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Operação policial que deixou turistas ‘ilhados’ no Vidigal (CV) capturou uma das principais operadoras financeiras de facção baiana

O Ministério Público da Bahia explicou a operação realizada hoje no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio, que resultou em tiroteio e deixou turistas p’resos’ilhados’ na comunidade.sem poder saiir. Segundo o órgão, a ação foi para capturar lideranças de organização criminosa do sul da Bahia, que estavam escondidas no morro. Durante a ação, foi presa uma da principais operadoras financeiras da facção baiana Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), ligada ao Comando Vermelho. Núbia Santos Oliveira é esposa da Wallas Souza Soares, conhecido como ‘Patola’, um dos líderes da facção junto com Ednaldo Pereira dos Santos, conhecido como ‘Dada’. Ela é investigada por lavagem de dinheiro e possuía dois mandados de prisão em aberto por tráfico de drogas e homicídio. Também foi preso um homem em flagrante, armado com um fuzil, e apreendidas a arma e drogas. Investigação e monitoramento A deflagração da operação é resultado de um trabalho contínuo e integrado de investigação e monitoramento do MPBA e as forças de segurança pública da Bahia e do Rio de Janeiro, cujo objetivo é a captura de 13 detentos que fugiram do Conjunto Penal de Eunápolis em dezembro de 2024, e que se encontram desde então no Rio de Janeiro, sob a proteção do Comando Vermelho. As investigações apontam que os alvos da operação, mesmo foragidos, continuam exercendo papel de liderança e comando à distância, articulando ações criminosas e mantendo vínculos com o tráfico de drogas e outros delitos. O monitoramento e as investigações continuarão de forma permanente até a captura de todos os fugitivos. Por conta da operação, traficantes incendiaram barricadas e fecharam a Avenida Niemeyer.

Escândalo na orla da zona sul: tráfico ficava com 60% de golpe da maquininha aplicado em turistas no Rio”

A reportagem teve acesso a detalhes de uma investigação que revela que o tráfico de drogas lucrava diretamente com o golpe da maquininha aplicado contra turistas nas praias da Zona Sul do Rio. Segundo os dados, integrantes do Comando Vermelho ficavam com 60% do dinheiro obtido nas fraudes, enquanto ambulantes responsáveis pelas abordagens ficavam com os outros 40%. O material mostra que o esquema operava principalmente nas areias de Copacabana e Ipanema, tendo como alvo preferencial turistas estrangeiros, escolhidos por terem menor familiaridade com a moeda brasileira e os costumes locais. De acordo com as investigações, os envolvidos se passavam por vendedores ambulantes e iniciavam a abordagem oferecendo produtos de baixo valor, como bebidas, cigarros e alimentos. Após convencer a vítima a pagar com cartão, começava o golpe. Com a maquininha em mãos, o criminoso alegava falhas de conexão para justificar múltiplas tentativas. Durante esse tempo, aproveitava momentos de distração para digitar valores muito acima do combinado, muitas vezes adicionando zeros ao preço real. Em outras situações, o visor da máquina era propositalmente encoberto. Já nos casos de pagamento por aproximação (NFC), o golpe se tornava ainda mais agressivo: o criminoso chegava a pegar o celular da vítima sob o pretexto de “ajustar o sinal”, realizando a cobrança sem que o turista percebesse. As apurações confirmam que os crimes eram praticados em grupo, com divisão de tarefas bem definida — abordagem, distração, cobrança, recebimento e repasse — o que facilitava tanto a execução quanto a fuga imediata após a fraude. Os números mostram a dimensão do esquema. Em uma amostra de 150 registros de ocorrência, entre janeiro e a primeira semana de setembro de 2025, os valores desviados variam de centenas a dezenas de milhares de reais por vítima. A investigação resultou em denúncia do Ministério Público contra sete pessoas. Para dificultar o rastreamento, os suspeitos utilizavam diversas maquininhas e contas bancárias em nome de terceiros. Logo após os golpes, os valores eram rapidamente transferidos via PIX, criando uma cadeia de repasses para ocultar os verdadeiros beneficiários. Um dos investigados revelou a existência de um “gerente” das fraudes — apontado como responsável por centralizar os valores e ligado ao tráfico. Segundo ele, esse homem atuaria na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana. De acordo com o depoimento, ambulantes interessados em participar do esquema precisavam procurá-lo. Era ele quem organizava a atuação e garantia a divisão dos lucros: 60% para o tráfico e 40% para os vendedores. O investigado também detalhou o domínio territorial da facção na Zona Sul, apontando a divisão das áreas: A investigação ainda indica uma estrutura criminosa mais ampla. Perfis públicos em redes sociais apontam a existência da chamada “Trem/Equipe do Havaí”, ligada ao Complexo Pavão-Pavãozinho-Cantagalo (PPG), sugerindo conexão direta com a facção e possível coordenação das fraudes. Para os investigadores, o caso revela uma engrenagem organizada, com participação direta do tráfico, divisão de funções e controle territorial — transformando golpes aplicados na areia da praia em uma fonte estruturada de renda para o crime organizado. r

