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Granada, sangue e um vulto armado: policiais da Core revelam bastidores da operação do Jacarezinho (CV). Confronto terminou com 28 mortos

Antes mesmo do sol nascer completamente sobre o Jacarezinho, o som dos helicópteros já cobria a comunidade. Eram pouco mais de cinco horas da manhã quando o barulho das aeronaves se misturou ao estampido dos tiros. O que viria nas horas seguintes entraria para a história como uma das operações mais letais já realizadas pela polícia no Rio de Janeiro que terminou com 28 mortos.

Cinco anos depois, os bastidores daquela manhã de 6 de maio de 2021 voltaram a ser reconstruídos em detalhes na Justiça. Os policiais civis Douglas Siqueira e Anderson Silveira Pereira, ambos da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), prestaram depoimentos minuciosos sobre a sequência de acontecimentos que terminou na morte de Omar dentro de uma residência da comunidade. Os dois irão a júri popular pela morte de um suspeito.

As declarações descrevem uma operação em clima de guerra, com tiroteios ininterruptos, policiais feridos, um agente morto, disparos partindo de diferentes direções e a tensão permanente de entrar em vielas estreitas sem saber de onde viria o próximo ataque.

“Tinha tiro por toda a favela”

Comissário da Polícia Civil e integrante da Core há 13 anos, Anderson Silveira Pereira contou que participou de mais de mil operações semelhantes, mas classificou o Jacarezinho como um dos ambientes mais hostis que já enfrentou.

Segundo ele, os confrontos aconteciam praticamente em todos os setores da comunidade.

— Estava tendo tiroteio a todo momento por toda a favela. Parava um pouco e começava de novo. Era intenso — relatou.

Em determinado momento, as equipes receberam a notícia de que um policial havia sido baleado. Somente depois souberam que o colega havia morrido.

Mesmo assim, segundo Anderson, não houve qualquer movimento de vingança.

— Não surgiu nos grupos nenhuma conversa de retaliação. Ficamos sabendo da morte dele quando já estávamos socorrendo outro ferido.

Os policiais avançavam em progressão tática, cobrindo uns aos outros. O cenário era considerado extremamente perigoso. O terreno acidentado, os becos estreitos e a possibilidade de disparos vindos de lajes faziam com que cada deslocamento fosse feito lentamente.

O rastro de sangue

Em determinado momento da operação, Anderson encontrou a equipe comandada por Douglas Siqueira.

Os dois seguiam por um dos becos quando perceberam marcas de sangue espalhadas pelo chão.

As gotas se estendiam pela viela e continuavam escada acima.

— Pensamos: “Tem algum baleado que entrou aqui” — relatou Anderson.

Ao chegarem diante de uma porta preta, Douglas entrou primeiro. Uma mulher apareceu.

Segundo os policiais, ela confirmou que havia uma pessoa baleada dentro do imóvel.

Os agentes retiraram os moradores e iniciaram uma entrada tática.

Douglas seguia à frente.

Anderson vinha logo atrás, praticamente ombro a ombro, mas ligeiramente recuado, a uma distância de cerca de um braço.

O espaço era apertado.

— Era tudo muito pequeno. Um barraco. A cozinha já ficava colada no quarto — descreveu.

O instante decisivo

Segundo Anderson, eles ainda não haviam conseguido visualizar ninguém.

A única pista era o sangue.

Douglas avançou em direção a um dos quartos enquanto Anderson permanecia na posição de cobertura, voltado para a cozinha.

Foi então que ouviu um barulho.

Só mais tarde identificaria aquele som como sendo o de uma granada.

— Quando ouvi, virei automaticamente.

Segundo o policial, naquele instante viu a granada rolando na direção dos agentes.

E viu também um vulto.

— Só vi um vulto segurando uma arma.

Era Omar.

Anderson contou que não tinha visão completa do cômodo porque Douglas estava na sua frente.

— Vi apenas o vulto e o disparo.

Segundo ele, tudo aconteceu em frações de segundo.

Douglas atirou uma única vez.

Omar caiu.

