m dos presos que protagonizaram a cinematográfica fuga do presídio Bangu 8 no último fim de semana afirma ter sido espancado por policiais depois de já estar rendido. O colombiano Juan Esteban Avendaño Perez relatou à Justiça que sofreu pisões, coronhadas, chutes e tapas durante a recaptura e ainda afirmou que um policial efetuou um disparo à queima-roupa próximo de sua orelha direita.
A denúncia consta da ata da audiência de custódia à qual a reportagem teve acesso. Segundo o relato do preso, as agressões aconteceram no próprio local onde ele foi capturado.
O colombiano afirmou que recebeu golpes na costela esquerda e no rosto. Disse ainda que os policiais apertaram seus pulsos com tanta força que ele chegou a sangrar. Segundo Juan Esteban, depois de ser dominado, foi obrigado a caminhar de joelhos até a viatura.
O preso apontou dois policiais como supostos responsáveis pelas agressões.
Segundo sua descrição, um deles seria baixo, pardo e de cabelos grisalhos e teria sido o responsável pelo disparo efetuado próximo de seu ouvido. O outro seria alto, forte e pardo.
Questionado sobre tatuagens, cicatrizes ou outras características que pudessem individualizar os agentes, o colombiano afirmou que não se recordava. Também disse não saber indicar testemunhas das supostas agressões.
Diante da gravidade do relato, a Justiça determinou o encaminhamento de cópias dos autos à Promotoria de Justiça que atua junto à Auditoria Militar e à Corregedoria da Polícia Militar, para as providências cabíveis.
Fuga com policial penal rendido e espancado
A denúncia de violência ocorreu depois de uma fuga que envolveu dois presos, um policial penal rendido, danos à estrutura de Bangu 8 e uma corda artesanal usada para superar o muro da unidade.
De acordo com os autos, por volta das 12h30 de 26 de setembro de 2026, Gerel Lusiano Palm, holandês, e Juan Esteban Avendaño Perez, que declararam não pertencer a nenhuma facção, informaram que iriam buscar gelo.
Ao se aproximarem da guarita, os dois teriam rendido o policial penal L.R.B., que estava em serviço de RAS na unidade.
Segundo o registro, os presos utilizaram violência física contra o servidor, inclusive aplicando um golpe conhecido como “mata-leão”, deixando-o inconsciente.
Com o policial dominado, os internos passaram a destruir estruturas do estabelecimento prisional. Para escapar, utilizaram uma “Tereza” — corda artesanal — para alcançar e transpor o muro de Bangu 8. Eles também danificaram o passadiço utilizado pelos policiais penais para a observação dos internos.
A fuga, porém, terminou com os dois recapturados por uma equipe externa da Secretaria de Polícia Penal.
Durante a ação de recaptura, houve intervenção dos agentes e um disparo de arma de fogo atingiu Gerel na região das nádegas.
Os dois presos foram encaminhados ao Hospital Hamilton Agostinho para atendimento médico e, posteriormente, conduzidos à delegacia juntamente com a corda artesanal utilizada na fuga.
Celulares encontrados dentro da cela
Depois da evasão, uma varredura foi realizada na cela A1A4, onde foram encontrados três aparelhos celulares.
Dois estavam em uma área comum da cela. Um terceiro aparelho, segundo o registro, estaria em posse de Gerel quando ele já se encontrava fora do presídio.
Os responsáveis pela comunicação dos fatos afirmaram não saber esclarecer de que maneira os celulares entraram na unidade prisional.
Holandês tem condenação de 20 anos e é investigado nos EUA
Apesar de ser considerado primário no Brasil, Gerel Lusiano Palm possui um extenso histórico criminal na Holanda.
Segundo os autos, ele foi condenado naquele país, em 2021, a 20 anos de prisão por tentativa de homicídio e porte ilegal de arma de fogo.
O holandês também é investigado por tráfico internacional de drogas nos Estados Unidos.
A decisão judicial registra que existem indícios de prática delituosa reiterada e aponta a possibilidade de manutenção da prisão cautelar com fundamento no artigo 310, § 5º, I, do Código de Processo Penal.
A situação ganhou ainda mais peso porque a fuga ocorreu poucos dias depois de uma decisão do Supremo Tribunal Federal relacionada ao pedido de extradição de Gerel.
Segundo consta dos autos, existe a possibilidade de que a tentativa de fuga esteja relacionada justamente ao objetivo de impedir ou frustrar o recambiamento do preso para seu país de origem.