CÂMERA VIRADA PARA CIMA: denúncia detalha nova forma de ocultação em ação de PMs na Maré

A denúncia contra 10 policiais militares acusados de invadir 13 casas no Complexo da Maré detalha duas formas de suposta ocultação durante a operação: segundo os autos, agentes teriam direcionado câmeras corporais para cima — ou para o lado oposto da equipe — e, em outros momentos, coberto as lentes, gerando imagens de “tela preta”. O caso, antecipado pela reportagem e posteriormente repercutido por outros veículos, aponta que os policiais são acusados de abuso de poder e violação de dever funcional, além de não cumprirem a missão que lhes foi atribuída pela Apol do 22º BPM. De acordo com o processo, os agentes também teriam desobedecido ordem superior relacionada à Instrução Normativa nº 0168, que estabelece os procedimentos para uso da Câmera Operacional Portátil (COP), conforme previsto no boletim da PM nº 182, de 30 de setembro de 2022. Segundo a denúncia, durante a ocorrência, os policiais teriam obstruído indevidamente os equipamentos, comprometendo o registro das imagens. Os autos descrevem que, em ao menos um caso, um dos PMs voltou a lente da câmera para cima ou para direção oposta à guarnição, impedindo que a ação fosse devidamente registrada. Já em outras situações, policiais cobriram as lentes das COPs, fazendo com que os equipamentos registrassem apenas imagens de “tela preta”. De acordo com a acusação, as práticas teriam sido adotadas com o objetivo de impedir a captação das ações realizadas durante a operação. Para o Ministério Público, as condutas indicam tentativa de ocultação deliberada da atuação policial, em desacordo com as normas que regulamentam o uso das câmeras corporais. O processo segue em tramitação, e a reportagem não localizou a defesa dos policiais citados.

Fraude em CAC é ligada a esquema que abasteceria traficantes do Salgueiro (CV) com fuzis, aponta investigação”

Uma investigação sobre fraudes no Fundo Nacional de Saúde revelou um suposto esquema de obtenção ilegal de registros de CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador) que estaria sendo utilizado para abastecer traficantes do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, com armamento pesado. De acordo com as apurações, o investigado que teria fraudado o processo para obter o certificado também é apontado por envolvimento com o tráfico de drogas na região. A suspeita das autoridades é de que o registro irregular funcionava como facilitador para a compra e circulação de armas, incluindo fuzis. Diante dos indícios, a investigação foi desmembrada. A parte relacionada à fraude na emissão de certificados de CAC — por envolver possível afronta a interesses da União e do Exército Brasileiro — segue sob responsabilidade da Justiça Federal. Já a apuração sobre a ligação do suspeito com o tráfico no Complexo do Salgueiro foi encaminhada à Justiça Estadual. Segundo elementos reunidos pela polícia, há indícios de que o investigado mantinha contato direto com lideranças do tráfico na comunidade, considerada uma das principais áreas de atuação do Comando Vermelho em São Gonçalo. Entre os nomes citados está o de um traficante conhecido como “Jogador”, apontado como figura de destaque na região. Material obtido na investigação indicaria que o suspeito teria negociado armas com ele, incluindo armamento de alto poder, como fuzis. As apurações também identificaram contatos com outro criminoso, conhecido como “B”, com quem teriam sido discutidos temas como tráfico de drogas, homicídios e comércio ilegal de armas. Diante do avanço do caso, o Ministério Público Estadual solicitou a prisão temporária dos envolvidos. A Justiça, no entanto, entendeu que ainda é necessário aprofundar as investigações, destacando a importância de individualizar de forma detalhada a conduta de cada suspeito. O caso expõe, segundo a linha investigativa, uma possível conexão entre fraudes documentais e o fortalecimento do poder bélico de organizações criminosas que atuam na Região Metropolitana do Rio.

