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Operação Contenção começou a ser desenhada há mais de 12 anos com investigação que mapeou o Comando Vermelho. VEJA O QUE SE DESCOBRIU ATÉ ENTÃO

Relatório da Justiça aponta que as circunstâncias reveladas na recente Operação Contenção, deflagrada contra o Comando Vermelho (CV), se arrastam há muitos anos e já eram identificadas pelas forças de segurança em investigações iniciadas mais de uma década antes.O

O auge da Operação Contenção foi deflagrado em 28 de outubro de 2025 pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro com o objetivo de conter o tráfico de drogas e o avanço do Comando Vermelho nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio. A megaoperação foi motivada pelo histórico de violência e pelo poder de fogo da facção, considerado uma ameaça à segurança da população fluminense e dos próprios agentes de segurança pública.

O relatório mostra, porém, que a estrutura criminosa identificada durante as investigações não surgiu recentemente.

A investigação que deu origem a parte das apurações começou em 2014, nos morros do Juramento e Juramentinho. Naquele período, as duas comunidades eram dominadas pelo Comando Vermelho.

Em janeiro de 2015, houve uma invasão da facção rival Amigos dos Amigos (ADA), e o Morro do Juramento acabou sendo tomado pelo grupo criminoso.

A investigação prosseguiu e, por meio principalmente de monitoramentos telefônicos, a polícia constatou que a quadrilha que atuava no Juramento representava uma questão muito maior. As interceptações permitiram identificar uma comunicação entre integrantes de diversas comunidades dominadas pelo Comando Vermelho.

Por meio do aplicativo BBM, eram identificadas conversas entre criminosos do Juramento, Juramentinho, Complexo do Alemão, Complexo do Chapadão e outras favelas.

Havia grupos formados por criminosos de determinadas comunidades que mantinham comunicação entre si. Nas mensagens monitoradas, foram identificadas conversas relacionadas à compra e comercialização de drogas, armas, fuzis e granadas, muitas vezes em grandes quantidades.

A partir desse material, os investigadores identificaram vários núcleos dentro da organização criminosa e conseguiram compreender, de forma mais ampla, como funcionava a estrutura do Comando Vermelho.

A investigação permitiu identificar os chamados “matutos” e lideranças da facção, além de um outro núcleo formado por integrantes que atuavam no interior dos presídios, principalmente na Penitenciária Gabriel Ferreira de Castilho, conhecida como Bangu III.

O comando dentro dos presídios

Uma das principais figuras apontadas como responsável pela atuação da facção dentro das unidades prisionais era o traficante conhecido como “Criam”.

Segundo o relatório, Criam era um dos mentores da facção no interior dos presídios. Mesmo encarcerado, negociava a compra de armas, drogas e munições e direcionava parte do lucro obtido com a venda de entorpecentes, principalmente na Baixada Fluminense, para o traficante Elias Maluco, já falecido e que passou anos preso em penitenciárias federais.

A investigação também identificou lideranças que estavam em liberdade. Entre elas estavam “Fu da Mineira” e “Claudinho da Mineira”, que se encontravam escondidos no Complexo do Chapadão, juntamente com “Binho”.

Segundo o relatório, eram eles que tomavam grandes decisões relacionadas ao funcionamento do tráfico. Entre essas decisões estavam situações envolvendo pontos de venda de drogas que funcionavam sem autorização.

Em uma das conversas monitoradas, Fu e Claudinho afirmaram que seguiam as diretrizes de Marcinho VP.

Também foram monitoradas mensagens de uma das lideranças da época no Complexo do Alemão, conhecida como “Orelha”. Em uma das conversas, Orelha falava com pessoas que reverenciavam Marcinho VP. Em determinado momento, uma delas chegou a falar sobre a possibilidade de soltar fogos em homenagem ao traficante no dia de seu aniversário.

O interlocutor chegou a errar o mês do aniversário de Marcinho VP, mas posteriormente reconheceu o erro e informou a data correta.

A investigação também chamou a atenção de um policial que integrava a inteligência do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Ele compareceu a uma delegacia para obter mais informações sobre a investigação e solicitou, por meio de e-mail, esclarecimentos sobre como Marcinho VP, então preso em um presídio federal, poderia se comunicar com o mundo exterior.

Segundo as informações reunidas na investigação, Marcinho VP não estava submetido ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) e, durante todo o período investigado, recebia visitas normalmente, todas elas cadastradas nos autos.

As conversas com advogados eram monitoradas, mas as visitas não.

O relatório registra que essa circunstância era considerada relevante para explicar como integrantes presos em unidades federais poderiam manter comunicação com pessoas do lado de fora do sistema penitenciário.

