A Justiça Federal do Rio de Janeiro passou a conduzir uma investigação de grande alcance que apura a existência de um suposto braço internacional do Comando Vermelho responsável por recrutar cidadãos brasileiros para atuar na Guerra da Ucrânia e, posteriormente, trazer ao país o conhecimento militar adquirido no conflito.
O caso teve origem em um inquérito instaurado pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Civil do Rio, inicialmente voltado para apurar crimes de tráfico e associação para o tráfico de drogas. No decorrer das investigações, porém, os agentes identificaram indícios de uma estrutura muito mais complexa, com possível atuação transnacional.
Segundo os documentos judiciais, os investigadores apontam que Pedro Paulo Noel Cunha Ramaldes e Philippe Marques Pinto seriam integrantes de uma estrutura ligada ao Comando Vermelho que atuaria como uma espécie de “braço internacional” da facção. A suspeita é de que eles estariam envolvidos na arregimentação de criminosos brasileiros interessados em participar da Guerra da Ucrânia, além da disseminação, em território nacional, de técnicas e conhecimentos militares adquiridos durante o conflito armado.
Diante dos indícios de internacionalização das atividades criminosas, a 1ª Vara das Garantias da Comarca da Capital declinou da competência para a Justiça Federal. O Ministério Público Federal concordou com o entendimento, sustentando que os fatos investigados apresentam características de transnacionalidade, enquadrando-se, em tese, na Lei das Organizações Criminosas.
Ao analisar o caso, o juiz federal Marcos André Bizzo Moliari reconheceu a competência da Justiça Federal para conduzir a investigação, destacando que os elementos reunidos até o momento indicam possível atuação criminosa que ultrapassa as fronteiras nacionais.
Com a decisão, a Polícia Federal assumirá formalmente a condução das investigações. O magistrado determinou que o corregedor regional da corporação indique a delegacia responsável pelo caso e o delegado que ficará encarregado do inquérito, podendo inclusive promover novos ajustes nas diligências inicialmente requeridas pela Polícia Civil.
Além da mudança de competência, a Justiça Federal acolheu pedido do Ministério Público Federal para elevar o nível de sigilo do processo, restringindo o acesso aos autos em razão da sensibilidade das investigações.
Os documentos também revelam que o inquérito, inicialmente instaurado para investigar tráfico de drogas e associação para o tráfico, acabou expondo uma hipótese investigativa inédita: a possível utilização de um conflito armado internacional como ambiente de recrutamento e treinamento de integrantes de uma das maiores organizações criminosas do Brasil.
Caso os indícios sejam confirmados ao longo das investigações, o caso poderá revelar uma estratégia de internacionalização do Comando Vermelho, envolvendo não apenas o envio de brasileiros para uma zona de guerra, mas também a importação de experiência militar que, segundo a linha investigativa, poderia posteriormente ser utilizada em atividades criminosas no território nacional.