“ELO DO CRIME: investigação aponta traficante do CV do Mato Grosso que estava escondido na Rocinha com apoio da cúpula”

Uma investigação revela a existência de uma conexão direta entre traficantes do Comando Vermelho no Mato Grosso e integrantes da facção que atuam na Favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio — ampliando o alcance interestadual da organização criminosa. Segundo a apuração, antes de ser preso ano passado, o apontado como chefe do CV no Mato Grosso, conhecido como “Tega”, se escondia na comunidade carioca, operando sob a proteção de lideranças locais. As informações indicam que o investigado mantinha vínculos com nomes de alta hierarquia da Rocinha, como Rogério 157 e Johnny Bravo, reforçando a suspeita de integração entre núcleos da facção em diferentes estados. De acordo com a investigação, Tega manteve ativa uma rede de tráfico de drogas e armas entre o Mato Grosso e o Rio de Janeiro, utilizando a estrutura da Rocinha como base de apoio e articulação. Um dos pontos que mais chama atenção foi o uso da própria residência na comunidade como espécie de “abrigo operacional”. Segundo os investigadores, o imóvel era disponibilizado para outros integrantes da organização “em caso de necessidade”, o que levanta a suspeita de que o local funcionasse como esconderijo para foragidos ligados ao grupo criminoso. A atuação do investigado também se estendia ao ambiente digital. Ele utilizava redes sociais com referências explícitas à facção — como a identificação “Rocinha 157” — ao mesmo tempo em que movimentaria valores por meio de contas bancárias em nome de familiares, prática que, segundo a apuração, indica tentativa de ocultação e dissimulação de patrimônio. Apesar de não possuir renda lícita compatível, Tega mantinha bens de alto valor, incluindo um veículo modelo Toyota Corolla Altis, o que, de acordo com os investigadores, reforça os indícios de enriquecimento proveniente da atividade criminosa. Interceptações telefônicas também revelariam o grau de organização do grupo. Em áudios analisados, o investigado afirmou ter “ritmado” áreas estratégicas de Cuiabá, estruturando pontos de venda e sistemas de arrecadação de dinheiro ilícito. Ainda segundo a investigação, ele também atuava oferecendo suporte logístico a criminosos vindos do Mato Grosso, garantindo abrigo e proteção dentro de território dominado pela facção no Rio de Janeiro. Embora os fatos ainda estejam sob análise das autoridades competentes, o material reunido aponta para um modelo de atuação que vai além da criminalidade local, indicando uma engrenagem interestadual estruturada, com base territorial, logística e financeira articuladas entre diferentes regiões do país. Tega é apontado como herdeiro de um dos maiores líderes do CV no Estado., vulgo  WT.

