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investigação

Granada, sangue e um vulto armado: policiais da Core revelam bastidores da operação do Jacarezinho (CV). Confronto terminou com 28 mortos

Antes mesmo do sol nascer completamente sobre o Jacarezinho, o som dos helicópteros já cobria a comunidade. Eram pouco mais de cinco horas da manhã quando o barulho das aeronaves se misturou ao estampido dos tiros. O que viria nas horas seguintes entraria para a história como uma das operações mais letais já realizadas pela polícia no Rio de Janeiro que terminou com 28 mortos. Cinco anos depois, os bastidores daquela manhã de 6 de maio de 2021 voltaram a ser reconstruídos em detalhes na Justiça. Os policiais civis Douglas Siqueira e Anderson Silveira Pereira, ambos da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), prestaram depoimentos minuciosos sobre a sequência de acontecimentos que terminou na morte de Omar dentro de uma residência da comunidade. Os dois irão a júri popular pela morte de um suspeito. As declarações descrevem uma operação em clima de guerra, com tiroteios ininterruptos, policiais feridos, um agente morto, disparos partindo de diferentes direções e a tensão permanente de entrar em vielas estreitas sem saber de onde viria o próximo ataque. “Tinha tiro por toda a favela” Comissário da Polícia Civil e integrante da Core há 13 anos, Anderson Silveira Pereira contou que participou de mais de mil operações semelhantes, mas classificou o Jacarezinho como um dos ambientes mais hostis que já enfrentou. Segundo ele, os confrontos aconteciam praticamente em todos os setores da comunidade. — Estava tendo tiroteio a todo momento por toda a favela. Parava um pouco e começava de novo. Era intenso — relatou. Em determinado momento, as equipes receberam a notícia de que um policial havia sido baleado. Somente depois souberam que o colega havia morrido. Mesmo assim, segundo Anderson, não houve qualquer movimento de vingança. — Não surgiu nos grupos nenhuma conversa de retaliação. Ficamos sabendo da morte dele quando já estávamos socorrendo outro ferido. Os policiais avançavam em progressão tática, cobrindo uns aos outros. O cenário era considerado extremamente perigoso. O terreno acidentado, os becos estreitos e a possibilidade de disparos vindos de lajes faziam com que cada deslocamento fosse feito lentamente. O rastro de sangue Em determinado momento da operação, Anderson encontrou a equipe comandada por Douglas Siqueira. Os dois seguiam por um dos becos quando perceberam marcas de sangue espalhadas pelo chão. As gotas se estendiam pela viela e continuavam escada acima. — Pensamos: “Tem algum baleado que entrou aqui” — relatou Anderson. Ao chegarem diante de uma porta preta, Douglas entrou primeiro. Uma mulher apareceu. Segundo os policiais, ela confirmou que havia uma pessoa baleada dentro do imóvel. Os agentes retiraram os moradores e iniciaram uma entrada tática. Douglas seguia à frente. Anderson vinha logo atrás, praticamente ombro a ombro, mas ligeiramente recuado, a uma distância de cerca de um braço. O espaço era apertado. — Era tudo muito pequeno. Um barraco. A cozinha já ficava colada no quarto — descreveu. O instante decisivo Segundo Anderson, eles ainda não haviam conseguido visualizar ninguém. A única pista era o sangue. Douglas avançou em direção a um dos quartos enquanto Anderson permanecia na posição de cobertura, voltado para a cozinha. Foi então que ouviu um barulho. Só mais tarde identificaria aquele som como sendo o de uma granada. — Quando ouvi, virei automaticamente. Segundo o policial, naquele instante viu a granada rolando na direção dos agentes. E viu também um vulto. — Só vi um vulto segurando uma arma. Era Omar. Anderson contou que não tinha visão completa do cômodo porque Douglas estava na sua frente. — Vi apenas o vulto e o disparo. Segundo ele, tudo aconteceu em frações de segundo. Douglas atirou uma única vez. Omar caiu. “Ele ainda se debatia” Os policiais afirmam que Omar ainda estava vivo. Segundo Anderson, ele continuava gesticulando. A pistola teria caído no chão e estava ao alcance da mão do suspeito. Os agentes então recolheram a arma. Mais tarde, segundo eles, verificaram que a pistola possuía um kit rajada. Ao mesmo tempo, chamaram o esquadrão antibombas para recolher o explosivo. Mesmo em meio ao confronto externo, os policiais decidiram socorrer Omar imediatamente. — Era melhor levar até o blindado do que esperar o socorro chegar. Sem maca e sem espaço para manobras, os agentes improvisaram. Pegaram um lençol ou cobertor e suspenderam o ferido. As escadas estreitas dificultavam a remoção. — Era da forma que dava. Não arrastamos pelo chão. Segundo Anderson, a descida foi lenta porque o tiroteio continuava. — Parava um pouco e voltava. A progressão até o blindado foi difícil. O caveirão estava do lado de fora, já que era impossível sua entrada na viela. “Jacarezinho foi a única favela onde tomei tiro” Ao longo do depoimento, Anderson afirmou que perdeu dois amigos em operações no Jacarezinho e revelou que aquela foi a única comunidade em que acabou atingido por disparos ao longo da carreira. — É uma das piores. Ele contou que já participou de mais de mil operações e continua lotado na Core. A outra versão Dentro da residência, porém, os moradores contam uma história completamente diferente. Segundo eles, Omar havia chegado cerca de meia hora antes. Ferido no pé, sangrando muito, sem camisa e vestindo apenas uma bermuda tactel, ele pedia ajuda. O sangue espalhou-se pela escada, pela sala e pelo quarto da criança. Moradores dizem que ele recebeu um pano para estancar o ferimento e se deitou em uma cama. Ninguém afirma ter visto arma. Ninguém afirma ter visto granada. Todos descrevem um homem desesperado e debilitado. “Cadê a arma?” Os moradores relatam que ouviram os passos dos policiais subindo a escada. Flávia, dona da casa, teria descido para avisar: — Tem um menino baleado aqui, mas tem criança em casa. Segundo ela, o policial passou por ela e entrou. Seu marido gritou: — Morador, estou com criança! A resposta teria sido: — Sai, sai. Na sequência, testemunhas afirmam ter ouvido o policial gritar: — Cadê a arma? Cadê a arma? E logo depois veio um único disparo. Os moradores afirmam que não ouviram resposta. Nenhum deles diz ter visto Omar armado. Corpos espalhados pela