Assim como Marcinho VP, outros integrantes presos em presídios federais recebiam parcelas dos lucros provenientes da venda de drogas.

Centenas de conversas sobre drogas e armas

As investigações identificaram centenas de conversas relacionadas à comercialização de drogas.

Como os criminosos sabiam que as mensagens poderiam estar sendo monitoradas, em diversas ocasiões fotografavam os produtos que estavam sendo comercializados e enviavam as imagens durante as conversas.

A facção possuía diversos fornecedores de drogas. Entre os nomes ou apelidos identificados na investigação estavam “CK”, “FP”, “Zangado”, “Cocão” e outros.

O relatório reunia uma grande quantidade de imagens obtidas durante a investigação.

A partir das conversas e demais elementos reunidos, os investigadores apontaram que Marcinho VP era responsável por designar lideranças para atuar nas comunidades.

Uma das conversas monitoradas tratava inclusive de “Pezão”, apontado atualmente como chefe do tráfico no Complexo do Alemão. Segundo o diálogo, até Pezão levaria um “esporro” de Marcinho VP.

Pezão está foragido desde a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010. Há registros de informações segundo as quais ele teria permanecido durante determinado período no Paraguai.

Fu, Claudinho e Binho foram posteriormente presos em uma casa, em uma circunstância que, segundo a investigação, comprovou que eles exerciam funções de liderança e mantinham contato com Marcinho VP.

O relatório aponta que, caso Marcinho VP desse uma ordem, ela deveria ser cumprida.

As interceptações registraram diversas mensagens nas quais criminosos buscavam autorização para abrir ou fechar pontos de venda de drogas, solucionar problemas e tomar outras decisões relacionadas ao funcionamento da facção.

A investigação foi baseada nas interceptações telefônicas e em outros elementos obtidos durante as apurações. O documento destaca que, embora Marcinho VP não tivesse acesso a telefone, as visitas aos presídios eram apontadas como o meio pelo qual informações poderiam chegar até ele ou sair das unidades prisionais.

Marcinho VP e Elias Maluco no topo da estrutura

De acordo com o relatório, Marcinho VP estava no topo da pirâmide do Comando Vermelho ao lado do já falecido Elias Maluco.

A estrutura identificada pelos investigadores apontava uma divisão de funções entre as lideranças.

Marcinho VP passaria ordens para “Claudinho da Mineira” e “Fu da Mineira”, enquanto Elias Maluco passaria ordens para “Criam”, que estava preso em Bangu III.

O relatório sustenta que a atuação de Marcinho VP não se limitava a uma única comunidade.

Mesmo preso, ele continuaria exercendo influência sobre o Complexo do Alemão, o Complexo do Chapadão e sobre a própria facção como um todo.

As interceptações reunidas na investigação registravam diversas referências a Marcinho VP como liderança do Comando Vermelho.

Também foram encontradas fotografias de pistolas cujas empunhaduras apresentavam a inscrição “MPV”, além de centenas de alusões à liderança de Marcinho VP dentro da organização criminosa.

As conversas registravam ainda comemorações e reverenciamentos em relação ao traficante, inclusive pedidos pela sua liberdade.

Dentro da facção, segundo o relatório, os criminosos utilizavam com frequência abreviações para se referir aos integrantes. Marcinho era conhecido principalmente como “MPV”.

Em outro diálogo, “Claudinho” afirmou que já havia recebido um “toque lá de cima” determinando que os roubos de cargas na região fossem reduzidos. Caso algum roubo fosse realizado, a orientação era de que não atrapalhasse as reuniões.

Segundo a investigação, VP e Elias Maluco colocaram Fu e Claudinho para responder em nome deles do lado de fora do sistema prisional, enquanto Marcinho VP continuava transmitindo ordens.

A atuação atribuída a Marcinho VP, portanto, não se restringia a uma comunidade específica. Os investigadores registraram interceptações nas quais diversos traficantes faziam referência a ordens que receberiam da liderança.

O relatório aponta que Marcinho era considerado a liderança máxima da facção e que sua influência permanecia ativa apesar da prisão.

Criam mantinha poder mesmo preso

O traficante conhecido como “Criam” também aparece no relatório como uma figura central na estrutura do Comando Vermelho dentro do sistema penitenciário.

Mesmo preso em Bangu III, Criam teria mantido poder suficiente para determinar até mesmo quais presos poderiam permanecer na mesma cela que ele.

Um dos exemplos citados no documento é o denunciado Eduardo Silva de Souza, conhecido como “Duduzão”, irmão de “Orelha”.

Segundo a investigação, Criam era considerado “os olhos” de Elias Maluco no Rio de Janeiro.

Apesar de estar preso, Criam contava com pessoas do lado de fora que atuavam para ele. Essas pessoas, segundo o relatório, inclusive destinavam recursos aos seus familiares.