“EU PAGO TODO MUNDO”: CHEFÃO DO TCP FOI FLAGRADO EM ESCUTA DIZENDO CONTROLAR POLICIAIS EM CAXIAS

Uma interceptação telefônica obtida no âmbito de uma investigação policial revelou o nível de poder e ousadia atribuído ao traficante conhecido como Flamengo, apontado como um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP) em Duque de Caxias. Na gravação, ele afirma, em tom explícito, que pagaria propina a policiais militares que atuam na região. “Eu tenho a porra do batalhão todo na minha mão. Os polícia da área eu conheço tudo, eu pago todo mundo. Tu acha que essa porra tem tráfico de drogas porque? Eu pago é todo mundo, porra”. A escuta foi realizada anos atrás, durante uma investigação sobre a atuação do TCP em condomínios residenciais da região, e é tratada pelas autoridades como um indício do possível nível de infiltração criminosa e controle territorial sustentado por corrupção e intimidação. Na mesma interceptação, Flamengo aparece fazendo ameaças diretas a um síndico de condomínio, exigindo o repasse de dinheiro ao grupo criminoso. “Ou tu dá a porra do nosso dinheiro nessa porra ou tu vai morrer fdp”. Segundo as investigações, os condomínios Volterra, Rotonda, Parma, Pádua e Bolzano eram anteriormente dominados por um miliciano conhecido como Baby. Esse cenário mudou no final de 2022, após uma operação que prendeu diversos integrantes da milícia. Com o enfraquecimento do grupo, traficantes ligados ao TCP, oriundos da comunidade do Barro 3 e sob liderança de Flamengo, teriam avançado sobre a região e assumido o controle. De acordo com a apuração, o grupo passou a atuar como uma espécie de “empresa do crime”. Além do tráfico de drogas, passou a controlar serviços dentro dos condomínios, como venda de gás, distribuição de água, fornecimento de internet, TV a cabo, iluminação e até a cobrança de taxas de condomínio. Parte desses valores, segundo a investigação, seria destinada à organização criminosa. Para manter o domínio, os criminosos teriam adotado práticas violentas e sistemáticas. Entre elas, roubos de carga, extorsões, tortura de moradores, expulsão de residentes e assassinatos de pessoas que contrariavam seus interesses. Ainda segundo os elementos reunidos, Flamengo teria consolidado seu poder expulsando síndicos, retirando moradores e eliminando desafetos. Pessoas de sua confiança teriam sido colocadas na administração dos condomínios, ampliando o controle financeiro da organização. O grupo também teria expandido sua atuação para os morros do Sossego e do Cacareco, reforçando o domínio territorial. A disputa pelo controle da região provocou confrontos entre traficantes e milicianos. Em setembro de 2023, episódios de violência resultaram na queima de ônibus e veículos, afetando diretamente a população local. Relatos de moradores que afirmaram ter sido vítimas de tortura foram levados às autoridades policiais, que já conduziam outras investigações sobre a organização criminosa. Após um trabalho considerado minucioso, o inquérito foi encaminhado ao Ministério Público, com o objetivo de responsabilizar os envolvidos. Embora as acusações ainda dependam de julgamento, o material reunido descreve um cenário em que, segundo a investigação, o crime organizado não apenas atua na região, mas exerce controle direto sobre a rotina e a vida cotidiana dos moradores.

Cinco mortos: Justiça decreta prisão por ‘tribunal do tráfico’ do CV em São Gonçalo com corpos incendiados em retaliação a arrastão”

A Justiça do Rio decretou, no último dia 25 de março, a prisão preventiva de cinco traficantes ligados ao Comando Vermelho — conhecidos pelos vulgos Du Pente, Cabeça, Ben Ben, Pretinha e Jimmy — apontados em investigações como responsáveis por uma sequência de execuções brutais que deixou ao menos cinco homens mortos e desaparecidos na Região Metropolitana. De acordo com os autos, os corpos das vítimas ainda não foram localizados e teriam sido incendiados numa tentativa de ocultação dos crimes. As investigações indicam que as mortes teriam sido uma retaliação direta do tráfico após as vítimas participarem de um arrastão na rodovia RJ-104, em São Gonçalo — ação que, segundo apurado, não teria sido autorizada pela facção criminosa que domina a região. O caso é investigado no inquérito nº 951-00424/2025, conduzido pela Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DH-NSG), que apura o desaparecimento e as mortes de Davi Mendonça Schinke, João Pedro Ramos Freitas, Thalis da Silva Ferreira Moura e Kaio Luiz da Silva Oliveira, entre os dias 14 e 18 de outubro de 2025, nas comunidades Nova Grécia e Palmeira, áreas sob domínio do Comando Vermelho. Segundo os autos, tudo começou com uma denúncia anônima feita ao Disque-Denúncia, indicando que o corpo de Davi Mendonça estaria na localidade conhecida como “Pedra do Urubu”, na Comunidade da Palmeira, após ter sido executado por traficantes. Com o avanço das investigações, foi constatado que Davi estava desaparecido desde o dia 16 de outubro. Em depoimento, os pais afirmaram que o filho teria sido morto por integrantes do Comando Vermelho como forma de punição pelos roubos ocorridos na RJ-104, nas proximidades da Comunidade Nova Grécia. A apuração revelou ainda o desaparecimento de outros três homens — João Pedro, Thalis e Kaio — que, segundo os autos, também teriam participado do arrastão ocorrido no dia 13 de outubro, sem autorização da liderança do tráfico local. Como resposta, as vítimas teriam sido sequestradas por criminosos da facção. Parte delas teria sido levada para um ponto conhecido como “Campanário”, no alto da Comunidade Nova Grécia. Já Davi e Kaio teriam sido levados para a Comunidade da Palmeira, em Niterói, onde, segundo as investigações, foram executados. Testemunhas afirmaram que as mortes teriam sido ordenadas pelo traficante conhecido como “Cabeça”, identificado, segundo informações do Portal de Segurança do Estado, como alguém com 46 anotações criminais. Ainda conforme os relatos, a execução teria sido realizada pelo traficante “Du Pente”, apontado como “frente” do tráfico na Comunidade da Palmeira. Ele foi reconhecido por testemunhas por meio de mosaico fotográfico. As investigações também indicam que “Ben Ben” e “Pretinha” — esta última apontada como ex-liderança da Comunidade Nova Grécia — teriam participado diretamente da ação, auxiliando na identificação das vítimas e, em um dos casos, mantendo uma delas amarrada até a chegada dos executores. Uma testemunha identificada como Dayana também reconheceu “Ben Ben” e “Pretinha” em procedimento policial. Já o traficante conhecido como “Jimmy” foi apontado como o responsável pelo tráfico na Comunidade Nova Grécia, área onde parte das vítimas desapareceu. Na decisão, a Justiça destacou que os autos revelam uma atuação “extremamente violenta, organizada e reiterada”, com execução de múltiplas vítimas em um contexto de domínio territorial armado, além da tentativa de ocultação de cadáveres por meio de incêndio. Segundo o entendimento judicial, a liberdade dos acusados representaria risco à ordem pública, diante da gravidade dos fatos, da repercussão social e da periculosidade dos investigados. A decisão também aponta que a soltura poderia intimidar testemunhas e comprometer o andamento do processo. O clima de medo, inclusive, já aparece no próprio processo. De acordo com os autos, uma das testemunhas afirmou estar com receio de prestar informações mais detalhadas por viver em área dominada pelo mesmo grupo criminoso, chegando a omitir parte do que sabia por medo de represálias. O caso expõe, segundo a própria investigação, um cenário de violência extrema, com execuções, desaparecimentos e possíveis queimas de corpos, em meio ao controle rígido imposto pelo tráfico sobre territórios da Região Metropolitana do Rio.