Defesa consegue na Justiça apurar histórico criminal de empresário morto por PMs na Pavuna

A estratégia da defesa dos policiais militares acusados de matar o empresário Daniel Patrício na Pavuna em abril por disparos de arma de fogo de grosso calibre passou a incluir um novo eixo de investigação: o pedido para que seja apurado se a vítima fatal possuía histórico criminal ou alguma investigação em andamento. O pedido foi acolhido parcialmente pela Justiça, que determinou a expedição de ofício à Polícia Rodoviária Federal (PRF) para que informe se existe ou já existiu qualquer procedimento investigativo envolvendo o civil morto na ocorrência. A medida abre uma nova frente dentro da instrução do processo e pode trazer novos elementos para a análise do caso. A reportagem já divulgou aqui meses anteriores que Daniel respondia a um processo por danos morais no Tribunal de Justiça do Paraná — cujo conteúdo não foi disponibilizado pelo órgão. Além disso, no ano passado, ele chegou a ser investigado por suspeita de descaminho, após tentar entrar no Brasil com mercadorias estrangeiras sem a devida declaração. O caso teve origem em uma representação fiscal da Delegacia da Receita Federal em Curitiba, após a apreensão de produtos em Foz do Iguaçu, em 15 de abril de 2025. O valor dos tributos envolvidos — cerca de R$ 6 mil — ficou abaixo do mínimo exigido para caracterizar crime de descaminho. Por isso, a Justiça considerou a conduta de baixo potencial ofensivo e arquivou o caso. Não houve prisão em flagrante, apenas a apreensão das mercadorias. Até o momento, não há qualquer evidência de que essas pendências tenham relação com a morte do empresário. CORPO DA DECISÃO E CONTEXTO PROCESSUAL:A decisão foi proferida no âmbito da resposta à acusação apresentada pelas defesas dos policiais, que também levantaram uma série de preliminares e pedidos de nulidade do processo. Entre os principais argumentos defensivos estavam alegações de irregularidade na lavratura do auto de prisão em flagrante, suposta incompetência da autoridade que formalizou o procedimento e pedido de rejeição da denúncia por inépcia. Todos esses pontos foram rejeitados pelo magistrado. Segundo o juiz, o flagrante foi lavrado por autoridade que aparentava ter jurisdição no momento dos fatos, com base nas informações preliminares disponíveis, incluindo versões iniciais apresentadas pelos próprios envolvidos. Posteriormente, com o avanço da análise das provas, o caso foi encaminhado ao Juízo competente e teve a prisão convertida em preventiva. A decisão também reforça que a denúncia apresentada pelo Ministério Público atende aos requisitos do artigo 41 do Código de Processo Penal, contendo a descrição dos fatos, a qualificação dos acusados, a classificação jurídica e o rol de testemunhas. O magistrado destacou ainda que, nesta fase processual, não se exige prova plena de autoria, mas apenas indícios suficientes para o recebimento da ação penal, cabendo a produção de provas completas durante a instrução. DILIGÊNCIAS E PRODUÇÃO DE PROVAS:Além do ponto envolvendo a vítima, o juiz também analisou uma série de requerimentos feitos pelas defesas, incluindo pedidos de acesso a imagens de câmeras operacionais portáteis (COPs), identificação de policiais que participaram da ocorrência, além de informações sobre eventual uso de drones durante a ação. Parte desses pedidos foi deferida, com determinação para que a Polícia Militar forneça a identificação de todos os integrantes das guarnições que estiveram no local dos fatos, além de esclarecimentos sobre possível uso de drones institucionais. Também foi mantida a determinação de perícia em veículo ligado à ocorrência, além da espera por laudos periciais ainda pendentes, como exame de armas de fogo, projéteis e análise técnica de imagens. O juiz ainda solicitou manifestação do Instituto de Criminalística para avaliar a possibilidade de reconstrução tridimensional da cena com base nas imagens disponíveis. POSIÇÃO SOBRE REPRODUÇÃO SIMULADA E OUTRAS PROVAS:O pedido de reprodução simulada dos fatos foi negado neste momento, sob o entendimento de que a medida depende da oitiva das testemunhas e da formação de um conjunto probatório mais completo. A diligência poderá ser reavaliada posteriormente, conforme evolução da instrução processual. PRISÃO MANTIDA:Por fim, o magistrado manteve a prisão preventiva dos policiais militares, afirmando que há indícios suficientes de autoria e que a gravidade concreta dos fatos justifica a custódia cautelar para garantia da ordem pública. Segundo a decisão, os elementos reunidos até o momento indicam a realização de múltiplos disparos contra um civil, o que, na visão do juízo, reforça a necessidade de manutenção da medida extrema enquanto o processo segue em instrução.

