O Clube Marabu, localizado em Piedade, na Zona Norte do Rio, um dos alvos da operação deflagrada nesta terça-feira pela Polícia Civil contra um esquema de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, já havia sido apontado como motivo de um duplo homicídio ocorrido no ano passado.
As vítimas foram o subtenente da Polícia Militar Isaac Drummond de Azeredo e o perito judicial Sérgio Paixão Bonfim, executados a tiros na Rua Assis Carneiro, também na Zona Norte da capital.
De acordo com as investigações realizadas na época, Isaac era um dos sócios do Clube Marabu e havia investido na reforma do espaço. O local, porém, despertava o interesse de traficantes do Morro do Dezoito, em Água Santa, que pretendiam assumir o controle da administração do clube. Antes de ser assassinado, o policial chegou a registrar em delegacia ameaças atribuídas aos criminosos.
Operação mira estrutura financeira do tráfico
A ação desta terça-feira, coordenada pela Polícia Civil, investiga uma sofisticada organização criminosa ligada ao tráfico de drogas que utilizava um clube recreativo e uma pousada para lavar dinheiro obtido com atividades ilícitas.
Policiais cumprem mandados de busca e apreensão em endereços da capital fluminense e da Região dos Lagos. Entre os alvos estão o Clube Marabu, em Piedade, e uma pousada em Armação dos Búzios.
A Justiça também autorizou o bloqueio de valores e ativos financeiros, a indisponibilidade de bens móveis e imóveis, restrições sobre veículos e participações societárias, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e das empresas envolvidas.
Clube era alvo de extorsão do tráfico
A investigação teve início após dirigentes de um clube social denunciarem à Polícia Civil que vinham sendo ameaçados para abandonar a administração da entidade e entregar o controle do espaço a pessoas ligadas ao tráfico de drogas.
Segundo as apurações da 52ª DP, as ameaças partiam da liderança do tráfico do Morro do Dezoito. Além da tentativa de assumir o comando do clube, os criminosos exigiam o pagamento mensal de R$ 6 mil para permitir que o estabelecimento continuasse funcionando sem sofrer represálias.
Durante as diligências, os investigadores identificaram indícios de um esquema semelhante no Clube Marabu, . As investigações revelaram que pessoas de confiança da organização criminosa passaram a administrar informalmente o espaço, controlando eventos, movimentações financeiras e decisões internas, mesmo sem qualquer vínculo jurídico ou estatutário com a instituição.
Movimentações milionárias incompatíveis com a renda
As apurações também identificaram um núcleo familiar responsável pela gestão financeira paralela do clube. De acordo com a Polícia Civil, um dos investigados atuava como principal operador financeiro da organização criminosa, enquanto uma segunda investigada administrava o clube de forma paralela. Um terceiro suspeito exercia funções de gestão e movimentou R$ 2,4 milhões em apenas seis meses, apesar de não possuir atividade empresarial formal compatível com esse volume de recursos.
Outro investigado realizou cerca de 40 transferências via PIX, que somaram aproximadamente R$ 240 mil. Ele aparece como autor em cerca de 20 procedimentos policiais, muitos deles relacionados a roubos de carga.
A investigação também identificou a participação de uma quinta investigada, que movimentou cerca de R$ 2,2 milhões em apenas seis meses, embora declarasse exercer a função de recepcionista, com renda aproximada de R$ 3,2 mil mensais. No mesmo período, ela recebeu cerca de R$ 253 mil de um dos principais alvos da investigação, por meio de seis transferências bancárias.
A análise dos Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) apontou movimentações milionárias incompatíveis com a renda declarada dos investigados, além de intensa circulação de recursos entre familiares, empresas e pessoas físicas por meio de transferências bancárias, depósitos em espécie e operações fracionadas via PIX, indicando um sofisticado esquema de ocultação e lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.