Tiro fatal na Barra: Justiça aponta que rapaz morto por causa de discussão de camarote já estava contido no momento do disparo e contesta tese de legítima defesa de PM suspeito

Um relatório da Justiça indica que o homem morto na madrugada da última segunda-feira (13) dentro de um restaurante na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, já estaria contido por frequentadores do local no momento do disparo que o atingiu. A conclusão, segundo os autos, enfraquece a tese de legítima defesa apresentada pelo policial militar apontado como autor do disparo, o PM Milton Lopes dos Santos. De acordo com o processo, a vítima, identificada como Ryan Victor Araújo dos Santos, foi atingida por um disparo de arma de fogo dentro do estabelecimento. Ele chegou a ser socorrido ainda com vida por policiais militares e levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. As investigações iniciais apontam que o caso teve início dentro do restaurante em meio a um desentendimento por disputa de espaço em área reservada (camarote), envolvendo a vítima e outros frequentadores do local. Segundo os autos, o policial militar estava presente no ambiente e teria efetuado o disparo que atingiu Ryan durante o desenrolar da confusão. O relatório judicial descreve que, no interior do restaurante, a vítima passou a apresentar comportamento alterado, possivelmente em razão da ingestão de álcool, envolvendo-se em discussões justamente pela disputa do camarote. A situação, conforme a documentação do processo, evoluiu para agressões físicas. Ainda segundo relatos reunidos nos autos, Ryan teria sido retirado do local por seguranças, mas retornado em seguida de forma agressiva, portando uma garrafa de vidro, com a qual passou a ameaçar e investir contra outras pessoas, ampliando o tumulto no estabelecimento. Para a Justiça, no entanto, esse contexto não afasta a responsabilização do suspeito. O entendimento é de que o disparo não ocorreu em situação de surpresa ou emboscada, mas sim no curso de um conflito já em andamento, relacionado à discussão por espaço no camarote, no qual diversas pessoas tentavam conter a vítima. O juiz responsável pelo caso destacou que, no momento do disparo, a situação já estaria, ao menos em tese, sob controle parcial, com a vítima sendo contida por várias pessoas. Esse ponto, segundo a decisão, enfraquece a tese de legítima defesa apresentada pela defesa. “Isso enfraquece, pelo menos abstratamente, a tese de legítima defesa (ou de estado de necessidade, se se pensar numa brutalidade fática engendrada sem consciência pela vítima, naquele momento, segundo se diz, embriagada)”, registram os autos. Após o ocorrido, o policial militar deixou o local sem prestar socorro à vítima e só se apresentou posteriormente, acompanhado de advogado. Ele teve a prisão temporária decretada no curso das investigações.