Presidente de associação de moradores foi denunciada sob suspeita de atuar como tesoureira do TCP em Vargem Grande. Moradores são obrigados a pagar taxas e por serviços

O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou a presidente de uma associação de moradores de uma comunidade em Vargem Grande sob a acusação de integrar a estrutura de arrecadação financeira do Terceiro Comando Puro (TCP), uma das facções criminosas que disputam o controle territorial na Zona Oeste da capital. Segundo a denúncia, a investigada exerceria função central dentro do esquema de extorsão imposto pelo grupo, atuando como responsável pela arrecadação e controle de valores pagos por moradores, comerciantes e prestadores de serviço. Na prática, ela seria apontada como uma espécie de tesoureira da organização criminosa na região. De acordo com o Ministério Público, o TCP mantém na área uma estrutura criminosa estável, hierarquizada e permanente, baseada no chamado “domínio social estruturado”, em que o grupo exerce controle sobre o território e sobre a rotina da população local por meio de violência, intimidação e coerção econômica. A denúncia detalha que o esquema não se limita ao tráfico de drogas. Além da atividade ilícita principal, a facção também impõe uma rede de cobranças ilegais que atinge diretamente a população civil. Moradores e comerciantes seriam obrigados a pagar taxas mensais sob ameaça de agressões, expulsão e retaliações, em um sistema paralelo de cobrança que substitui serviços públicos e regula atividades econômicas dentro da comunidade. Entre as cobranças relatadas estão taxas sobre fornecimento de energia elétrica, água e internet, além de valores exigidos em transações imobiliárias, como compra, venda e ocupação de imóveis na região. Segundo a acusação, o não pagamento dessas quantias poderia resultar em punições impostas pelos criminosos, incluindo ameaças diretas e violência física. A investigação aponta que a denunciada teria papel relevante na operacionalização desse sistema, sendo responsável por recolher e organizar os valores arrecadados, funcionando como elo entre os moradores e a estrutura financeira da facção. A atuação dela, segundo o Ministério Público, ajudaria a garantir a regularidade da arrecadação e a manutenção do fluxo de dinheiro dentro da organização. A denúncia foi embasada em informações colhidas durante uma operação policial realizada por agentes da 42ª DP, com apoio do 31º BPM, na comunidade apontada como área de influência do TCP. Durante a ação, policiais receberam relatos de moradores que optaram por não se identificar por medo de represálias. Esses depoimentos indicavam que a dirigente comunitária teria participação direta no recolhimento das taxas impostas pelo grupo criminoso. Além das informações obtidas em campo, o Ministério Público menciona que investigações anteriores já vinham recebendo comunicações anônimas por meio do Disque-Denúncia, relatando a existência de um sistema de extorsão estruturado na região. Esses relatos apontariam a cobrança sistemática de valores sob ameaça, incluindo taxas relacionadas a serviços básicos e a atividades comerciais. A acusação também cita a existência de vínculos entre a estrutura local e outros integrantes da facção, que seriam responsáveis por dar suporte ao esquema de dominação territorial e pela aplicação das regras impostas pelo grupo criminoso. A organização, segundo a peça acusatória, atua de forma hierarquizada, com divisão de tarefas entre membros responsáveis pela vigilância, cobrança, intimidação e controle financeiro. A denunciada foi localizada durante a operação policial e encaminhada à delegacia. Ela responde a ação penal na 34ª Vara Criminal da Capital. O Ministério Público sustenta que o conjunto de elementos indica a existência de uma estrutura criminosa consolidada na região, na qual funções como arrecadação, coerção e controle territorial estariam distribuídas entre diferentes integrantes, permitindo a manutenção do domínio da facção sobre a comunidade. As acusações ainda serão analisadas pela Justiça, e a defesa poderá se manifestar no curso do processo.

Ex-miliciano expulso que foi para o CV é acusado de homicídio e de planejar morte de PM na Zona Oeste do Rio

