Chefão do Alemão (CV) teria pago indenização à família de criança de cinco anos que ficou tetraplégica após ser baleada em ataque para evitar investigação
Um relatório da Justiça obtido pela reportagem traz um episódio que chamou muito atenção: Após uma criança de cinco anos ser baleada e ficado tetraplégica durante um ataque promovido por traficantes que tentavam tomar o controle da comunidade da Coreia, em Inhaúma, o traficante Professor (já falecido) que era um dos chefes do Complexo do Alemão, pago uma indenização à família da vítima e determinado que ela não fosse levada para realizar o exame de corpo de delito, numa tentativa de evitar o avanço das investigações. Segundo um agente da 44ª DP, a delegacia recebeu informalmente a informação de que Professor havia colocado a família da criança em uma espécie de “caixinha”, oferecendo assistência financeira após o ataque. Em razão disso, os pais teriam sido orientados a não comparecer à delegacia nem submeter a criança ao exame pericial. Na época, o policial contou que a 44ª DP passou a receber uma sequência de registros envolvendo a comunidade da Coreia, região que, até então, não possuía histórico de homicídios, tráfico de drogas ou ocorrências graves. A partir daquele momento, começaram a surgir apreensões de drogas, armas, granadas, explosivos e outros materiais bélicos. Diante da mudança no cenário, foi criada uma equipe de investigação que passou a monitorar a região. Durante as diligências, os policiais encontraram muros e paredes pichados com inscrições do Comando Vermelho, indicando a tentativa da facção de expandir seu domínio para a localidade. Segundo o investigador, em dezembro de 2021 ocorreu um ataque a tiros contra um bar localizado nos fundos da Linha Amarela. Quatro criminosos, divididos em duas motocicletas, chegaram pelos fundos do estabelecimento e, após visualizar o alvo por cima de um muro, um deles efetuou diversos disparos contra o interior do bar. O atentado atingiu dois homens adultos e uma criança de cinco anos. Os policiais estiveram no Hospital de Bonsucesso e conseguiram ouvir os dois adultos feridos. Um deles era morador da região e havia trabalhado como uma espécie de segurança dos estabelecimentos locais, função que abandonou em razão da guerra pelo controle da comunidade. Segundo as investigações, ele era o verdadeiro alvo do ataque. O outro homem, que não morava na região, também foi baleado. Duas semanas depois, ambos morreram em decorrência de infecção hospitalar. Já a criança ficou paraplégica. O policial afirmou que a equipe tentou diversas vezes convencer os pais da criança a comparecerem à delegacia, mas não conseguiu. Foi então que receberam, informalmente, a informação de que Professor teria indenizado a família e determinado que ela não colaborasse com a investigação. Pouco tempo depois, ocorreu uma nova tentativa de homicídio, desta vez contra o irmão de uma das vítimas do primeiro atentado. Inicialmente, os moradores permaneceram em silêncio, mas esse sobrevivente resolveu procurar a polícia e passou a colaborar com as investigações, fornecendo detalhes sobre a atuação do grupo criminoso. Segundo o policial, a partir desse depoimento foi possível compreender melhor a estrutura da organização. Ele afirmou que fez um levantamento de todas as ocorrências registradas na região e constatou o aumento das apreensões de drogas, armas e explosivos, além de sucessivos ataques contra equipes da Polícia Militar durante operações noturnas. O policial explicou que, embora a comunidade da Coreia não integre o Complexo do Alemão, ela fica a cerca de 800 metros da região, o que facilitava a atuação do grupo criminoso. Durante o dia, os traficantes permaneciam fora da comunidade, mas, à noite, realizavam ataques armados contra pessoas que consideravam ligadas à milícia ou contrárias à expansão do Comando Vermelho. Ele também afirmou que diversos moradores da Coreia que trabalhavam na área de segurança pública foram obrigados a abandonar suas casas em razão das ameaças. Segundo seu depoimento, o líder do tráfico da Fazendinha e do Morro do Engenho, o bandido conhecido como Professor, aproveitou a proximidade com o Complexo do Alemão para cooptar moradores da própria comunidade, que conheciam a rotina dos vizinhos e indicavam quem deveria ser intimidado, expulso ou executado durante o processo de tomada do território. Um delegado afirmou que havia investigações em andamento sobre tentativas de invasão da comunidade da Coreia por integrantes do Comando Vermelho oriundos da Fazendinha. Segundo o delegado, uma das principais investigações dizia respeito à tentativa de homicídio contra um homem chamado Jayme, cujo irmão já havia sido assassinado. Temendo pela própria vida, Jayme decidiu colaborar com a polícia, fornecendo informações que permitiram identificar diversos integrantes da organização criminosa. A partir dessa colaboração, os investigadores reuniram fotografias e vídeos mostrando criminosos armados, exibindo drogas e dinheiro, além de registros em que os integrantes se apresentavam como pertencentes ao “bonde do Professor”. As imagens mostravam homens circulando ostensivamente armados durante as investidas para dominar a comunidade. O delegado afirmou que um criminoso conhecido como Cereja foi identificado como autor da tentativa de homicídio contra Jayme e exercia a função de “matador” da organização. Segundo ele, no ataque contra Jayme outra pessoa morreu e a criança baleada ficou tetraplégica. O delegado explicou que na época as investigações identificaram 11 integrantes do grupo criminoso. Os autos reuniram fotografias, vídeos e outros elementos que mostram os acusados portando armas, drogas e dinheiro. O delegado afirmou ainda que os traficantes costumavam sair da comunidade da Fazendinha durante o fim da tarde, à noite e durante a madrugada para invadir a Coreia, intimidando moradores e anunciando que pertenciam ao “bonde do Professor”. Em algumas ocasiões agiam fortemente armados; em outras, atuavam de forma mais discreta, contando com o apoio de pessoas que, mesmo desarmadas, colaboravam com o grupo. As investigações também apontaram que Professor era o chefe do tráfico na Fazendinha, subordinado ao traficante Marcelo Xará, e que o objetivo da organização era conquistar o controle do conjunto habitacional da Coreia por sua posição estratégica, próxima a importantes vias utilizadas para o comércio de drogas.