Complexo do Alemão seria abrigo de cerca de 20 líderes do CV de Alagoas, aponta relatório da Segurança

Um relatório citado em investigações da Justiça e produzido a partir de informações da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) aponta que cerca de 20 supostas lideranças da facção conhecida como CVRL-AL/RJ estariam escondidas no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A comunidade, segundo o documento, teria se tornado uma espécie de base estratégica de comando remoto do grupo criminoso. Entre os nomes citados, está o de “Nem Catenga” (também identificado como “Jovem”), apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças da facção em Alagoas. De acordo com as informações reunidas no relatório, ele exerceria função de comando à distância, operando a partir do Complexo do Alemão, de onde manteria influência sobre decisões relacionadas às atividades criminosas atribuídas ao grupo no estado. Ainda segundo o mesmo conjunto de informações, outro nome mencionado é o de um homem identificado por diversos vulgos, entre eles “Zé Dirceu”, “Galeguinho”, “Wesley” ou “Alex”, que seria apontado como vice-liderança da organização. Conforme descrito no relatório, ele também estaria na mesma região do Rio de Janeiro e participaria, junto a outros integrantes, da tomada de decisões estratégicas da facção em Alagoas. O documento também cita outros indivíduos apontados como integrantes de liderança, entre eles “Quinzinho” (ou “Fuba”), “Malhado”, “Ninho da Cical”, “Mariano” (ou “Rato”), “Nove Nove” (ou “Rafinha”) e “Tinho”. Parte desses nomes, segundo as forças de segurança, também estaria concentrada no Complexo do Alemão. As investigações da SSP-AL indicam ainda a expansão da atuação do CVRL-AL/RJ em diversas áreas do estado, com presença e influência em comunidades da capital e região metropolitana. Entre os relatos reunidos pelas autoridades, há registros da circulação de armamentos de grosso calibre, incluindo um fuzil que teria sido enviado do Rio de Janeiro para Alagoas sob ordem de lideranças da facção. Segundo essa linha investigativa, o armamento teria chegado inicialmente ao bairro do Clima Bom, na parte alta de Maceió, área apontada como sob influência do grupo. Posteriormente, teria sido redistribuído para a região da Levada, na parte baixa da capital, também citada como área de atuação da organização. O armamento seria associado a disputas territoriais entre grupos rivais em diferentes pontos da cidade. Atualmente, conforme o relatório, o CVRL-AL/RJ é apontado como uma das facções com maior presença em regiões específicas de Alagoas, com influência em áreas da parte baixa de Maceió, incluindo Levada, Brejal, Vergel, conjuntos Virgem dos Pobres e Mutirão, além de pontos no bairro do Clima Bom, em Rio Largo e em áreas do Litoral Norte do estado. O documento também descreve o chamado “berço” da atuação da facção em Alagoas como sendo a região do Vergel do Lago e comunidades adjacentes, como Brejal, Virgem dos Pobres e Mutirão. Segundo relatos mencionados no material investigativo, moradores dessas localidades teriam procurado autoridades policiais para relatar, de forma anônima, situações de violência e a atuação do grupo na região.

“CPI DESCREVE FACÇÕES COMO ‘PARA-ESTADO’, APONTA USO DE RELIGIÃO E FRACASSO DE POLÍTICAS NO RJ”