Um homem apontado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro como ex-integrante de milícia, expulso do grupo após conflitos internos e posteriormente ligado ao Comando Vermelho (CV), é investigado por envolvimento em um homicídio e por suposto planejamento da morte de um policial militar na Zona Oeste do Rio. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios e motivou pedido de quebra de sigilo telefônico e telemático, incluindo dados de geolocalização por Estações Rádio Base (ERBs), para reconstrução da dinâmica do crime. Segundo a representação enviada à Justiça, o homicídio ocorreu no dia 22/03/2026, no interior de uma residência e oficina localizada no bairro de Cosmos, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A vítima, identificada como Cláudio Marcelo, foi executada por disparos de arma de fogo. A dinâmica inicial apurada aponta que um veículo Fiat Argo de cor cinza-chumbo chegou ao local, momento em que ao menos três indivíduos participaram da ação criminosa. Um dos ocupantes desembarcou e efetuou os disparos, enquanto os demais deram apoio na fuga, que ocorreu com o atirador entrando no banco traseiro do veículo. As diligências e depoimentos colhidos pela investigação indicam como principal suspeito o nacional identificado como Gustavo, que teria histórico de atuação em milícia na região. De acordo com os autos, Gustavo teria sido expulso do bairro por integrantes da organização criminosa local após desavenças financeiras e envolvimento em golpes contra moradores. Após esse rompimento, ele teria passado a se aproximar da facção criminosa Comando Vermelho (CV), passando a circular armado com fuzis e a atuar em incursões e extorsões na região. Ainda segundo testemunhas ouvidas, no período dos fatos, o investigado teria retornado ao bairro com o objetivo inicial de executar um policial militar com quem mantinha desavenças antigas. O alvo principal, no entanto, não foi localizado. Na sequência, a vítima Cláudio Marcelo teria sido identificada como estando sozinha no local do crime, após publicar em status de aplicativo de mensagens que se encontrava em casa. Diante disso, o investigado teria se dirigido ao endereço e consumado o homicídio. A autoria é reforçada, segundo a investigação, por elementos adicionais, incluindo uma suposta confissão informal registrada em áudio de visualização única enviado à testemunha Edson. No conteúdo, o investigado teria dito: “Viu o que eu fiz com o seu amigo, eu quero o dinheiro”. A investigação também aponta que o caso não se limita ao homicídio, mas integra um contexto mais amplo de atuação criminosa envolvendo disputas locais, histórico de expulsão de grupos paramilitares e posterior associação com facção criminosa. No pedido judicial, a Polícia Civil afirma que a apuração precisa agora ser complementada por prova técnica, especialmente para confirmar a presença do investigado e de eventuais comparsas na cena do crime, bem como delimitar o perímetro percorrido pelo grupo antes, durante e após a execução. Por isso, foi solicitada a quebra do sigilo de dados telefônicos e telemáticos do número atribuído ao investigado, com a obtenção de dados cadastrais, histórico de chamadas, IMEI, IMSI e registros de ERB. O pedido abrange o período das 06h00 às 23h59 do dia 22/03/2026, intervalo considerado suficiente para cobrir a fase de preparação, execução e fuga do crime. Segundo a representação, a medida é necessária diante da volatilidade dos dados telemáticos e do risco de perda de informações junto às operadoras, além do fato de o investigado permanecer foragido e supostamente vinculado a grupo criminoso armado. A Polícia Civil destaca ainda que o conjunto de elementos reunidos — incluindo depoimentos, histórico de conflitos, informações de investigação e o áudio atribuído ao investigado — indica a necessidade de aprofundamento técnico da apuração. O pedido foi fundamentado no artigo 5º, inciso XII, da Constituição Federal, na Lei nº 9.296/1996 e na Lei nº 12.830/2013, além de entendimento consolidado dos tribunais superiores sobre a utilização de dados de ERB como meio de prova em crimes graves. O caso segue em análise pela Justiça do Rio de Janeiro.

Foi a partir de alerta de banco que polícia descobriu esquema milionário de lavagem de dinheiro da milícia do Catiri

Enquanto a operação da Polícia Civil contra a milícia do Catiri, em Bangu, já repercutiu em diversos veículos de imprensa, documentos judiciais obtidos pela reportagem revelam com mais profundidade como funcionava a estrutura financeira montada pelo grupo para lavar dinheiro e ocultar a origem ilícita dos recursos. O esquema, segundo as investigações, combinava fraudes bancárias, empresas de fachada, uso de laranjas e uma complexa rede de movimentação de valores destinada a dar aparência de legalidade a recursos obtidos por meio de crimes. As apurações começaram a partir de uma comunicação do Banco Santander, que identificou irregularidades em uma agência no Rio de Janeiro envolvendo a abertura de contas com documentação falsa e concessão indevida de crédito. O caso, inicialmente tratado como fraude bancária, revelou um prejuízo estimado em mais de R$ 5,2 milhões e serviu como ponto de partida para a descoberta de uma estrutura criminosa mais ampla. Segundo a investigação, o grupo atuava de forma organizada e permanente, com divisão clara de funções e forte integração entre pessoas físicas e jurídicas. No topo da estrutura estaria o chamado núcleo central, responsável por coordenar toda a engrenagem: criação de empresas, definição de operadores, controle indireto de contas bancárias e direcionamento dos fluxos financeiros. Esse núcleo seria formado por investigados que, segundo os autos, concentravam o poder decisório e a articulação estratégica do esquema. Abaixo dele, um núcleo operacional-financeiro executava as fraudes bancárias. Esse grupo era responsável por abrir contas em instituições financeiras utilizando documentos falsos ou adulterados, inserir dados ideologicamente inverídicos e viabilizar a contratação de linhas de crédito que, posteriormente, eram descumpridas de forma deliberada. Em diversos casos, o mesmo grupo operava múltiplas contas e empresas simultaneamente, criando uma malha de circulação artificial de recursos. Outro eixo fundamental da engrenagem era formado pelos chamados “testas de ferro”. Pessoas sem capacidade econômica compatível apareciam formalmente como sócios ou administradores de empresas utilizadas nas operações. Segundo os investigadores, essas pessoas eram usadas para ocultar os reais beneficiários das estruturas empresariais e dificultar o rastreamento patrimonial. Já o núcleo de circulação e pulverização de valores tinha como função fragmentar os recursos ilícitos. O dinheiro era transferido entre diversas contas de pessoas físicas e jurídicas interligadas, muitas vezes em pequenas quantias fracionadas, estratégia conhecida por dificultar a detecção por sistemas de controle financeiro. Após essa etapa, os valores retornavam ao sistema bancário com aparência de origem lícita, fechando o ciclo da lavagem. Relatórios de inteligência financeira do COAF e análises do Laboratório de Tecnologia Contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) identificaram movimentações incompatíveis com a capacidade econômica declarada pelos investigados, além de padrões repetitivos de transferências entre empresas ligadas entre si e contas utilizadas exclusivamente para trânsito de valores. As investigações também apontam o uso recorrente de empresas de fachada em diferentes setores da economia, muitas delas sem atividade operacional real, registradas em endereços inexistentes, residenciais ou compartilhados entre múltiplas pessoas jurídicas. Em vários casos, os mesmos sócios apareciam vinculados a diferentes empresas, todas movimentando valores expressivos sem lastro econômico compatível. Outro ponto destacado pelos investigadores é o uso de operações em espécie e transações fracionadas, estratégia considerada típica de estruturas de lavagem de dinheiro, voltada a evitar mecanismos automáticos de controle e comunicação obrigatória ao sistema financeiro. Para a Polícia Civil e para os órgãos de controle financeiro, o conjunto de elementos revela uma engrenagem criminosa altamente estruturada, com divisão de tarefas, atuação coordenada e mecanismos sofisticados de ocultação patrimonial. O esquema, segundo os autos, não se limitava a fraudes isoladas, mas funcionava como um sistema integrado de circulação e dissimulação de recursos ilícitos dentro do sistema financeiro formal.