O documento também registra a dificuldade de obtenção de testemunhos formais contra integrantes da organização criminosa.

Segundo o relatório, mesmo quando havia pessoas que poderiam testemunhar sobre os crimes e sobre a estrutura da facção, essas testemunhas dificilmente aceitariam formalizar seus depoimentos em sede policial ou, principalmente, confirmá-los judicialmente na presença dos réus.

O motivo apontado era o temor de que elas próprias ou seus familiares fossem mortos.

O relatório afirma que esse temor constituía uma realidade dentro das comunidades dominadas pela organização criminosa.

Comissão de presos seria núcleo decisório do CV

Com a Operação Contenção, segundo o documento, o Setor de Inteligência da Polícia Civil apurou que o principal organismo decisório do Comando Vermelho no Estado do Rio de Janeiro seria a chamada comissão de presos da Penitenciária Gabriel Ferreira de Castilho.

Segundo a investigação, esse grupo exerceria uma função central na definição das diretrizes operacionais e das ações de retaliação da organização criminosa.

O relatório aponta que a comissão funcionaria como um núcleo responsável por deliberar sobre questões estratégicas da facção, inclusive decisões relacionadas às respostas do grupo às ações de repressão estatal.

Criam integraria esse núcleo de comando e atuaria de forma ativa nas deliberações que aprovavam ações criminosas da organização.

Segundo o documento, ele também exerceria influência direta na condução das respostas operacionais da facção diante das ações das forças de segurança.

Essa informação seria corroborada por informações constantes da transcrição da ficha disciplinar de Criam.

De acordo com o documento, após seu retorno ao sistema penitenciário fluminense, a custódia do preso foi mantida entre a Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino, conhecida como Bangu I, e a Penitenciária Gabriel Ferreira de Castilho, Bangu III.

A investigação concluiu que os crimes praticados dentro das unidades prisionais e a atuação de integrantes encarcerados na estrutura da facção não constituíam um fenômeno recente, mas se repetiam ao longo da história.

O relatório registra que, anos antes, já havia investigações apontando o Complexo do Chapadão e o Complexo do Alemão como algumas das comunidades mais perigosas do Rio de Janeiro.

Liderança continuava sendo exercida de dentro da cadeia

As conclusões reunidas no documento reforçam a avaliação dos investigadores de que Marcinho VP continuava exercendo influência sobre o Comando Vermelho mesmo estando preso.

Segundo o relatório, Marcinho VP ditava as diretrizes sobre aquilo que a facção faria ou deixaria de fazer.

Além das interceptações, foram encontradas fotografias de armamentos tiradas pelos próprios traficantes, algumas delas com a sigla “MPV”.

Também foram identificadas diversas comemorações e manifestações de reverência a Marcinho VP, além de mensagens pedindo sua liberdade.

O relatório sustenta que VP não tinha acesso a telefone e que sua atuação ocorria principalmente por meio da estrutura de comunicação estabelecida através de visitantes.

Ainda assim, segundo a investigação, isso não impediu que ele permanecesse como liderança do Comando Vermelho.

O documento afirma que essa circunstância ficou evidenciada no material reunido no inquérito, segundo o qual a única forma de informações entrarem ou saírem do presídio era por meio das pessoas autorizadas a realizar visitas.

As investigações também apontaram que Marcinho VP e Elias Maluco ocupavam o topo da estrutura da facção.

VP teria colocado Fu e Claudinho para responder por ele do lado de fora, enquanto Elias Maluco mantinha sua ligação com Criam dentro do sistema penitenciário.

Em uma das conversas, um integrante da facção mencionou que havia recebido uma determinação “lá de cima” para reduzir roubos de cargas na região. A orientação também estabelecia que eventuais ações não poderiam atrapalhar reuniões.

O conjunto de interceptações, fotografias, registros prisionais e demais elementos reunidos ao longo das investigações levou os investigadores a concluir que a estrutura de comando do Comando Vermelho não dependia da liberdade física de suas principais lideranças.

Investigação de 2021 já apontava comunicação indevida a partir dos presídios

O relatório também recupera uma investigação realizada em 2021, que apurou um esquema de transmissão de comunicações indevidas por lideranças do Comando Vermelho que estavam custodiadas na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná.

Segundo a investigação, essas lideranças conseguiam transmitir comunicações para indivíduos que estavam dentro e fora do sistema prisional.

Até o momento, a Operação Contenção foi responsável por 375 suspeitos capturados e outros 138 criminosos neutralizados em confronto. Foram apreendidas cerca de 482 armas, sendo 191 fuzis, e mais de 51 mil munições.

SAIBA MAIS: Apelação Criminal

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