A Justiça do Rio de Janeiro decretou a prisão preventiva de Monalliza Neves Escafura, apontada pelo Ministério Público como a principal líder do clã Escafura após a morte de seu pai, José Caruzzo Escafura, o “Piruinha”, um dos últimos integrantes da chamada “velha cúpula” do jogo do bicho no estado. Ela está sendo acusada de lavagem de dinheiro.
A denúncia descreve uma organização criminosa altamente estruturada, responsável por administrar dezenas de pontos clandestinos de jogos de azar, movimentar mais de meio milhão de reais por meio de laranjas, expandir a atividade para novas comunidades e manter um rígido controle financeiro sobre toda a operação.
Segundo a investigação, Monalliza assumiu definitivamente o comando da organização após o falecimento de Piruinha, em 22 de janeiro de 2025. Antes disso, já atuava subordinada ao pai, participando diretamente da administração dos negócios ilícitos do clã. Com a morte do contraventor, passou a comandar de forma autônoma os pontos clandestinos de exploração de jogos de azar e todas as demais atividades criminosas da organização.
Contabilidade clandestina movimentou mais de meio milhão de reais
Um dos principais elementos da investigação foi a perícia realizada em um tablet Samsung SM-P615 e em um iPhone 14 Pro Max apreendidos com Monalliza.
Nos aparelhos, os investigadores encontraram planilhas de contabilidade paralela, listas de pontos clandestinos, recibos de apostas, material promocional das atividades ilegais e comprovantes bancários que demonstram uma movimentação financeira superior a R$ 500 mil proveniente da exploração dos jogos de azar.
Segundo o Ministério Público, a ocultação da origem desse dinheiro era feita por meio de uma sofisticada estrutura de lavagem de capitais, utilizando diversas pessoas interpostas.
Entre os laranjas utilizados pela organização, a investigação destaca a companheira de Monalliza, Thamires apontada como uma das principais intermediárias para o recebimento de depósitos e movimentação dos recursos ilícitos.
Chefe utilizava codinomes para comandar a quadrilha
Os diálogos extraídos dos aparelhos eletrônicos revelam que Monalliza comandava pessoalmente todas as operações da organização.
Segundo a denúncia, ela utilizava o pseudônimo “MariaTereza” e também o nome de usuário “José” para transmitir ordens aos subordinados, cobrar resultados financeiros, negociar prazos para repasses de dinheiro e acompanhar diariamente o funcionamento dos pontos clandestinos.
As conversas demonstram que nenhuma decisão importante era tomada sem sua autorização.
Gerente recolhia dinheiro, pagava funcionários e prestava contas diretamente à chefe
Apontado como um dos homens de maior confiança de Monalliza, Renato exercia a função de gerente operacional da organização criminosa.
Entre outubro de 2023 e março de 2024, ele era responsável por administrar integralmente os pontos clandestinos explorados pelo grupo, recolher diariamente os valores obtidos com os jogos ilegais, controlar o pagamento dos funcionários, supervisionar a rotina dos estabelecimentos e solucionar problemas operacionais.
As mensagens analisadas mostram que Renato também comunicava à chefe dificuldades provocadas por ações policiais e obras próximas aos pontos clandestinos, além de organizar a logística dos repasses financeiros.
Segundo o Ministério Público, centenas de milhares de reais foram encaminhados para Monalliza, normalmente em espécie ou por depósitos realizados em contas de laranjas indicados pela líder da organização, principalmente em nome de Thamires.
Os investigadores destacam ainda que Renato demonstrava absoluta naturalidade ao tratar da atividade criminosa, discutindo cobranças financeiras aos operadores dos pontos, logística de entrega de dinheiro e mecanismos utilizados para ocultar os recursos, evidenciando que o crime havia se tornado seu principal meio de vida.
Organização abriu novo cassino clandestino na Rocinha
Outro núcleo da organização era comandado por Luiz Fernando responsável pela expansão dos pontos clandestinos.
De acordo com a denúncia, entre maio e junho de 2024 ele recebeu ordens diretas de Monalliza para implantar um novo ponto de exploração de jogos de azar na Rocinha.
O trabalho envolveu praticamente toda a estruturação do empreendimento ilegal.
Segundo as investigações, Luiz Fernando assumiu o imóvel alugado, contratou eletricista, supervisionou toda a reforma, providenciou a instalação das máquinas caça-níqueis e equipamentos de bingo, adquiriu móveis, recrutou funcionários e ainda buscou clientes para o novo estabelecimento.
Toda a operação foi financiada com recursos enviados por Monalliza por intermédio de terceiros, incluindo sua companheira, Thamires.
As conversas interceptadas mostram que a própria chefe decidia quais equipamentos seriam instalados, quais materiais deveriam ser comprados e acompanhava o andamento da implantação do novo ponto clandestino.
Grupo cobrava taxa mensal de R$ 2 mil para explorar máquinas
Outro integrante identificado pela investigação foi outro Luiz Fernando que exercia funções de cobrador e intermediador da organização.
Segundo o Ministério Público, ele era encarregado de negociar a abertura de novos pontos clandestinos em áreas vizinhas às dominadas pelo grupo, adquirir imóveis comerciais para utilização da quadrilha, fiscalizar o funcionamento dos estabelecimentos ilegais e cobrar uma taxa mensal de R$ 2 mil dos responsáveis pela exploração de cada ponto de jogo.
As mensagens mostram que todas essas atividades eram executadas sob ordens diretas de Monalliza, que também determinava a expansão da atividade criminosa para territórios fronteiriços aos já controlados pelo clã.
Organização espalhava pontos clandestinos por diversas comunidades
A denúncia afirma que a estrutura criminosa comandada por Monalliza mantinha pontos clandestinos de jogos de azar em diversas regiões da capital fluminense.
Entre os locais citados estão Vidigal, Rocinha, Piedade, Méier, Lins, Engenho de Dentro, Madureira, Cascadura, Quintino, Vaz Lobo, Parada de Lucas e Vigário Geral.
Para os investigadores, a presença simultânea em tantas comunidades demonstra a dimensão da organização criminosa e sua capacidade operacional para administrar diversos estabelecimentos clandestinos ao mesmo tempo.
Monalliza permaneceu foragida por dois anos
Outro ponto destacado na denúncia é que Monalliza permaneceu foragida da Justiça por aproximadamente dois anos após a deflagração da Operação Louvre, realizada em 24 de maio de 2022.
Ela somente foi presa em 19 de junho de 2024, em cumprimento a um mandado de prisão preventiva expedido em outra ação penal, na qual responde por crimes de extorsão e lavagem de dinheiro.
Mesmo após ser investigada e presa anteriormente, o Ministério Público sustenta que ela não interrompeu as atividades criminosas e continuou administrando a organização.
Justiça aponta risco de continuidade das atividades criminosas
Ao pedir as prisões preventivas, o Ministério Público sustentou que a organização apresentava alto grau de profissionalização, divisão de funções entre seus integrantes e sofisticados mecanismos de lavagem de dinheiro.
No caso de Renato Marçano Cavalcante, a denúncia afirma que sua liberdade representaria risco concreto à instrução criminal, diante da posição estratégica que ocupava na quadrilha, do acesso privilegiado aos demais integrantes e da possibilidade de interferir na produção de provas e influenciar testemunhas.
Para os investigadores, a permanência da estrutura criminosa ao longo de décadas, aliada ao elevado volume financeiro movimentado e à expansão constante dos pontos clandestinos, demonstra que o grupo transformou a exploração ilegal de jogos de azar em uma atividade empresarial voltada à obtenção permanente de lucro ilícito.