Chefe de milícia do Catiri também teria mandado em Rio das Pedras, diz investigação

Investigação da Polícia Civil do Rio aponta que um dos atuais chefes da milícia do Catiri, em Bangu — alvo de operação recente — também teria integrado a estrutura de comando do grupo paramilitar que atuava em Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Segundo relatório obtido pela reportagem, o homem identificado como Montanha aparece como uma das lideranças da organização criminosa em períodos anteriores, com atuação ligada ao controle de áreas exploradas pelo grupo e participação no núcleo responsável por decisões estratégicas da estrutura. “Ele era um dos donos das áreas exploradas pela quadrilha, sendo apontado no alto escalação da estrutura de tomada de decisões do grupo criminoso”, diz o documento. A apuração, conduzida ao longo de anos, resultou na denúncia de treze investigados e descreve uma organização criminosa de alta complexidade, envolvida em um amplo esquema de exploração econômica ilegal. Entre as atividades atribuídas ao grupo estão venda e locação irregular de imóveis, grilagem de terras, extorsão sistemática de moradores e comerciantes por meio da cobrança de “taxas” ilegais por supostos serviços, além de agiotagem, falsificação de documentos públicos, corrupção de agentes públicos, ocultação de bens e uso de ligações clandestinas de água e energia. De acordo com o documento, os denunciados integrariam uma estrutura criminosa estável e organizada, com atuação contínua no estado do Rio de Janeiro e forte presença territorial em determinadas regiões. O controle exercido pelo grupo seria sustentado por intimidação, ameaças e episódios recorrentes de violência, com impacto direto sobre a rotina de moradores e comerciantes das áreas sob influência. O relatório também aponta que a organização opera com lógica de gestão interna, divisão de funções e exploração econômica contínua das comunidades sob domínio. Há ainda indicativos de um modelo de atuação com estrutura financeira e logística consolidada, além de mecanismos voltados à ocultação de patrimônio e possível cooptação de agentes públicos. A investigação indica que Montanha contaria com o apoio de mulheres em funções auxiliares dentro da estrutura criminosa. Outros dois integrantes seriam responsáveis pela cobrança dos valores exigidos de moradores e comerciantes, além da intermediação de empréstimos extorsivos. Há ainda suspeitas de que dois investigados atuariam no fornecimento de dados pessoais utilizados para operações de ocultação e movimentação de recursos ilícitos. O conjunto de elementos reunidos pela investigação descreve uma organização criminosa com forte capacidade de controle territorial e atuação econômica estruturada, sustentada por violência, coerção e possíveis práticas de corrupção, com impacto direto sobre comunidades da capital fluminense.

Racha na milícia, execução de motoristas e ataques com granadas: documentos revelam bastidores da guerra que abriu caminho para ofensiva do CV no Catiri

A guerra travada entre o Comando Vermelho e a milícia do Catiri, em Bangu, foi marcada por atentados com granadas, assassinatos de motoristas de vans e uma disputa interna entre antigos aliados que acabou facilitando a ofensiva da facção para tomar uma das áreas mais estratégicas da Zona Oeste do Rio. Os detalhes aparecem em depoimentos prestados por policiais civis e militares em processo judicial obtido pela reportagem. Segundo os relatos, a crise teve início após a morte do miliciano Marquinhos Catiri. A partir daí, o grupo passou a ser dividido por uma disputa entre os criminosos conhecidos como “Montanha” e “Pirulito”. Este último, ao deixar a prisão, teria retomado a briga pelo controle da região e recebido o apoio de “Gordinho”, apontado como responsável pelo sistema de transporte alternativo local. Sem força suficiente para enfrentar os rivais sozinho, o grupo ligado a “Pirulito” teria buscado apoio do Comando Vermelho. A aliança acabou abrindo as portas para a entrada da facção na disputa territorial. De acordo com os investigadores, o interesse do CV pelo Catiri vai além da expansão do tráfico. A região fica próxima ao Complexo Penitenciário de Bangu, considerado um ponto estratégico pelos criminosos. Ataques com granadas e terror em ponto de vans Os depoimentos revelam que, durante o auge dos confrontos, integrantes do Comando Vermelho realizaram diversos ataques contra o sistema de vans controlado pelos milicianos. Em uma das ações, criminosos armados em uma motocicleta abriram fogo em um ponto de vans próximo à 34ª DP, lançaram uma granada e roubaram as chaves dos veículos, obrigando os motoristas a interromperem a circulação. Testemunhas correram para dentro da delegacia em busca de proteção. A polícia também relatou que dois motoristas de vans ligados ao grupo rival foram mortos durante a escalada da guerra. “Cria do Catiri” recebia armas e pagamentos para atacar a milícia As investigações apontaram que um dos homens identificados como participantes dos ataques era um morador nascido e criado no Catiri, que teria se aliado ao Comando Vermelho em meio à guerra. Segundo os policiais, o próprio suspeito admitiu que recebia armamentos e pagamentos da facção para participar das investidas contra a milícia. Ele teria revelado ainda que costumava utilizar um fuzil Colt nos ataques e que, no momento em que foi localizado na Vila Kennedy, estava apenas com uma pistola porque “a facção só havia deixado aquela arma com ele”. Polícia aponta que ofensiva partia da Vila Kennedy Ainda segundo os depoimentos, a Vila Kennedy se transformou em uma espécie de base para os ataques contra o Catiri. Policiais militares afirmaram em juízo que diversas operações foram realizadas porque criminosos saíam da comunidade dominada pelo Comando Vermelho para promover invasões e atentados contra a milícia. As investigações identificaram uma motocicleta Yamaha Lander preta como sendo utilizada em alguns desses ataques, incluindo ações na região da Cancela Preta e nas proximidades da própria 34ª DP. Os depoimentos reunidos no processo mostram que a guerra no Catiri, que ainda provoca tensão na região, não surgiu apenas da disputa entre tráfico e milícia. Segundo os investigadores, ela foi impulsionada por um racha dentro da própria organização paramilitar, cenário que acabou sendo aproveitado pelo Comando Vermelho para tentar assumir o controle do território.

