Oito homens armados com fuzis cercaram o carro, arrancaram o motorista de aplicativo Luiz Henrique de dentro do veículo e o colocaram na mala de uma Fiat Toro. Dois anos depois, denúncia do MP revela testemunho, suposta ordem de Xandi e bilhete encontrado na prisão: “Missão cumprida como você mandou”
“NÃO É NADA COM VOCÊS RAPAZIADA, É COM ELE. AQUI É SEGURANÇA TROPA DO JUNINHO VARÃO.”
Foi assim, segundo uma testemunha, que homens armados anunciaram o sequestro de um motorista de aplicativo na noite de 4 de maio de 2024, na região da Rua do Valão, em Seropédica, na Baixada Fluminense.
Luiz Henrique Vieira da Silva estava dentro de seu carro quando dois veículos o cercaram.
De acordo com o depoimento prestado à polícia por Maycon dos Santos de Oliveira, aproximadamente oito homens saíram dos automóveis. Todos estavam armados com fuzis.
A testemunha estava jogando bola na rua quando presenciou a abordagem.
Os homens disseram que a ação não era contra as demais pessoas que estavam no local.
Era contra Luiz Henrique.
Depois do aviso, os criminosos foram até o carro da vítima, retiraram o motorista à força, amarraram seus pulsos com uma fita branca e o colocaram na mala de uma Fiat Toro branca.
Foi a última vez que Luiz Henrique foi visto.
O corpo nunca foi encontrado.
Mais de dois anos depois do crime, documentos de uma ação penal revelam detalhes da investigação conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
A acusação aponta Alexandre Silva de Almeida, o “Xandi”, como o homem que teria ordenado a execução.
E o caso envolve duas expressões que aparecem de forma marcante na investigação: “Tropa do Juninho Varão” e “Tropa do Cerol”.
“AQUI É SEGURANÇA TROPA DO JUNINHO VARÃO”
A frase atribuída aos sequestradores é um dos elementos mais fortes do depoimento da testemunha.
Maycon contou à polícia que os homens estavam mascarados e, por isso, não conseguiu reconhecer nenhum deles.
Mas conseguiu ouvir o que disseram.
“AQUI É SEGURANÇA TROPA DO JUNINHO VARÃO.”
A identificação feita pelos próprios criminosos passou a integrar a investigação.
Segundo a denúncia do Ministério Público, Xandi era apontado como uma das lideranças da organização miliciana que atuaria no Km 32, em Nova Iguaçu, Cabuçu e Seropédica, juntamente com “Juninho Varão” e outros integrantes.
A acusação sustenta que somente mediante ordem ou autorização das lideranças poderiam ocorrer execuções e homicídios praticados pela organização.
A referência a Varão, portanto, aparece em dois momentos distintos dos documentos: na fala dos homens durante o sequestro e na descrição, feita pelo Ministério Público, da estrutura de comando investigada.
UM DOS HOMENS FEZ UMA LIGAÇÃO
Embora não tenha conseguido reconhecer os sequestradores, Maycon relatou outro detalhe aos investigadores.
Durante a abordagem, um dos homens fez uma ligação telefônica.
A testemunha afirmou ter conseguido escutar o nome “Xandi” durante a conversa.
Essa informação foi incorporada à investigação como um dos elementos utilizados para sustentar a hipótese de que Alexandre Silva de Almeida teria participado do planejamento ou determinado a ação.
O Ministério Público afirma que Luiz Henrique teria sido executado por integrantes da chamada Tropa do Cerol, sob ordem de Xandi.
A motivação apontada pela acusação seria a suposta ligação da vítima com uma milícia rival, vinculada ao grupo de Luís Antônio da Silva Braga, o “Zinho”.
DEPOIS DO SEQUESTRO, O CARRO APARECEU QUEIMADO
Luiz Henrique desapareceu naquela noite.
Seu veículo, porém, reapareceu.
Foi encontrado posteriormente incendiado na Rua Jersei, no Jardim Guandu, em Comendador Soares.
Dentro do automóvel havia também um celular que havia sido queimado.
Para a investigação, a destruição do veículo e do aparelho reforçava a suspeita de que não se tratava de um simples desaparecimento.
O Ministério Público sustenta que Luiz Henrique foi morto depois de ser levado pelos criminosos.
O corpo, entretanto, nunca foi localizado.
A HIPÓTESE DO RIO GUANDU
A investigação levantou a possibilidade de que o cadáver tenha sido levado até o Rio Guandu.
Segundo a denúncia, existem fortes indícios de que o corpo tenha sido ocultado por integrantes da organização criminosa.
A acusação menciona ainda que a ocultação de cadáver faria parte de um modus operandi atribuído ao grupo investigado.
Sem o corpo, a investigação passou a depender de outros elementos para reconstruir o que aconteceu depois que Luiz Henrique foi colocado na mala da Fiat Toro.
E um deles apareceu dentro de uma prisão.
O BILHETE ENCONTRADO NA CELA DE XANDI
Alexandre Silva de Almeida estava custodiado no Presídio Bandeira Stampa, o Bangu 9, quando investigadores encontraram uma anotação manuscrita dentro de sua cela.