“Ele ainda se debatia”

Os policiais afirmam que Omar ainda estava vivo.

Segundo Anderson, ele continuava gesticulando.

A pistola teria caído no chão e estava ao alcance da mão do suspeito.

Os agentes então recolheram a arma.

Mais tarde, segundo eles, verificaram que a pistola possuía um kit rajada.

Ao mesmo tempo, chamaram o esquadrão antibombas para recolher o explosivo.

Mesmo em meio ao confronto externo, os policiais decidiram socorrer Omar imediatamente.

— Era melhor levar até o blindado do que esperar o socorro chegar.

Sem maca e sem espaço para manobras, os agentes improvisaram.

Pegaram um lençol ou cobertor e suspenderam o ferido.

As escadas estreitas dificultavam a remoção.

— Era da forma que dava. Não arrastamos pelo chão.

Segundo Anderson, a descida foi lenta porque o tiroteio continuava.

— Parava um pouco e voltava. A progressão até o blindado foi difícil.

O caveirão estava do lado de fora, já que era impossível sua entrada na viela.

“Jacarezinho foi a única favela onde tomei tiro”

Ao longo do depoimento, Anderson afirmou que perdeu dois amigos em operações no Jacarezinho e revelou que aquela foi a única comunidade em que acabou atingido por disparos ao longo da carreira.

— É uma das piores.

Ele contou que já participou de mais de mil operações e continua lotado na Core.

A outra versão

Dentro da residência, porém, os moradores contam uma história completamente diferente.

Segundo eles, Omar havia chegado cerca de meia hora antes.

Ferido no pé, sangrando muito, sem camisa e vestindo apenas uma bermuda tactel, ele pedia ajuda.

O sangue espalhou-se pela escada, pela sala e pelo quarto da criança.

Moradores dizem que ele recebeu um pano para estancar o ferimento e se deitou em uma cama.

Ninguém afirma ter visto arma.

Ninguém afirma ter visto granada.

Todos descrevem um homem desesperado e debilitado.

“Cadê a arma?”

Os moradores relatam que ouviram os passos dos policiais subindo a escada.

Flávia, dona da casa, teria descido para avisar:

— Tem um menino baleado aqui, mas tem criança em casa.

Segundo ela, o policial passou por ela e entrou.

Seu marido gritou:

— Morador, estou com criança!

A resposta teria sido:

— Sai, sai.

Na sequência, testemunhas afirmam ter ouvido o policial gritar:

— Cadê a arma? Cadê a arma?

E logo depois veio um único disparo.

Os moradores afirmam que não ouviram resposta.

Nenhum deles diz ter visto Omar armado.

Corpos espalhados pela rua

Retirados da residência, os moradores foram levados para a casa de uma vizinha.

Da janela, relatam ter visto uma cena que jamais esqueceram.

Corpos espalhados pelo chão.

Cinco.

Seis.

Alguns de barriga para cima.

Outros de bruços.

Segundo as testemunhas, os cadáveres eram retirados de casas próximas.

Horas depois, Omar também seria levado.

Guilherme, amigo da família, identificado com mandado de prisão em aberto, acabou sendo separado dos demais.

Segundo as testemunhas, ele foi espancado com socos, chutes e coronhadas.

Em seguida, teria sido obrigado a ajudar a carregar o corpo.

A imagem registrada por celular mostra dois policiais retirando Omar enrolado em um tapete.

A pergunta que continua sem resposta

Cinco anos depois, o que aconteceu dentro daquele pequeno quarto continua cercado de versões incompatíveis.

Os policiais descrevem um cenário de combate, uma granada rolando pelo chão, um vulto armado e uma reação em legítima defesa.

Os moradores descrevem um homem baleado no pé, escondido em uma cama, desarmado e pedindo socorro.

Entre becos ensanguentados, granadas, helicópteros e corpos espalhados pelas vielas do Jacarezinho, uma pergunta continua sem resposta:

o que realmente aconteceu nos segundos decisivos dentro daquele quarto?

A resposta agora será dada pelo Tribunal do Júri..

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