Antes de operação de hoje, investigação já tinha mapeado cúpula e pedido prisão de chefes da narcomilícia no Catiri

A operação deflagrada nesta quinta-feira pela Draco contra a narcomilícia que domina o Catiri, em Bangu, ganhou destaque na imprensa carioca. A maioria dos veículos, no entanto, limitou-se a reproduzir as informações divulgadas pela Polícia Civil. Os documentos da investigação revelam que as autoridades já haviam identificado a cúpula da organização criminosa e solicitado a prisão dos principais líderes do grupo. Entre os alvos apontados como chefes da estrutura estão criminosos conhecidos pelos apelidos de Montanha, Gordinho da Van e da Kombi, Pirulito, Gaspar, Mariola e Gil. Segundo as investigações, eles integram uma organização altamente estruturada, responsável pelo controle armado do Catiri, Jardim Bangu e Cancela Preta. As apurações mostram que a região vive um cenário de guerra permanente, marcado pela atuação simultânea de milicianos e integrantes do Comando Vermelho, além da migração de antigos membros da milícia para a facção. O conflito desencadeou ataques armados, execuções, retaliações, incêndios de veículos e disputas pelo controle territorial. Morto em 2022, Marquinho Catiri mandou ali na região. Com a morte dele, houve uma cisão dentro da própria milícia entre o “Montanha” e o “Pirulito”, só que o “Pirulito” estava preso e quando foi solto começou essa briga, essa disputa com o “Montanha”, e”Gordinho. Os investigadores identificaram um verdadeiro regime de domínio imposto pela organização criminosa. A quadrilha mantém estrutura hierarquizada, divisão de funções e elevada capacidade bélica. Cada integrante possui atribuições específicas nos núcleos operacional, armado e financeiro, responsáveis por administrar recursos ilícitos, coordenar homens armados e controlar pontos estratégicos da região. A investigação teve início após denúncias de extorsão contra uma empresa terceirizada responsável por obras públicas de infraestrutura e saneamento. De acordo com a Draco, os criminosos passaram a exigir pagamentos para permitir a continuidade dos serviços e garantir a permanência dos trabalhadores nas áreas sob seu domínio. Mas o esquema não se limitava às obras públicas. Os investigadores descobriram um sistema permanente de exploração econômica do território. Comerciantes, moradores e diversos setores produtivos eram obrigados a pagar taxas impostas pela organização para continuar funcionando. Seguindo o caminho do dinheiro, a Polícia Civil descobriu uma sofisticada rede de lavagem de capitais que movimentou mais de R$ 25 milhões. A investigação revelou movimentações incompatíveis com a renda declarada dos investigados, além do uso de contas de passagem, transferências fragmentadas e circulação acelerada de recursos entre pessoas físicas e jurídicas utilizadas para ocultar a origem ilícita do dinheiro. As diligências permitiram mapear toda a engrenagem financeira da organização. Empresas formalmente constituídas e contas em nome de terceiros eram utilizadas para conferir aparência de legalidade aos recursos provenientes das extorsões e demais atividades criminosas. Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi a existência de uma rede de apoio que contaria com a participação de um policial militar. Segundo a investigação, ele seria responsável por auxiliar na movimentação financeira do grupo e prestar serviços de segurança privada para integrantes da cúpula da narcomilícia. Além das prisões, a operação desta quinta-feira mobilizou equipes do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE), Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), Departamento-Geral de Polícia da Baixada (DGPB) e da Corregedoria da PM. Ao todo, foram cumpridos 50 mandados de busca e apreensão na capital, Baixada Fluminense e interior do estado. A ofensiva também inclui o bloqueio judicial de contas bancárias, bens e ativos vinculados aos investigados, numa tentativa de atingir o principal pilar de sustentação da organização: o dinheiro. O objetivo é asfixiar financeiramente a quadrilha e interromper o fluxo de recursos utilizado para manter o domínio territorial e financiar a guerra que há anos transforma o Catiri, Jardim Bangu e Cancela Preta em um dos principais focos de violência da Zona Oeste.