O relatório final da CPI do Crime Organizado do Senado Federal, divulgado nesta semana, traça um retrato duro da segurança pública no Rio de Janeiro e afirma que facções criminosas e milícias já operam, em diversas regiões, como verdadeiros “para-Estados”, exercendo controle territorial, impondo regras próprias, cobrando taxas ilegais e assumindo, na prática, funções que deveriam ser do poder público. Diante desse cenário, o documento sustenta que uma eventual intervenção federal na área de segurança pública pode se justificar como medida excepcional, ainda que essa avaliação dependa de decisão das autoridades competentes. A investigação aponta que organizações como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro atuam simultaneamente com milícias de origem paraestatal no território fluminense, criando uma configuração que, segundo a CPI, não encontra paralelo no restante do país. O Rio de Janeiro seria o único estado onde convivem, ao mesmo tempo, facções originadas no sistema prisional e grupos armados com raízes em estruturas ligadas historicamente a agentes ou ex-agentes públicos, herdeiros de antigos esquadrões da morte e grupos de extermínio. Esse cenário teria evoluído para uma dinâmica ainda mais complexa, com disputas territoriais constantes, reacomodações de poder e, em casos crescentes, a formação das chamadas “narcomilícias”, grupos que combinam controle paramilitar, exploração do tráfico de drogas e práticas sistemáticas de extorsão. Para a CPI, essa fusão de métodos revela um nível de sofisticação que exige respostas estatais de igual magnitude. O relatório também destaca que, ao longo dos anos, as políticas de enfrentamento adotadas pelo estado do Rio de Janeiro têm sido marcadas por avanços pontuais seguidos de recuos estruturais. O programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), lançado em 2008 e inicialmente celebrado como uma estratégia inovadora de retomada territorial, acabou esvaziado em meio a crises financeiras e políticas, inclusive com a prisão de governadores e ex-governadores, o que contribuiu para a perda gradual dos territórios anteriormente ocupados pelo Estado. Iniciativas posteriores, como o programa Cidade Integrada, tampouco teriam alcançado resultados duradouros. O próprio governo estadual, em documento apresentado ao Supremo Tribunal Federal no fim de 2025, reconheceu as falhas dessas experiências e a necessidade de políticas permanentes e de longo prazo para evitar que áreas retomadas voltem ao controle do crime. Para a CPI, esse ciclo de retomada e abandono evidencia uma incapacidade estrutural do estado de manter presença contínua e efetiva nos territórios mais vulneráveis. Outro ponto considerado sensível pelo relatório é a transformação do perfil das organizações criminosas. O Comando Vermelho, por exemplo, não dependeria mais exclusivamente do tráfico de drogas no varejo, tendo expandido sua atuação para atividades como extorsão, controle territorial, exploração de mercados com aparência lícita e até presença interestadual e internacional. A estratégia, segundo o documento, indica uma migração para modelos mais discretos e diversificados de obtenção de lucro ilícito. As milícias também teriam passado por mudanças relevantes. Embora mantenham vínculos históricos com agentes ou ex-agentes públicos, essas organizações hoje se apresentam de forma mais heterogênea, ampliando sua atuação para além do controle territorial e das cobranças ilegais, com conexões com outras economias ilícitas, como o jogo do bicho e o contrabando. O relatório ainda chama atenção para um elemento considerado particularmente grave: a instrumentalização de motivação religiosa por parte de grupos criminosos para impor medo e controle social. Segundo a CPI, essa prática foi identificada especialmente na atuação do Terceiro Comando Puro em determinadas regiões, onde o uso de discurso religioso teria sido empregado como ferramenta de intimidação e dominação da população local. A expansão territorial de facções também é contextualizada no documento com base em decisões judiciais recentes. No caso do avanço do Terceiro Comando Puro no Complexo de Israel, a CPI aponta que o crescimento do grupo ocorreu durante o período de vigência da ADPF 635, quando houve restrições à atuação policial em comunidades do Rio de Janeiro. Essa circunstância, segundo o relatório, foi posteriormente reconhecida por órgãos institucionais e é apresentada como um dos fatores que influenciaram a dinâmica de ocupação territorial, tema que segue em debate no âmbito do Judiciário. Embora o relatório não atribua culpa individual nem produza efeitos penais imediatos, suas conclusões desenham um cenário de alta gravidade, no qual o crime organizado não apenas confronta o Estado, mas, em diversas áreas, atua paralelamente a ele, exercendo poder, influenciando rotinas e explorando economicamente territórios inteiros. Diante desse diagnóstico, a CPI reforça a necessidade de respostas estruturais e de longo prazo — e deixa no ar uma questão que começa a ganhar força nos bastidores: se o Estado falhou em conter o avanço dessas organizações ao longo das últimas décadas, qual será o caminho para retomar, de forma duradoura, o controle sobre esses territórios.

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