com o depoimento, ela negociou diretamente com uma liderança do tráfico no Complexo do Alemão a execução do crime e teria se irritado ao saber que a primeira tentativa fracassou.
Em depoimento, Juan Nunes dos Santos, preso por participação no homicídio, afirmou que Adriana esteve dias antes no Complexo do Alemão com o objetivo de contratar traficantes para cometer o assassinato. Segundo ele, Adriana se reuniu com um criminoso conhecido como “Raí”, apontado como liderança em uma área da comunidade.
De acordo com Juan, Adriana acertou os termos diretamente com Raí, que, por sua vez, o recrutou para integrar a ação criminosa. O valor oferecido pela execução teria sido de R$ 50 mil. Ainda segundo o depoente, Adriana sustentou a versão de que a vítima seria irmão de seu marido — ou seja, seu cunhado — versão que foi inicialmente acreditada pelos executores.
A investigação aponta que Adriana forneceu detalhes minuciosos sobre a rotina de Paulinho, incluindo foto, endereço e hábitos. Todo o contato operacional teria sido feito entre ela e Raí.
Juan relatou que Raí acionou outros dois homens para participar do crime, conhecidos como Kaio e Lisboa — ambos oriundos de Minas Gerais, mas atuando no tráfico no Complexo do Alemão.
No dia 16 de fevereiro, Adriana teria repassado novas informações sobre a localização da vítima. Kaio foi até o endereço em uma motocicleta de aplicativo com a missão de monitorar a saída de Paulinho do prédio. Em seguida, Juan e Lisboa chegaram ao local em uma motocicleta vermelha, posicionando-se em pontos estratégicos para acompanhar a movimentação.
Ainda segundo o depoimento, Raí enviou uma mensagem via WhatsApp informando que Adriana havia dito que Paulinho sairia para caminhar na praia. A vítima e sua namorada foram então seguidas pela orla.
No momento em que surgiu a oportunidade, Lisboa tentou efetuar os disparos, mas a arma falhou. Diante do insucesso, os suspeitos retornaram ao Complexo do Alemão.
No dia seguinte, conforme relato de Juan, Adriana demonstrou revolta com o fracasso da ação, mas decidiu dar continuidade ao plano.
Já no dia 18 de fevereiro, Adriana voltou a entrar em contato com Raí, informando que Paulinho iria a uma academia de luta no bairro de São Francisco. Ela teria repassado o endereço do local e as características do veículo utilizado pela vítima.
Juan e Lisboa foram até o endereço, identificaram o carro e passaram a monitorar. Em determinado momento, viram Paulinho entrando no veículo pelo lado do passageiro, o que teria confirmado sua identidade.
O carro foi seguido até Icaraí. Quando o veículo parou em um sinal de trânsito, Juan emparelhou a motocicleta, momento em que Lisboa efetuou os disparos. Após o ataque, a dupla fugiu em direção ao Rio de Janeiro.
Juan afirmou ainda que Adriana teria orientado os executores a subtrair pertences da vítima para simular um assalto. No entanto, segundo ele, não houve tempo para a encenação, e os envolvidos optaram pela fuga imediata.
Após o crime, os suspeitos teriam descoberto, por meio de pesquisas na internet, que Paulinho era, na verdade, irmão de Adriana e uma pessoa conhecida. Segundo Juan, a revelação gerou revolta entre os executores.
Ele declarou que, após alguns dias, Adriana bloqueou os envolvidos no WhatsApp e não efetuou o pagamento prometido. Questionado sobre valores recebidos, afirmou que Raí teria recebido R$ 10 mil, sendo que o restante seria pago após a execução.
Juan disse ainda que chegou a cogitar denunciar Adriana e apontou que a motivação do crime seria financeira, possivelmente relacionada a interesses da mandante em relação à vítima.
Submetido a reconhecimento fotográfico, Juan afirmou ter identificado todos os envolvidos, incluindo Adriana, apontada por ele como mandante do crime e irmã da vítima. Ele também declarou possuir o contato telefônico de Adriana, cujo perfil no WhatsApp teria uma foto dela ao lado do irmão.
Por fim, Juan relatou que as conversas armazenadas em seu celular foram apagadas, mas manifestou interesse em recuperá-las, com o objetivo de que sejam analisadas pelas autoridades e possam comprovar as mensagens atribuídas a Adriana nas tratativas com Raí.
Ao ser presa, Adriana disse que só falaria na presença de seu advogado e não prestou depoimento na delegacia. Hoje, ela passou por audiência de custódia na Justiça, que decidiu que ela contnuar presa. Até o momento não se sabe se ela já se pronunciou sobre o caso. O processo está sob sigilo.,