DOCUMENTOS CONFIRMAM QUE TRAFICANTES TERIAM PEDIDO AJUDA A POLÍTICOS PARA TRANSFORMAR “RESORT DO PEIXÃO” EM CENTRO SOCIAL E EVITAR DEMOLIÇÃO

Documentos reunidos pelo Ministério Público e pela Polícia Militar revelam que integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP) procuraram políticos entre eles o deputado Val do Ceasa para tentar impedir a demolição do complexo de imóveis atribuído ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, em Parada de Lucas. A estratégia, segundo as investigações, consistia em transformar o local em uma fachada de projetos sociais para evitar a ação das autoridades. O conjunto de três imóveis de alto padrão, localizado no Complexo de Israel, foi identificado pela Polícia Militar durante uma operação realizada em julho de 2023 nas comunidades Cinco Bocas, Pica-Pau, Cidade Alta, Parada de Lucas e Vigário Geral. Os agentes encontraram construções consideradas muito acima do padrão da região, equipadas com lago artificial, piscina, academia completa e sistemas de monitoramento, incluindo uma câmera escondida dentro de uma tomada elétrica. Relatórios da corporação apontam que os imóveis eram utilizados por integrantes do TCP para reuniões e eventos. Em outra ação, policiais flagraram homens armados nos arredores das construções. Um dos criminosos parecia portar um fuzil calibre .50, armamento capaz de perfurar veículos blindados. Os documentos mostram ainda que as propriedades possuíam rotas de fuga estrategicamente planejadas. Além das entradas principais, havia saídas pelos fundos que levavam a becos e vielas pouco movimentados, recurso que, segundo a investigação, permitiria a evasão dos criminosos durante operações policiais. Diante das irregularidades e da suspeita de utilização das mansões pela facção, a Força-Tarefa de Ordem Integrada e Segurança Pública (FTOIS) planejou uma operação conjunta com a Polícia Militar e a Secretaria Municipal de Ordem Pública para demolir os imóveis. A ação, no entanto, acabou sendo adiada. Segundo relatórios da PM, em dezembro de 2023 o deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos, conhecido como Val Ceasa, e o então vereador Ulisses Marins procuraram o comando do 16º BPM para saber se havia uma grande operação programada para demolir os imóveis. Os dois teriam afirmado que receberam informações por intermédio de Márcia Patrícia dos Santos Alexandre, presidente da Associação de Moradores de Parada de Lucas e assessora do vereador na época. O ponto mais sensível da investigação aparece no depoimento do secretário de Ordem Pública, Brenno Carnevale. Segundo ele, Ulisses Marins relatou que traficantes haviam iniciado a construção dos imóveis, mas interromperam as obras ao tomarem conhecimento da possibilidade de demolição. Ainda de acordo com o secretário, os criminosos procuraram Val Ceasa e pediram ajuda para preservar o espaço. A solução encontrada, segundo o relato, seria implantar projetos sociais no local. O espaço passou a ser apresentado como “Espaço Fazendinha”, destinado a recreação infantil, colônias de férias e reforço escolar. Conforme o depoimento, Val Ceasa e a então deputada Dani Cunha teriam ajudado na implementação das atividades. Os investigadores sustentam que a transformação do imóvel em centro social fazia parte de uma tentativa de induzir as autoridades ao erro, ocultando a verdadeira finalidade das construções. Mesmo após a operação de demolição ter sido frustrada, os imóveis continuaram recebendo investimentos. Em setembro de 2024, novas inspeções identificaram reformas e melhorias nas propriedades, evidenciando que elas permaneciam sendo administradas. Com base nos depoimentos de oficiais da Polícia Militar e do secretário de Ordem Pública, o Ministério Público aponta indícios de atuação em favor da facção criminosa. A Procuradoria-Geral de Justiça requereu buscas e apreensões, quebra de sigilo telemático, acesso a dados armazenados em nuvens digitais e autorização para obtenção de relatórios do Coaf, além da decretação de supersigilo durante o cumprimento das medidas. Ao autorizar as diligências, o desembargador Gilmar Augusto Teixeira afirmou que os depoimentos e os elementos reunidos indicam a existência de fundadas razões para investigar o vínculo entre os investigados e integrantes do TCP que controlam o Complexo de Israel. Ontem, por determinação do procurador-geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, Antonio José Campos Moreira, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão contra três agentes públicos suspeitos de envolvimento com a facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP). A investigação criminal foi instaurada no âmbito da atribuição originária da Procuradoria-Geral de Justiça do do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), após indícios de que parlamentares teriam procurado a Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa destinada à demolição de imóveis utilizados pela organização criminosa em Parada de Lucas, região conhecida como Complexo de Israel, Zona Norte do Rio. De acordo com a investigação, eles teriam utilizado sua influência para argumentar que os imóveis eram destinados à prestação de serviços sociais, o que, segundo as apurações, não correspondia à realidade. A ação policial acabou sendo adiada. Os mandados foram expedidos pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio, que autorizou buscas na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), na Ceasa e em outros endereços na capital e no Espírito Santo. Foram alvos das medidas o deputado estadual Val Ceasa, o ex-vereador do Rio de Janeiro Ulisses de Almeida Marins e o ex-assessor parlamentar Michael Johnny Vianna de Azevedo. O procurador-geral de Justiça informou que as diligências resultaram na apreensão de R$ 341 mil em espécie, cinco armas, 11 aparelhos celulares, computadores, dispositivos de armazenamento de dados e munições de diversos calibres. Além disso, o investigado Michael Johnny de Azevedo e uma mulher que o acompanhava foram presos em flagrante por posse ilegal de arma de fogo. Todo o material apreendido foi encaminhado para a Cidade da Polícia e será submetidos à análise pericial em uma nova fase das investigações. O levantamento das apreensões ainda está em curso. “Esses fatos preocupam profundamente o Ministério Público, pois revelam um processo de degradação do ambiente político que vem se tornando cada vez mais evidente. Há poucos meses, o Ministério Público denunciou e obteve a prisão de um deputado estadual ligado ao Comando Vermelho, que já possuía condenação por lavagem de capitais antes mesmo de ingressar no Parlamento. Agora, apuramos a possível vinculação de outro agente político a uma facção rival”, explicou Antonio José Campos Moreira. “A preservação do Estado Democrático de Direito e o fortalecimento da democracia exigem