O conteúdo, segundo a denúncia, é direto:
“XANDI, TROPA DO CEROL ENCONTROU O UBER JÁ ERA. MISSÃO CUMPRIDA COMO VOCE MANDOU. CONFIRMADO O ARROMBADO ERA LUIS HENRIQUE”.
Para o Ministério Público, o bilhete reforça a hipótese de que Xandi teria ordenado a execução e que integrantes da Tropa do Cerol teriam cumprido a determinação.
A expressão “MISSÃO CUMPRIDA COMO VOCE MANDOU” é apontada pela acusação como indicativo de que havia uma ordem anterior atribuída ao acusado.
A mensagem também é utilizada pelo Ministério Público para sustentar que Xandi teria mantido capacidade de comando sobre integrantes da organização mesmo estando preso.
UMA EXECUÇÃO SEM CORPO
A reconstrução apresentada pela acusação começa na Rua do Valão.
Dois carros cercam o veículo de Luiz Henrique.
Oito homens armados com fuzis descem.
Eles anunciam que são da “Tropa do Juninho Varão”.
Retiram o motorista do carro.
Amarram seus pulsos.
Colocam-no na mala de uma Fiat Toro branca.
Um dos homens faz uma ligação.
A testemunha ouve o nome “Xandi”.
Os criminosos deixam o local.
Depois, o carro da vítima é encontrado queimado.
O celular também está destruído.
O corpo desaparece.
E, posteriormente, surge dentro da cela de Xandi uma mensagem dizendo que a Tropa do Cerol havia encontrado o Uber e que a “missão” estava cumprida conforme ele havia mandado.
É essa sequência de acontecimentos que sustenta a acusação apresentada pelo Ministério Público.
DISPUTA ENTRE MILÍCIAS
Segundo a denúncia, Luiz Henrique teria sido escolhido como alvo porque prestava serviços para uma organização criminosa rival.
A acusação aponta que a vítima estaria ligada ao grupo associado a Zinho, enquanto os responsáveis pelo crime seriam integrantes da estrutura miliciana atribuída a Xandi.
O homicídio, segundo o Ministério Público, teria sido praticado por motivo considerado torpe e mediante recurso que teria impossibilitado a defesa da vítima.
Luiz Henrique teria sido surpreendido por homens fortemente armados e não teve oportunidade de reagir.
Além do homicídio qualificado, Xandi foi denunciado por crimes relacionados ao sequestro, ocultação de cadáver e integração de milícia privada.
XANDI É APONTADO COMO LÍDER MESMO PRESO
Um dos pontos destacados pelo Ministério Público é justamente o fato de Xandi estar preso.
Para a acusação, a suposta ordem transmitida aos criminosos demonstraria que ele continuava exercendo influência sobre subordinados e teria capacidade de determinar ações criminosas mesmo dentro do sistema penitenciário.
A denúncia descreve o acusado como uma das lideranças da organização que teria atuação no Km 32, Cabuçu e Seropédica.
Nesse contexto, a investigação tenta estabelecer a cadeia de comando que teria começado com uma determinação e terminado com o desaparecimento de Luiz Henrique.
O PROCESSO
A investigação que deu origem à denúncia está relacionada ao Inquérito Policial nº 861-00566/2024, vinculado ao IP nº 048-01294/2024.
O procedimento investigativo foi posteriormente desmembrado.
Entre os elementos mencionados nos autos estão um laudo de comparação facial, o relatório final do inquérito policial e documentos apreendidos durante a investigação.
O Ministério Público ofereceu denúncia contra Alexandre Silva de Almeida.
A Justiça recebeu a denúncia em 12 de agosto de 2025 e, naquela ocasião, decretou a prisão preventiva do acusado.
Depois de citado, Xandi apresentou resposta à acusação e requereu a revogação ou o relaxamento da prisão preventiva.
A ação penal segue em andamento.
As acusações descritas na reportagem são aquelas apresentadas pelo Ministério Público e ainda serão submetidas ao contraditório e à apreciação da Justiça. Não há, portanto, condenação definitiva de Xandi pelos fatos narrados.
MAIS DE DOIS ANOS SEM RESPOSTA
Luiz Henrique desapareceu em uma noite de maio de 2024.
Mais de dois anos depois, a família continua sem o corpo para sepultar.
A investigação sustenta que ele foi sequestrado, levado para ser executado e teve o cadáver ocultado.
O carro foi queimado.
O celular foi destruído.
Uma testemunha afirma ter ouvido os sequestradores se identificarem como “Tropa do Juninho Varão”.
A mesma testemunha diz ter ouvido o nome Xandi durante uma ligação feita por um dos homens.
E, na prisão, investigadores encontraram uma anotação que termina com uma frase que resume, segundo a acusação, o que teria acontecido naquela noite:
“MISSÃO CUMPRIDA COMO VOCE MANDOU.”
O que ainda falta aparecer é justamente a principal peça dessa história: o corpo de Luiz Henrique Vieira da Silva.