O depoimento de uma criança de apenas 4 anos revelou detalhes assustadores sobre a morte da menina Myrella Freire Venceslau, de 12 anos, encontrada sem vida nos fundos de casa, enrolada em um lençol e coberta por folhas de bananeira, em Vilar dos Teles, São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
Segundo a investigação da Polícia Civil, o menino — irmão da vítima — contou a familiares que “a tia Bianca brigou com Mirella e bateu com o fogão na cabeça dela”. O relato, considerado espontâneo pelos investigadores, revelou como a adolescente teria sido assassinada dentro da residência após uma discussão.
A principal suspeita é Bianca Martins da Silva Oliveira, companheira da mãe da vítima, que teve a prisão temporária decretada pela Justiça por homicídio doloso.
O laudo de necropsia apontou que Myrella morreu em consequência de traumatismo craniano grave, com lesão no encéfalo e hemorragia intracraniana provocados por forte impacto na cabeça.
versão inicial falava em homem desconhecido
Logo após o crime, Bianca apresentou à polícia uma versão completamente diferente da que passou a surgir ao longo das investigações.
Ela afirmou que havia saído cedo para uma entrevista de emprego e que, ao retornar perto do meio-dia, encontrou o portão trancado e a casa revirada. Disse ainda que precisou pular o muro para entrar na residência.
Segundo Bianca, o menino de 4 anos contou naquele momento que um suposto homem desconhecido teria aparecido na casa. A criança teria descrito o suspeito como “muito negro”, usando blusa vermelha e short preto e azul, além de afirmar que “o tio” o colocou para dormir.
A mãe da menina, Vitória, inicialmente confirmou a versão apresentada pela companheira. As duas passaram a procurar Myrella até encontrarem o corpo da adolescente nos fundos do imóvel.
Mas a narrativa começou a desmoronar poucas horas depois.
adolescente contradisse versão da suspeita
Uma adolescente identificada apenas como J., citada pela própria mãe da vítima, foi ouvida na delegacia e apresentou informações que passaram a contradizer diretamente o depoimento de Bianca.
Segundo os investigadores, J. esteve na residência às 11h26 — horário confirmado pelo histórico de chamadas telefônicas — e encontrou Bianca dentro da casa ao lado de Myrella e do menino.
O detalhe chamou atenção porque Bianca havia afirmado que só retornou ao imóvel perto das 12h.
A adolescente relatou ainda que Bianca pediu para que ela não contasse à mãe da vítima que estava na residência naquele horário.
Pouco depois, veio a revelação considerada mais impactante do caso: o menino de 4 anos contou a J. que havia ocorrido uma briga entre Bianca e Myrella e que a suspeita teria batido com um fogão na cabeça da irmã dele.
O relato passou a ser tratado como peça central da investigação.
mensagens antes da morte aumentaram suspeitas
As suspeitas contra Bianca aumentaram após a polícia analisar conversas trocadas entre ela e Vitória em um aplicativo de mensagens.
Segundo os investigadores, o relacionamento das duas estava chegando ao fim justamente na manhã do crime. Nas mensagens, Bianca se despedia da companheira em tom emocional e demonstrava preocupação incomum com Myrella.
Em um dos trechos, escreveu:
“Só cuidado nesses intervalos que Myrella vai na rua, porque pode acontecer muita coisa.”
Em outra mensagem, afirmou:
“Dona 7 já falou, nego preto já avisou em sonhos. Depois o que resta vai ser chorar.”
Para os investigadores, as mensagens levantaram suspeitas de que Bianca poderia estar tentando criar previamente uma narrativa envolvendo um suposto criminoso desconhecido.
Outro detalhe chamou atenção da polícia: às 11h17, Bianca enviou mensagem dizendo que estava dentro de um ônibus. Porém, segundo o depoimento de J., ela ainda estava dentro da residência minutos depois.
tia afirma que menina tinha medo da madrasta
A tia da vítima, Emanuela, contou à polícia que Myrella demonstrava medo constante da convivência com Bianca e frequentemente reclamava das brigas dentro de casa.
Segundo a familiar, a adolescente dizia que a madrasta afirmava que ela atrapalhava o relacionamento com Vitória.
Emanuela revelou ainda que Myrella chegou a pedir para morar em sua casa por não querer mais conviver com Bianca.
“Ela tremia quando falava dela”, relatou em depoimento.
Ainda segundo a tia, Myrella também tinha medo de deixar o irmão pequeno sozinho na residência.
Familiares afirmaram que o relacionamento entre Bianca e Vitória era marcado por discussões constantes e episódios de manipulação emocional.
justiça vê risco de interferência na investigação
Na decisão que autorizou a prisão temporária de Bianca por cinco dias, a Justiça destacou a existência de fortes indícios de autoria e apontou risco concreto de interferência nas investigações caso ela permanecesse em liberdade.
O principal temor é em relação ao depoimento especial do menino de 4 anos, tratado como a única testemunha ocular do crime.
Segundo a decisão, há suspeitas de que a criança tenha sido inicialmente orientada a mencionar o suposto homem de blusa vermelha para afastar as suspeitas da investigada.
A Justiça também ressaltou a necessidade de proteger a adolescente J., considerada peça-chave para o esclarecimento do caso.
Bianca Martins da Silva Oliveira segue presa temporariamente enquanto a Polícia Civil aprofunda as investigações sobre a morte de Myrella Freire Venceslau.