Alvo de grande operação no Brasil, facção venezuelana realiza fuzilamento de desafetos em vias públicas, além de esquartejamentos

Nesta semana, veículos de imprensa de todo o país deram destaque à operação da Polícia Civil de Roraima contra a facção criminosa Tren de Aragua, uma das organizações mais violentas e estruturadas em atuação na América Latina. As investigações apontam que o grupo estaria envolvido em uma série de homicídios registrados em Boa Vista, capital de Roraima, com atuação marcada por extrema violência. Entre os crimes atribuídos à facção, há relatos de execuções sumárias, incluindo episódios descritos como fuzilamentos em via pública, além de esquartejamentos e outras formas de violência extrema. De acordo com os levantamentos, criminosos utilizariam veículos alugados para a prática dos delitos, dificultando a identificação e o rastreamento das ações. Relatórios policiais indicam ainda que a facção atua com elevado grau de brutalidade, associada ao uso de armamento de origem estrangeira, contrabandeado da Venezuela. Documentos obtidos no curso das investigações apontam que o Tren de Aragua mantém uma estrutura de atuação transnacional, com ramificações em diversos países da América Latina e possíveis conexões com redes do narcotráfico internacional, incluindo cartéis mexicanos. Em determinados relatórios de segurança pública, o grupo já foi descrito por autoridades estrangeiras como uma organização de perfil altamente violento e com estrutura paramilitar, em razão do seu modo de operação e capacidade de expansão territorial. Nos últimos anos, a facção vem ampliando sua presença no Brasil, especialmente na região Norte, onde a extensa fronteira com a Venezuela facilita fluxos ilícitos. As investigações indicam que o grupo estaria recrutando brasileiros para atividades criminosas como tráfico de drogas, exploração sexual e mineração ilegal. O avanço da organização criminosa se torna ainda mais preocupante diante de relatos de possíveis articulações com outras facções atuantes no Brasil, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Essas conexões, segundo apurações, potencializariam o controle de rotas do tráfico e a exploração de atividades ilícitas em territórios estratégicos. Estudos e levantamentos de segurança apontam que, desde 2013, período em que Nicolás Maduro assumiu a presidência da Venezuela, houve um aumento significativo da criminalidade transnacional envolvendo grupos originários do país vizinho, impulsionado pela crise econômica e humanitária que levou à migração de indivíduos ligados ao crime organizado. A operação A Polícia Civil de Roraima (PCRR), por meio da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco), deflagrou na última terça-feira (16) a Operação Rota do Norte, voltada ao enfrentamento da organização criminosa transnacional Tren de Aragua. A ofensiva tem como objetivo desarticular as estruturas operacionais e financeiras da facção, considerada uma das mais perigosas em atuação no continente. A ação ocorre simultaneamente nos estados do Amazonas, Roraima, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, onde estão sendo cumpridos 25 mandados de prisão preventiva e mais de 30 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Poder Judiciário contra integrantes e colaboradores da organização criminosa. As ordens judiciais são direcionadas a investigados por participação em crimes como tráfico de drogas, comércio ilegal de armas de guerra e lavagem de dinheiro. O secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, enfatizou a importância da operação e o papel do Ministério da Justiça e Segurança Pública. “A Operação Rota do Norte é um exemplo concreto da estratégia nacional de combate ao crime organizado baseada em integração e inteligência. Atuamos no compartilhamento de informações, na produção de inteligência financeira e no apoio logístico às equipes envolvidas nas investigações e na execução da operação. O resultado é uma ação coordenada capaz de atingir não apenas os executores, mas também as estruturas financeiras e logísticas que sustentam organizações criminosas transnacionais. É assim que enfraquecemos as facções: retirando sua capacidade de operar, financiar atividades criminosas e expandir sua influência sobre os territórios”, disse. Modus operandi As investigações identificaram uma estrutura criminosa responsável por atividades relacionadas ao tráfico de drogas, ao comércio ilegal de armamentos de grosso calibre e à lavagem de dinheiro. O grupo investigado atuaria no fornecimento de armas de alto poder destrutivo para organizações criminosas em diferentes regiões do Brasil. Entre os armamentos citados estão fuzis, metralhadoras calibre .50 e lança-granadas, frequentemente utilizados em confrontos entre facções criminosas. As apurações também apontam fornecimento de armamento a outros grupos criminosos, incluindo integrantes do Comando Vermelho com atuação no Amazonas e no Rio de Janeiro. Para o diretor de Operações e Inteligência (Diopi), Anchieta Nery, o trabalho integrado de inteligência foi determinante para o avanço das investigações. “As ações de suporte da Senasp na Operação Rota do Norte demonstram a efetividade das estratégias que serão ampliadas no Programa Brasil Contra o Crime Organizado. O compartilhamento de informações entre os entes federativos, no contexto dessas iniciativas especializadas, vai produzir resultados cada vez mais expressivos”, explicou. Encerramento operacional Com a ofensiva, a Polícia Civil busca enfraquecer as estruturas financeiras, logísticas e operacionais do Tren de Aragua, interrompendo fluxos ligados ao tráfico de drogas, à circulação ilegal de armas e à lavagem de dinheiro, além de conter a expansão da facção no território nacional. As diligências seguem em andamento, e os resultados consolidados da operação serão divulgados após a conclusão das ações policiais.

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