Presa nesta semana, a mulher apontada há mais de duas décadas como uma das responsáveis pelas finanças do traficante Fernandinho Beira-Mar voltou a aparecer em investigações relacionadas à estrutura do Comando Vermelho.
Shirley de Figueiredo Ângelo, conhecida como Manequim, já havia sido citada em uma investigação desencadeada a partir da megaoperação realizada no Complexo do Alemão, em outubro de 2010.
Na ocasião, uma pasta foi apreendida contendo diversos documentos, entre eles manuscritos que, segundo a investigação, teriam sido enviados por um detento. A apreensão deu origem a um inquérito policial e colocou Manequim novamente no radar das autoridades.
Shirley e seu filho, Maicon, também apontado como envolvido com o tráfico de drogas, chegaram a alegar a existência de coação ilegal. A defesa sustentava que os elementos reunidos no inquérito não permitiam determinar com segurança o local exato onde a pasta havia sido encontrada. A partir disso, foram levantadas suspeitas de possíveis irregularidades na obtenção das provas, entre elas uma eventual violação de domicílio.
As investigações, contudo, prosseguiram. Como parte do processo tramita sob sigilo, não foi possível obter acesso a todos os detalhes e elementos reunidos pelas autoridades.
A atuação no tráfico
Segundo as investigações, Manequim exerceria uma função estratégica na estrutura criminosa: seria responsável pela distribuição de entorpecentes no estado do Rio de Janeiro e também em outros estados brasileiros, incluindo a região Nordeste.
Ainda de acordo com os investigadores, Shirley mantinha contatos regulares com integrantes da organização para tratar de questões relacionadas à comercialização das drogas, incluindo preços, logística e formas de distribuição.
As investigações também apontaram uma ligação direta de Manequim com Marcelo Fernando de Sá Costa, filho de Beira-Mar, que, segundo os autos, comandaria uma organização criminosa envolvida na aquisição de drogas e armamentos em países vizinhos, além da negociação do transporte, pagamento e comercialização desses materiais no Brasil.
Nesse esquema aparecem ainda dois nomes próximos de Shirley: Marcos José Monteiro, o Periquito, seu marido, e Maicon, seu filho.
Havia registros, segundo a investigação, da participação de Manequim na operacionalização da venda de entorpecentes na comunidade Parque das Missões, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ela também teria atuado como elo entre o marido e outros integrantes da organização.
A relação familiar, segundo os elementos reunidos no inquérito, também se misturava à própria dinâmica criminosa. Shirley mantinha contato frequente com o marido e o filho, inclusive por meio de visitas aos dois no sistema prisional de Bangu.
O passado ligado a Beira-Mar
A trajetória de Manequim no tráfico, porém, é muito anterior à prisão desta semana.
Depois da captura de Fernandinho Beira-Mar na Colômbia, em 2001, Shirley foi identificada pela Polícia Federal como uma das responsáveis pela administração financeira da organização criminosa comandada pelo traficante.
O nome dela também aparece no relatório final da CPI do Narcotráfico da Câmara dos Deputados, reforçando que sua atuação já havia chamado a atenção das autoridades federais há mais de 20 anos.
Seu marido, Marcos José Monteiro, o Periquito, também foi alvo de investigações relacionadas à estrutura de Beira-Mar. Ele teria sido apontado como participante de negociações envolvendo a compra de drogas e armas em países vizinhos, além do transporte e da comercialização desses materiais no Brasil.
Os dois chegaram a ser sócios de uma empresa que, segundo as investigações, teria sido utilizada para transportar drogas dentro do estado do Rio de Janeiro e também para outros estados brasileiros.
A prisão
Manequim foi presa por policiais civis da 28ª DP (Praça Seca) na Rodovia Presidente Dutra, na altura de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
A captura ocorre sete meses depois de policiais da mesma unidade terem participado da prisão de outro integrante apontado como importante peça da organização criminosa ligada a Beira-Mar, em Cabrobó, Pernambuco.
Capturado em fevereiro deste ano, o criminoso era apontado pelas investigações como braço direito de Beira-Mar e como um dos responsáveis pela aquisição e distribuição de grandes carregamentos de drogas destinados ao Comando Vermelho.
Contra Shirley foi cumprido mandado de prisão expedido pela Justiça Federal. Ela é investigada pelos crimes de associação para o tráfico de drogas e colaboração com organização criminosa.