O policial militar Eduardo Félix da Silva foi expulso da corporação em junho, após ser filmado conversando com Wagner Barreto de Alencar, conhecido como “Cachulé”, apontado como chefe do tráfico de drogas no Morro do Barbante, na Ilha do Governador.
As imagens, divulgadas em maio de 2025, mostram o PM dentro da comunidade conversando com o traficante. Os dois aparecem sorrindo e demonstrando intimidade, enquanto outros dois homens armados permanecem próximos. Segundo a investigação, os indivíduos seriam seguranças pessoais de Cachulé.
De acordo com o Termo de Análise Técnica de Vídeo elaborado pela Polícia Militar, o cabo Eduardo Félix aparece usando uma camisa regata preta e conversando com Cachulé, que vestia uma camisa amarela.
O policial carregava uma sacola verde, cujo conteúdo não foi identificado. Após o diálogo, Cachulé aparece deixando o local com um fuzil.
Na sequência, as imagens mostram outros traficantes no mesmo local. Eduardo permanece com a sacola nas mãos e aparece usando óculos.
Em outro momento, Cachulé pega um fuzil, uma mochila e uma bolsa e deixa o local acompanhado do policial militar.
Cachulé morreu em operação policial
Segundo os documentos do processo disciplinar, Wagner Barreto de Alencar morreu em 16 de janeiro de 2026, durante uma operação realizada por policiais militares do 17º BPM, com apoio do Grupamento Aeromóvel, no Morro do Barbante.
Cachulé possuía duas condenações por tráfico de drogas e respondia a outras ações penais por homicídio.
PM negou envolvimento com o tráfico
Durante o processo disciplinar, Eduardo Félix negou qualquer envolvimento com o grupo criminoso que atuava no Morro do Barbante.
O policial afirmou que morava na comunidade havia aproximadamente 42 anos, desde o nascimento. Questionado sobre há quanto tempo o crime organizado dominava a região, respondeu que as facções se alternavam no controle da localidade desde que ele era criança.
Eduardo também negou ter proximidade com pessoas ligadas ao crime organizado.
No entanto, ao ser questionado se as lideranças do tráfico costumavam abordar policiais militares que moravam na comunidade, respondeu que sim. Segundo ele, os criminosos costumavam abordar os PMs residentes e, quando descobriam que se tratava de policiais militares, não ofereciam resistência.
Sobre o encontro registrado nas imagens, o policial afirmou que o vídeo mostrava apenas parte do que aconteceu. Segundo Eduardo, ele teria chegado ao local preocupado e nervoso, pois não sabia o motivo pelo qual havia sido chamado.
Questionado sobre a razão do encontro, o PM afirmou que Cachulé teria informado que dois policiais militares seriam expulsos da comunidade. Segundo sua versão, ele próprio não seria expulso por ser morador antigo e não ter provocado problemas na região.
O policial também declarou que já havia demonstrado vontade de deixar a Vila Juaniza, nome oficial da localidade conhecida como Morro do Barbante. No entanto, afirmou que não conseguiu se mudar porque possui imóvel próprio na comunidade e não teria condições financeiras de pagar aluguel em outro local.
Eduardo negou ainda que tivesse mantido qualquer contato com integrantes do crime organizado antes do episódio registrado no vídeo.
O policial afirmou que já morava na comunidade quando prestou concurso para ingressar na Polícia Militar.
Questionado sobre a realização de visitas de equipes do setor de inteligência da PM, a P/2, à sua residência, disse que não tinha conhecimento de qualquer visita. Afirmou, entretanto, que recebeu uma ligação telefônica solicitando seu comparecimento ao setor de inteligência do 17º BPM.
PM disse que não tinha noção dos riscos
Durante o interrogatório, Eduardo também foi questionado sobre os riscos de um policial militar morar em uma comunidade dominada por traficantes.
O PM afirmou que, quando ingressou na corporação, não tinha noção da exposição e dos riscos que enfrentaria.
Segundo ele, desde a infância convivia com policiais militares que moravam na região e trabalhavam no antigo PPC Juaniza, atualmente sede da 1ª Companhia. Na época, afirmou, o ambiente era mais tranquilo.
Eduardo também destacou que havia servido durante sete anos no Exército e que mantinha um comportamento discreto no cotidiano.
Segundo sua declaração, a criminalidade na região não era tão influente e perigosa quanto nos dias atuais, razão pela qual não teria compreendido, quando ingressou na PM, a dimensão do risco de continuar morando em uma área dominada pelo tráfico.
Questionado sobre a estrutura policial existente na Vila Juaniza, o PM afirmou que a comunidade conta com a sede da 1ª Companhia da Polícia Militar e duas cabines blindadas.
Ele também declarou que não costumam ocorrer confrontos armados entre traficantes e policiais militares nos postos de serviço existentes na região.
versão apresentada por Eduardo Félix durante o interrogatório foi contestada no processo disciplinar.
Segundo a análise feita pela Polícia Militar, o depoimento do agente apresentaria uma narrativa considerada incompatível com as imagens divulgadas pela imprensa. Para a corporação, o vídeo mostraria que a conversa entre o cabo e Wagner Barreto de Alencar, o “Cachulé”, ocorreu de maneira amistosa e descontraída.
A análise destacou que o policial aparece conversando tranquilamente com o traficante, sorrindo e permanecendo ao lado de outros homens armados que, segundo a investigação, atuavam como seguranças de Cachulé.
Outro ponto considerado relevante pela Polícia Militar foi o fato de Eduardo não ter comunicado oficialmente o suposto episódio de intimidação que, segundo sua versão, teria motivado o encontro.
Após conversar com o traficante, o PM não teria acionado uma guarnição pelo telefone 190, não teria comparecido a uma delegacia da Polícia Civil para registrar a suposta abordagem criminosa e também não teria informado o episódio ao seu superior imediato na unidade policial.
Para a corporação, a ausência de qualquer comunicação oficial enfraqueceria a versão de que o policial teria sido chamado ao local contra sua vontade e apenas para ser informado sobre uma suposta expulsão de outros PMs da comunidade.
A análise disciplinar também levou em consideração o contexto de atuação das organizações criminosas no Rio de Janeiro. O documento destaca que integrantes de facções atuam abertamente em diversas regiões, inclusive durante o dia, portando armas de grosso calibre, intimidando moradores e comerciantes por meio de extorsões e participando de confrontos armados em disputas pelo controle territorial.
Diante desse contexto, a Polícia Militar entendeu que um agente de segurança pública que se deparasse com uma liderança criminosa armada deveria adotar providências imediatas e comunicar o fato às autoridades competentes.
Para a corporação, a conduta de Eduardo Félix, somada às imagens do encontro e à ausência de qualquer registro oficial da suposta intimidação, era incompatível com os deveres éticos e funcionais esperados de um policial militar.
O processo disciplinar concluiu pela expulsão do agente da corporação.